Uma temporada na frança: Refúgio na identidade

O sono do professor Abbas Mahadjir é perturbado sempre pelo mesmo pesadelo. Nos corredores da casa em que vive na França, ele procura a sua esposa. Ele a encontra, mas o despertar é doloroso. Ela morreu na guerra civil da África Central. Abbas, para salvar o casal de filhos, buscou refúgio na Europa. Em “Uma temporada na França” (original “Une saison en France”), o diretor e roteirista nascido no Chade, Mahamat-Saleh Haroun, cria o pesadelo do professor para representar a saga do homem em busca de um lugar no mundo.  A esposa que se foi é a memória da Mãe África, que Abbas foi forçado a abandonar para sobreviver numa Europa que não o quer. Ele carrega sua identidade na memória e no coração e dela faz o seu país. 

Na França, ele não é mais o professor. Agora, o refugiado é empregado em uma barraca de legumes e namora uma florista francesa também de origem imigrante, família polonesa. Subempregado e reivindicando a permanência no país, Abbas mantém os filhos na escola e os educa sozinho com o afeto de manter a herança africana das canções de ninar. O maior mérito do filme de Haroun é tratar a questão dos refugiados do pronto de vista particular, porém universal. Naquela família está a dor da partida forçada e a ruptura cultural, a saudade dos que morreram no conflito, o sofrimento de crianças impedidas de viver a plena infância, o homem que clama por dignidade.

O diretor exibe uma França fora do cartão-postal. É no cotidiano do exilado que percebemos a questão do racismo em alta na Europa. Não há integração, apesar do tempo no país. Numa festa de aniversário ou num enterro, as comemorações estão restritas ao pequeno núcleo de personagens. Mas a lente de Haroun também focaliza os movimentos xenófobos em pichações, na destruição da morada de um refugiado e na desolação dos campos de Calais. 

O diretor comanda um elenco afinado, com destaque para o vulcão Eriq Ebouaney, que constrói um Abbas com dor, doçura e dignidade. Ele carrega a nação dentro dele, afinal, o homem é o seu próprio país. Sandrine Bonnaire (de “Mulheres Diabólicas, de Chabrol) faz ótima parceria como a namorada presente e sensível do refugiado. 

“Uma temporada na França” é um título irônico para a abordagem da letra fria da lei que não considera as tragédias humanitárias. O longa remete a “Eu, Daniel Blake”, de Ken Loach, que denuncia o sistema previdenciário britânico, a humanidade que é considerada apenas número. Mahamat-Saleh Haroun traduz a situação dos refugiados com ampla representação do cinema social que pensa o ontem e o hoje e questiona o que vem pela frente. Numa cena chave, Abbas e seus filhos, sem conseguir visto para ficar na França, abrem um mapa para encontrar um outro país para viver. As crianças brincam e usam a imaginação para sonhar como seria a vida naqueles lugares. Os inocentes deveriam herdar a Terra.

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UMA TEMPORADA NA FRANÇA

NOTA: ***

COTAÇÕES:

- : PÉSSIMO

* : RUIM

** : REGULAR

*** : BOM

**** : MUITO BOM

* Ana Rodrigues é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)