Gambino e a metáfora da violência

Clipe faz crítica cheia de metáforas e é considerado uma ‘obra prima dolorosa’

Gambino aparece sem camisa em um grande galpão, onde a atmosfera vai da calmaria ao caos, de forma simultânea e com cortes violentos. As vítimas são sempre pessoas negras: “Essa é a América”, repete a persona de Donald Glover, ao longo da música.

Ator, roteirista e criador da premiada série “Atlanta”, Donald Glover foi convidado a apresentar o episódio do “Saturday Night Live” do último sábado e ser a atração musical do programa. Na ocasião, aproveitou para performar duas novas músicas e fazer a estreia mundial do videoclipe que já está dando o que falar: “This is America“.

O vídeo alcançou 32 milhões de visualizações no YouTube em 48 horas. Dirigido por Hiro Murai, é coreografado por Sherrie Silver, especialista em dança africana. Murai, parceiro de Glover na série “Atlanta” - que fala sobre a vivência do negro na América - dirige um cenário que é palco de tiroteios, violência policial, protesto, e o porte de armas, tudo em torno do racismo.

No programa da NBC, Glover ainda fez piada com o rapper Kanye West - que vive um dos momentos mais polêmicos de sua carreira, desde que declarou ao site TMZ que a escravidão nos EUA era uma opção. West compartilhou o videoclipe de Glover - também conhecido na música como Childish Gambino - em sua conta no Twitter, o que foi recebido com provocações dos internautas: “Ele é quem você gostaria de ser”.

Em artigo publicado no ”Washington Post”, a jornalista Sonia Rao descreve o vídeo como “uma obra-prima dolorosa, mas perfeitamente cronometrada, o que Glover parece fazer melhor”. O single deve compor o novo disco de Gambino, ainda sem data de lançamento definida. 

São muitas metáforas em um clipe que desperta diversas reações, entre elas o choque, a raiva, e o incômodo. “É um clipe incrível com várias referências provocativas. Para mim, como artista, ele é uma grande influência. E uma influência altamente positiva. Dificilmente alguma coisa nesse ano de 2018 vai superar o impacto desse trabalho”, comentou o rapper brasileiro Rincon Sapiência, premiado pela Bravo! com o álbum “Galanga livre”. 

Versos fúteis

Gambino não canta sozinho no vídeo. Convidou alguns rappers que estão em alta no momento, como Young Thug e Chance The Rapper, para a gravação. Além de citar versos que criticam a futilidade, como se dizer bonito ou se gabar por usar roupas de grife, enquanto, ao fundo, uma guerra acontece.

O rapper brasileiro Rashid vai além e comenta o estilo musical escolhido por Glover para falar sobre a violência policial e perpassar por todos os estereótipos do norte-americano. “Ele mistura o rap moderno, que é o trap, com uma pegada meio gospel e uma menção ao folk, com uma mudança totalmente inesperada”, explica o músico que acredita que a mistura foi feita com a intenção de satirizar o estilo musical do rap moderno, considerado vazio pelos críticos da música. “Ele está trazendo um discurso super poderoso em uma batida de trap. E essa mensagem através da música também brinca através das cenas”, completa.

Há diversas interpretações para o clipe, sendo a referência mais explícita os eventos em Charleston em 2015, quando os participantes de um culto de oração foram assassinados pelo autodeclarado supremacista branco Dylann Roof. No Twitter, vários usuários tentaram decifrá-las. 

Glover começa dançando, fazendo poses e caretas, que remetem aos personagens racistas da Era Jim Crow, termo usado para descrever as leis de segregação pré-direitos civis. Tudo isso distrai o telespectador para o que acontece ao fundo durante todo o vídeo. Para a revista “Forbes”, essas expressões de alegria do artista, em contraste com a violência ao redor, sugerem “uma América que se diverte com a contribuição cultural da comunidade negra”.

A cantora e compositora de rap e R&B Drik Barbosa faz uma advertência: “O clipe mostra nitidamente como o entretenimento que nós mesmos produzimos pode ser usado pelo sistema contra nós, se não prestarmos atenção”.

Na opinião de Rashid, Gambino acerta por reter a atenção, enquanto o caos se instaura atrás dele. “Ninguém está olhando, porque todo mundo foca no que acontece no mainstream. Essa violência e a forma como ela é tratada nos Estados Unidos também está muito presente no Brasil”, acrescenta.

É possível perceber também que todas as armas usadas pelo personagem de Glover são devolvidas com muito cuidado, enquanto os corpos são deixados de lado, fazendo alusão ao culto às armas nos EUA, como se as pistolas fossem tratadas com mais respeito do que a vida humana. No país, os estados são os responsáveis por regulamentar o porte de armas de fogo.

O vídeo termina com Gambino perseguido em um corredor escuro, cena sugerida como referência ao filme de Jordan Peele, indicado ao Oscar de 2018: “Get out”, ou “Corra!”, no Brasil. Se as referências foram premeditadas ou não, o rapper grita a realidade que é se lamentar do assassinato de um negro, enquanto mantém um sorriso falso na cara. 

Quem é Gambino?

Donald Glover começou a carreira em 2006, como roteirista da série “30 Rock”, com a qual ganhou o Prêmio Writers Guild of America de Melhor Série de Comédia em 2009, pela terceira temporada. Seu último disco, “Awaken, my love”, de 2016, teve cinco indicações ao Grammy, incluindo a de Álbum do Ano. A faixa “Redbone” ganhou o Grammy 2018 de Melhor Performance R&B Tradicional. 

Gambino recebeu ainda dois Emmy e um Globo de Ouro por “Atlanta”. Lançou dois outros álbuns - “Camp” (2011) e “Because the Internet” (2013) - e atua no filme ‘Han Solo: Uma história Star Wars’, de Ron Howard, que estreia no Brasil no próximo dia 24. 

Para a crítica, é um artista completo. “Ele é muito versátil e não é um versátil meia boca. Tudo que ele mete a mão é para fazer com a maior qualidade possível”, observou o youtuber Faustino Beats.