Empenhado na finalização do filme de Máfia “The e Irishman”, projeto da Netflix com Al Pacino e Robert De Niro, o aclamado diretor americano Martin Scorsese abriu o peito em Cannes e dele tirou um baú de saudades, compartilhadas ontem com uma multidão de variadas línguas, momentos antes de receber do mais concorrido (e respeitado) festival de cinema do mundo um prêmio honorário pelo conjunto de sua obra: o troféu Carroça de Ouro. Batizada com o nome de um clássico de Jean Renoir, a laúrea é concedida a mestres da direção desde 2002, sempre na abertura da Quinzena dos Realizadores, mostra paralela da Croisette. Foi lá, em 1974, em que ele, então um iniciante, exibiu o longa-metragem que bancou seu passe para o estrelato: “Caminhos perigosos” (“Mean streets), reprisado na tarde de quarta em uma cópia novinha, que deve voltar a circuito na França.
“Quando trouxe este filme pra Cannes, nos anos 1970, eu desfrutava de um anonimato que me permita ir de restaurante em restaurante, espiar o Wim Wenders e o Werner Herzog, que estavam começando também, e falar horas e horas sobre filmes. Era uma época em que a gente sabia onde estava cada objeto de uma cena filmada por diretores como Raoul Walsh, a quem eu idolatrava e ainda idolatro, como quem sabe a geografia de um espaço. Era geografia de set”, contou o diretor, com a incontinência verbal (tensa e tímida) que lhe peculiar.
Ao fim da projeção, disputada a tapa (quem quis ver teve que mofar numa fila, ao vento, por duas horas), ele se sentou e deixou o passado bater à porta de sua memória, guiado por perguntas de uma esquadra de talentos do Velho Mundo nas telas. A arguição foi conduzida pelos cineastas Rebecca Zlotowski, Jacques Audiard, Bertrand Bonello e Cédric Klapisch, com perguntas em francês vertidas para o inglês no pé do ouvido do diretor de “Taxi driver” (cult que deu a ele sua uma Palma de Ouro, em 1976) por uma tradutora.
“A última vez em que estive com Jerry Lewis, com quem filmei ‘O Rei da Comédia’, em 1983, ele já estava com 91 anos, e me disse uma coisa que bateu forte em mim. Naquele idade, ele ainda pensava em trabalhar e dizia: ‘Se você estiver fazendo um filme e perceber que o tempo não está bom, há está errado’. No vocabulário do Jerry, ‘tempo ruim’ significava não sentir prazer, não ter foco. Preciso ter foco no que eu espero contar ao pisar num set. Pra isso, eu desenho. Faço desenhos próximos do que chamam de storyboards de cada elemento de uma cena. Cada luta do ‘Touro indomável’ foi desenhada”, disse Scorsese, a uma plateia muda de tamanho encanto, de olhos lacrimejados.
“Eu já passei momentos difíceis. Cresci num bairro duro, violento, com muita gente ruim e muita gente boa. Eu não sei o que eu aprendi com os filmes que fiz, mas tive a chance de dominar uma lição: fracassar é ok, desde que você se levante depois. Já vive ‘tempos ruins’ filmando, mas me dei conta de que eu faço cinema para compartilhar com as pessoas referências que aprendi com o cinema e mudaram a minha vida... uma vida que começou pobre, asmática, numa casa sem livros. A falta de livros e a asma me levaram aos filmes”.
Laureado com o Oscar de melhor diretor em 2007 por “Os infiltrados” e coroado ainda com outros 138 prêmios ao longo de uma carreira iniciada nos curtas universitários em 1963 e nos longas em 1967 (com “Quem bate à minha porta?”), Scorsese tem um filme como coprodutor em cartaz hoje no Brasil: “Ciganos da Ciambra”, feito em uma parceria com a RT Features, do brasileiro Rodrigo Teixeira. Em Cannes, eles anunciaram mais dois projetos juntos, com diretoras estreantes: “Port Authority”, de Danielle Lessovitz, e “Murina”, de Antoneta Alamat Kusijanovic. Em paralelo, Scorsese ainda desenvolve um projeto de preservação de filmes, a World Cinema Foundation, criada há 11 anos.
“Dizem que o cinema vai acabar, mas por que ele precisa desaparecer agora? Ele tem que acabar porque hoje deixamos de ganhar dinheiro com ele? Mas e toda a emoção que ele nos proporcionou? Vai pra onde? Eu vi um filme chamado ‘A palavra’, de Carl Theodor Dreyer, uma vez só na vida, na juventude, e nunca me recuperei dele. A transcendência que ele provocou em mim ainda está aqui. Já ‘Rastros de ódio’, eu vi várias vezes. Foi assisti-lo mais uma vez há pouco tempo e tirei experiências novas dele. Cinema é ritual, é religião”, diz Scorsese. “Tenho uma neta de 5 anos a quem não posso mostrar, ainda, os filmes que fiz. Mas a minha filha mais nova, Francesca, de 18 anos, que está a cara da minha mãe, viu muitos clássicos com seus amiguinhos quando era criança. Comecei com desenhos animados, passei pra Chaplin e Buster Keaton e cheguei em ‘Pixote’. Ela e os colegas curtiam e ainda curtem.
Até ‘Aurora’, de Murnau, que poderia ser a prova de fogo, ela curtiu. Os jovens ainda amam o cinema. Ele está aí. E aqui... em nós”. Enquanto Scorsese comovia cinéfilos, Cannes comemorava uma vitória na Justiça: uma ação movida pelo produtor português Paulo Branco para impedir a projeção do esperado “The man who killed Don Quixote”, de Terry Gilliam, no encerramento do festival foi rejeitada pela Corte francesa. Branco processou o cineasta por questões de inflação no orçamento, estouro de prazos e direitos patrimoniais, mas não irá atrapalhar os planos do evento de terminar sua edição do ano com o Cavaleiro da Triste Figura (encarnado por Jonathan Pryce) logo após a entrega da Palma de Ouro por um júri presidido pela atriz Cate Blanchett. A competição segue hoje com “L’été”, do russo Kirill Serebrennikov, e “Plaire, aimer et courir vite”, do (sempre frustrante) francês Christophe Honoré.
* Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ)