Seminário debate álbum “Canção do amor demais”, de Elizeth Cardoso

Autor de “Chega de saudade”, livro que se tornou uma referência para o entendimento da Bossa Nova, Ruy Castro acredita que o distanciamento dos 60 anos do movimento permita novas leituras de seu momento inaugural, em 1958, quando foi lançado “Canção do amor demais”. O álbum de Elizeth Cardoso com repertório inteiramente composto por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, é tema do seminário que o Museu da Imagem e do Som (MIS) promove hoje, a partir das 14h. 

Além de Ruy, a mesa de debates que vai reunir outros especialistas como o pesquisador Walter Garcia, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP); o cantor e compositor Celso Fonseca e Paulo Cesar Valdez Júnior, neto da cantora. A entrada é franca e o seminário acontece no âmbito da 16ª Semana Nacional de Museus.

O escritor mineiro chama a atenção para o fato de o resto do disco ter sido relegado a segundo plano. “O impacto da batida do violão na faixa ‘Chega de saudade’ foi tão marcante que o resto ficou quase esquecido. Mas Tom e Vinicius eram grandes conhecedores da tradição musical brasileira e, hoje, pode-se ver que o disco é uma enciclopédia de ritmos clássicos, incluindo a valsa, a modinha, a canção. E, claro, vários grandes sambas-canção, que eram o ritmo então predominante. Tom e Vinicius podiam fazer o novo, porque, se quisessem, também sabiam fazer o velho”, declara o escritor. 

Desde o lançamento em 1991, o livro “Chega de saudade” teve 20 reimpressões, edições nos Estados Unidos, Japão, Alemanha, Itália, Espanha e Portugal e mais de 100 mil exemplares vendidos. Em 2016, foi revisto e o autor acrescentou o capítulo “Cançãografia”, que considera fundamental para se entender que a Bossa Nova não veio do jazz nem de ritmo algum, mas de si mesma. “Ela é só uma continuação dos sambas ‘de bossa’ que já se faziam desde o ‘Jura’, do Sinhô, em 1929”, acrescenta. 

O registro do seminário desta tarde em torno da Bossa Nova será incluído na série Depoimentos para a Posteridade, que conta com 1.200 personalidades da cultura brasileira, enfatizando a música popular. Este ano, já participaram outros nomes do movimento, como Roberto Menescal, Claudette Soares, Joyce e Cesar Villela. Para o segundo semestre, estão previstas as participações de Wanda Sá, Bebeto Castilho, entre outros nomes. 

O vice-presidente do MIS, Pedro Só, destaca a importância do evento: “O debate vem complementar os depoimentos, trazendo informações e interpretações sobre ‘Canção do amor demais’, que é marco de uma transição histórica. Também serve para homenagear uma gigante da canção brasileira, com destaque no acervo do MIS, Elizeth Cardoso. Em um momento em que João Gilberto, personagem central no disco (apesar de tocar em apenas duas canções), tem sido notícia por motivos alheios à sua música, vamos discutir o que realmente faz dele um gênio e um autêntico criador, sem perder de vista como seu surgimento se insere no samba e no samba-canção, outro tesouro entre os gêneros musicais brasileiros. Nossa ambição é, a partir do encontro de especialistas brilhantes, como Ruy Castro e Walter Garcia, produzir e espalhar saber”. 

Algumas curiosidades sobre o álbum são apontadas por Pedro Só: inicialmente, “Canção do amor demais” não foi um sucesso no lançamento, em maio de 1958. Em parte, isso se deu pelo fato de que - além da prensagem limitada de 2 mil cópias - em matéria de promoção do produto, a política do selo Festa, de Irineu Garcia, era de “divulgação zero”. Só mais tarde, depois do lançamento do compacto “Chega de saudade”, com João Gilberto tocando violão e cantando, em julho de 1959, e com o sucesso da Bossa Nova no Brasil e no mundo, o álbum ganhou o status de precursor do movimento. (M.R.)