‘Um disco precisa ser ouvido por inteiro’

Um dos grupos pop mais bem-sucedidos do país, com 14 discos lançados e uma coerência na carreira rara de se ver no mercado, o Skank apresenta o show “Os três primeiros - Ao vivo” amanhã, às 21h, no Vivo Rio, no Parque do Flamengo. O repertório foi gravado no ano passado em dois dias de lotação esgotada no Circo Voador, com músicas dos discos “Skank”, “Calango” e “O samba poconé”, lançados, respectivamente, em 1992, 1994 e 1996 pela banda mineira. 

A primeira ideia era a de comemorar as duas décadas do terceiro disco, que foi um fenômeno de vendas (1,8 milhão de cópias!) e de hits - “É uma partida de futebol”, “Tão seu” e “Garota nacional”. Mas a vontade de contar melhor a história dos primórdios da banda, com forte in uência do dancehall, dub, ritmos jamaicanos e de sonoridades latinas, ampliou o projeto.

Assim, “Jackie Tequila”, “Te ver”, “In (dig)nação”, “Pacato cidadão”, “É proibido fumar” e “Tanto” são algumas das que são certas no repertório. “Percebemos que um show apenas com as faixas do ‘Poconé’ não justi caria duas horas de show, então decidimos contextualizar o início de nossa carreira”, conta Samuel Rosa, vocalista e guitarrista., em entrevista ao JORNAL DO BRASIL. Aliás, ele faz questão de dizer que o primeiro jornal carioca a fazer uma entrevista com a banda, ainda na época do lançamento independente do primeiro disco, foi o JB.

O novo trabalho, que vai sair em DVD, CD, Blu-Ray e vinil, ainda não tem data de lançamento. A banda decidiu incluir um pouco de sua marca atual nesse “resgate” e, entre um show e outro da turnê, vai entrar em estúdio para gravar duas faixas inéditas. 

Jornal do Brasil - A ideia inicial era fazer o registro dos 20 anos de “O samba poconé”. Por que comemorar o lançamento do terceiro disco do Skank e ampliar o repertório, com músicas dos anteriores?

Samuel Rosa - Em 2016,  zemos o relançamento do “Poconé” com algumas faixas extras de sobras de estúdio. Foi uma brincadeira boa, que rendeu uma turnê, então  camos com vontade de fazer um registro ao vivo, porque não havíamos feito nenhum em cima dos cinco primeiros trabalhos (o primeiro foi em 2001, o ‘MTV ao vivo’, gravado em Ouro Preto). Percebemos que um show apenas com as faixas do ‘Poconé’ não justi caria duas horas de show, então decidimos contextualizar o início de nossa carreira incluindo canções do primeiro (1992) e do ‘Calango’ (1994), com faixas também que não tiveram repercussão na época mas que são importantes. Depois desses três álbuns, o Skank começa a mudar. Considero ‘Siderado’ como uma transição e o ‘Maquinarama’, um trabalho que começava a apontar para outros lugares que a banda seguiria, com mais canção, mais violão.

O DVD gravado no Circo Voador em novembro tem data de lançamento?

Ainda não, pois vamos entrar em estúdio para gravar duas músicas inéditas. Uma é ‘Beijo na Guanabara’, parceria minha com Rodrigo Leão, que foi feita nos anos 1990, mas que nunca gravamos. A outra ainda não tem nome. No disco de estreia uma das faixas é ‘In (dig) nação’, música que sempre se manteve no repertório dos shows da banda. Além dela, ‘Calango’ tem ‘A cerca’ e ‘Esmola’; ‘Poconé’, a faixa ‘Sem terra’; e o mais recente, a forte ‘Multidão’, com participação de BNegão.

Como definiria a posição da banda em relação à abordagem política?

Sempre tratamos de política, mais sob a ótica da organização social e como um tema pontual nos nossos discos, nunca obrigatório. Não somos pan etários. ‘In (dig) nação’ era a época da tragédia do governo Collor, dos caras-pintadas que até hoje eu tenho dúvidas se foi um movimento válido ou algo de cima para baixo. Temos que perceber também que a culpa da situação crítica de nosso país se deve aos grandes grupos econômicos. Dos políticos, já morríamos de raiva deles em ‘Te ver’, de 1994 (‘É como não morrer de raiva/Com a política’). Espero que, com todas essas prisões, alguma coisa mude. Vamos ver. 

Numa época em que o streaming toma conta do mercado e é opção preferida para lançamentos, como é apostar em um DVD ao vivo, que retoma a fase inicial da banda?

Acho que a banda não tem que se preocupar com o tipo de lançamento, e sim como contar da melhor forma a sua história. E sei que o Skank é um exemplo, pois quem nos segue sabe que, dos clipes às capas, das letras aos arranjos, sempre tivemos todo cuidado. É o nosso patrimônio! Precisamos tratar com carinho e respeito nosso passado. É claro que hoje as coisas são medidas mais em ‘views’ do que venda física, mas eu sou contra essa estratégia de lançar singles para conquistar playlists. Ainda acredito que um disco precisa ser feito e ouvido por inteiro. 

Então você acredita que o público jovem tem interesse pelos lançamentos físicos, sejam em CD, vinil ou até cassete?

Na gravação do DVD no Circo Voador, que, aliás, é um lugar emblemático para nós, tivemos duas noites esgotadas com um público da nossa geração, mas também muita garotada. Percebo que os mais novos têm interesse, sim, por este tipo de lançamento, ao mesmo tempo que são ávidos por novidades, fuçam tudo. Eu seria hipócrita se dissesse que, recontando nossa história, não quero atingir a nova geração. Acredito que o Brasil esteja caminhando para uma maturidade no mercado, onde não seja preciso gostar só do Flamengo ou de Coca-Cola. Meu  lho, que está começando com uma banda (Daparte, onde Juliano Alvarenga, 19 anos, é guitarrista), vai ter di culdades diferentes das que tivemos na nossa época, quando as coisas eram melhor de nidas. São outros caminhos a trilhar.

Serviço

Skank - Vivo Rio (Av. Infante Dom Henrique, 85 - Parque do Flamengo; Tel.: 2272-2901). Sáb., às 21h. Ingressos: 100 a R$ 260. Classifi cação: 18 anos.