Viva Cazuza! Dois shows marcam 60 anos de nascimento do poeta carioca

Dois shows marcam os 60 anos de nascimento de Cazuza e a homenagem se dá do jeito que ele gostava, com festas cheia de amigos. O primeiro acontece hoje no Circo Voador, com Rogério Flausino e Wilson Sideral encabeçando a noite, que terá a participação de Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Bebel Gilberto e Preta Gil. Na sexta-feira, será a vez de George Israel reunir no palco do Blue Note, na Lagoa, os músicos Paulo Ricardo, Danni Carlos, Gutto Gofi, Toni Platão, Maurício Barros e Arnaldo Brandão. 

As duas bilheterias serão revertidas para a Sociedade Viva Cazuza, instituição criada por Lucinha Araújo em 17 de setembro de 1990, dois meses e meio após a morte do lho. “Todos os eventos que têm ligação com ele passam por minha autorização e da editora, final, a Viva Cazuza vive dos direitos autorais. E vou a todos eles: shows, homenagens, lançamentos e até nas apresentações do Bloco Exagerado. Enquanto puder, estarei presente em tudo”, firma Lucinha. 

“Este nosso feliz reencontro tem como propósito propagar, ainda mais, a música e a poesia de Cazuza, que foram fundamentais na formação de nossa geração. E também é uma grande oportunidade de ajudar a fomentar o lindo trabalho realizado pela Sociedade Viva Cazuza no combate à Aids”, comenta Rogério Flausino, sobre a apresentação de hoje na Lapa. “A ideia é festejar, juntar a galera e fazer música. Quisemos fazer uma festa mais intimista com os amigos, os parceiros e a Lucinha para marcar os 60 anos do Cazuza, um dos maiores poetas da música brasileira e em especial da minha geração. O lucro do show será revertido para a Viva Cazuza com o nosso carinho”, completa George Israel, sobre as apresentação de sexta na Lagoa. 

Lucinha, que continua firme como presidente da instituição que atende atualmente 19 crianças, conta que muita coisa mudou desde que começou o trabalho ainda no Hospital Garée e Guinle. “Acabei percebendo que tinha mais cacique que índio por lá, aí mudamos para esta sede (Rua Pinheiro Machado, 39, em Laranjeiras) em 1992. No início, as pessoas tocavam a campainha e entregavam as crianças para nós cuidarmos, mas a lei mudou ao passar dos anos e quem manda aqui agora é o Juizado de Menores. Foi quando descobri que só tenho deveres e nenhum direito. Mas eu sou tinhosa, não desisto”, comenta ela, indignada. 

O local, que já chegou a abrigar 37 crianças portadoras do HIV - agora, por lei, só pode receber 20 - oferece moradia, matrícula na rede pública, todo tipo de atendimento médico e atividades culturais, esportivas e recreativas. “Metade delas é órfã, a outra, ou foi abandonada ou os pais não têm condições de criar. Aos 18 anos, elas saem, mas isso não é regra. Tenho aqui duas irmãs, por exemplo, uma de 20 e outra de 16. A mais velha trabalha de dia e faz faculdade à noite”, conta. 

Lucinha, que dá expediente todo dia na casa, diz que seu trabalho é gratificante. “Eu nem gosto desse termo, mas é isso: não sou nenhuma Madre Teresa de Calcultá, tenho certeza de que aproveito mais do que ofereço. Imagina eu, sozinha no mundo, viúva, o que faria? Nem gosto de tricô”, diz, brincando. 

Sobrevivendo de direitos autorais 

Os eventos dedicados a Cazuza são sempre um extra bem-vindo para ajudar na manutenção da casa, que só conta mesmo, de concreto com a arrecadação dos direitos autorias do cantor e compositor. “Tenho dois ou três amigos que contribuem frequentemente e tenho o dinheiro que meu marido deixou. As doações diminuíram bastante, infelizmente, final, o Brasil está falido. Um exemplo visível é esse (apontando para uns poucos ovos de Páscoa e três ou quatro caixas de bombons arrumados no sofá de sua sala). Todo ano era tanto chocolate que eu dava para os funcionários, agora nem foi suficiente para todas as crianças”, lamenta. Uma importante verba que Lucinha perdeu foi a da Secretaria Municipal de Saúde, com a qual contava na gestão de Eduardo Paes. “Ainda não consegui retomar isso na nova gestão, mas vou ter a cara de pau de procurar o prefeito pessoalmente para conversar sobre isso”, avisa. 

Além do atendimento das crianças, a casa tem o Projeto Cazuza, com o acervo do cantor e compositor numa sala do segundo andar da casa que é aberto ao público, e o Projeto Adesão ao Tratamento, que atende 200 adultos. “O Brasil é um dos poucos países que distribuem remédios para Aids de graça e, acredite, muita coisa é desperdiçada, jogada fora, porque muitas vezes os doentes não sabem ler e, por isso, não conseguem tomar os medicamentos. Oferecemos atendimento psicológico e orientações de como se medicar, além de dar uma cesta básica mensal. Eles têm que provar que não têm condições de trabalhar e estão realmente dando prosseguimento ao tratamento”, explica Lucinha. 

Essa iniciativa indica um quadro de atendimento amplo da instituição, que vai desde o recém-nascido até pessoas com mais de 70 anos. “Temos aí várias situações agravantes. Com o crack, veio um aumento de crianças infectadas; com o Viagra, os idosos voltaram a fazer sexo e, como a maioria não tinha o costume de usar camisinha, acabou aumentando a incidência da doença na Terceira Idade. Além disso, é visível que a juventude não está se cuidando, pois aumentou o número de doentes entre os 16 e 27 anos. Isso se dá muito por conta da ideia de que não se morre mais, uma vez que os novos retrovirais proporcionam uma vida longa e de qualidade e mantêm a boa aparência. Se eles vissem como uma pessoa pode ficar no estado terminal da doença, levariam um susto e se cuidariam”, adverte Lucinha. 

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Serviço 

Flausino e Sideral cantam Cazuza ? Show com participação de Caetano Veloso, Bebel Gilberto, Preta Gil e Ney Matogrosso. ? Circo Voador (Rua dos Arcos s/n; Tel.:2533-0354). ? Hoje, às 22h. ? Ingresso: R$ 60. Cazuza 60 ? Amigos e parceiros celebrando sua vida e obra ? Show com George Israel, Danni Carlos, Paulo Ricardo, Toni Platão, Guto Goffi, Maurício Barros e Arnaldo Brandão. Blue Note Rio (Av. Borges de Medeiros, 1424 ? Lagoa ? 3799-2500). Sex., às 22h30. ? Ingressos: R$ 90 (lounge) e R$ 120 (setor premium).

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