Ela já dissera, um pouco antes, a um repórter francês que lhe perguntou sobre qual o significado maior daquele novo e estranho espetáculo musical e teatral chamado “Opinião”: - C’est un protest contre le gouvernement. Sem titubear. Em francês. Pouco depois, numa entrevista ao “Diário de Notícias”, desta vez em português claríssimo, ela seria ainda mais enfática: _ Os militares podem entender de canhão e metralhadora. E nada pescam de política. As Forças Armadas não servem para nada. Nem contra uma guerrilha moderna nosso Exército serviria para nada. O Exército gasta muito dinheiro quando o Brasil precisa de mais escolas, professores, técnicos e hospitais. É preciso um novo governo, que irá se encarregar de anistiar os cassados pelo atual regime e punir os responsáveis pelo Golpe de 64. Quem está mandando é que deveria ser cassado.
E Nara disse tudo isso e muito mais em 1966, já tempo em que por muito menos deputados perdiam o mandato, estudantes apanhavam nas ruas e escritores eram presos. E quando a quiseram prender, pelo que ela disse, quem veio em seu socorro, neste “Jornal do Brasil”, foi o poeta Carlos Drummond de Andrade, em versos que apelavam ao então presidente usurpador, o Marechal Castello Branco: “Meu honrado Marechal/Dirigente da Nação/Venho fazer-lhe um apelo/Não prenda Nara Leão/A menina disse coisas/De causar estremeção?/ Pois a voz de uma garota/Abala a Revolução?/ Será que ela tem na fala/Mais do que charme, canhão?/Ou pensam que, pelo nome/Em vez de Nara, é leão?”.
“A menina disse coisas”, o verso de Drummond, inspirou-nos a fazer um musical que, como o revolucionário “Opinião”, misturasse a fala e o canto de Nara Leão. Porque até dizer essas coisas que abalariam a Revolução entre aspas, ela já havia sido a musa da Bossa Nova, já renegara o movimento que em grande parte foi forjado nas célebres reuniões que varavam madrugadas em seu apartamento à beira-mar e já havia lançado os maiores sucessos de, como se dizia na época, “sambistas de morro”, como Cartola e Zé Keti, assim como as canções de jovens como Edu Lobo e Baden Powell, que rompiam com a bossa ortodoxa de amores tantos e barquinhos a deslizar; já havia, e não por acaso, encarnado a “Pobre menina rica”, de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra, a menina burguesa como ela que, por pura poesia, apaixonava-se por um mendigo poeta que lhe cantava lindas canções no terreno baldio ao lado; já havia revolucionado o teatro musical brasileiro ao lado de Vianinha, Ferreira Gullar e Augusto Boal e de seus colegas de palco Zé Keti e João do Vale, inaugurando não só um novo gênero teatral como introduzido na música brasileira a “canção de protesto”; já havia largado o tal musical e, por pura intuição, pediu para pôr em seu lugar uma força da natureza que conhecera pouco antes em Salvador, revelando para o mundo Maria Bethânia; já havia lançado, entre outros, compositores como Gilberto Gil, Sidney Miller e, principalmente, Chico Buarque de Holanda, o seu preferido, de quem na ocasião estava lançando uma marchinha tímida, graciosa, irônica e inteligente como ambos, “A banda”.
Tudo isso Nara disse e fez com nem 24 anos. Encarou os milicos, o pai, o professor, o namorado, os músicos, o executivo da gravadora. Encarou todo mundo, feminista na prática, revolucionária de voz baixa, sorriso e boa educação. E diria e faria muito mais. Abraçaria a Tropicália, lançando algumas das canções mais contundentes de Caetano e Gil (“Lindonéia”) ou Caetano e Torquato Neto (“Deus vos salve esta casa santa”), escreveria outro artigo para a abalar a Revolução (“A desesperança, o desespero, a falta de perspectiva de todos nós neste momento, tudo isso é impossível de ser dito em música. A realidade está feia demais para ser cantada e celebrada”, diria em 68), exilaria-se em Paris onde aprenderia a ser mãe e se reencontraria com a Bossa Nova. Na volta, realizou o velho sonho de estudar e optou pela psicologia, para entender a própria loucura e a dos outros. Gravou tantos e tão lindos discos abarcando tudo que lhe instigava, Roberto Carlos, samba, Chico Buarque, muita Bossa Nova. Encarnou o que me parece ser a sua mais perfeita tradução e que a tornaria imortal para crianças das gerações seguintes, a Gata de “Os saltimbancos”, aquela para quem “o mundo era o apartamento”, mas que optou corajosamente pela rua, por passar a vida cantando no meio da gataria.
Serviço
Nara – A menina disse coisas Teatro Ipanema (R. Prudente de Moraes, 824, Ipanema. Tels: 2267-3750) Sábado a segunda, às 20h30 Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia) Classificação: livre Até 21 de maio.