Ken Loach: ‘Marx é sempre um farol’

 Embora já tenha anunciado sua aposentadoria do cinema muitas vezes, Ken(neth Charles) Loach não larga o osso: aos 81 anos, o diretor inglês, consagrado com duas Palmas de Ouro por seu modo poético de traduzir engajamento a lutas sociais em forma de filmes, segue a idealizar longas-metragens. De 1967, quando estreou como cineasta com “A lágrima secreta”, até 2016, quando foi contemplado com sua segunda Palma em Cannes por “Eu, Daniel Blake”, rodou cerca de 40 produções, entre ficções, documentários e telefilmes. Desse pacote, 22 títulos foram reunidos pelas curadoras Claudia Oliveira e Fernanda Bastos numa retrospectiva da estética piqueteira do cineasta, que começa hoje na Caixa Cultural, no Centro, onde segue até o dia 15. No dia 7, às 16h30, será exibido o longa que deu a ele sua primeira Palma, “Ventos da liberdade”, de 2006. Ao fim da sessão, a Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ) vai debater sua filmografia, que sempre se alimenta dos escritos marxistas em prol dos direitos humanos. 

“Marx é sempre um farol para o mundo, pois ele aponta questionamentos onde muitos só enxergam certezas”, disse Loach. Na entrevista a seguir, dada ao “Jornal do Brasil “ na França, ele explica como constrói sua linguagem e também fala sobre o país. 

JORNAL DO BRASIL: Seu cinema incorpora fatos reais, emprega não-atores. O que há de documental nele? 

KEN LOACH: Fiz filmes como “Espírito de 45” (em exibição na Caixa Cultural no dia 13, às 17h) que são essencialmente documentais: usam imagens de arquivo e não ficcionalizam nada. Ali, eu tenho um documentário. Fora isso, conto histórias, inventadas, com uma reflexão moral na maneira como os personagens encaram suas jornadas. Não uso câmera na mão, não invado o espaço do ator para desfocar sua interpretação e valorizar o que está em torno dele, e me baseio sempre em roteiros. Uso tripé, com câmera fixa, ensaio... Tudo isso quebra uma certa estética documental que ficou em voga nos últimos anos e que tem seu valor. Mas não sigo esse caminho. Eu observo. Minha câmera é testemunha de reflexões que meus atores – mais ou menos experientes na prática de atuar – fazem acerca de problemas universais que apresento a eles. E parto de pesquisa na escrita dos scripts, feita pelo meu parceiro Paul Laverty. Ao observar, enquadro o real e o analiso.   

JB: O que o rótulo de “cineasta marxista” representa para o senhor? 

KL: Houve um momento na História do século XX no qual, qualquer atitude dialética, que envolve a preocupação com o bem-estar da sociedade, passou a ser encarada como expressão política. Se o rótulo vier dessa ótica, está aceito, embora ele seja redutor. Leio Marx décadas a fio, porque o Velho Barbudo sempre tem o que explicar acerca de nossas incongruências. Marx não é religião, é iluminação. Agora, o fato de eu passar por ele para falar sobre pessoas – que é o que meus filmes buscam fazer – faz da minha obra “cinema político”. Há uma linhagem de filmes que assumem melhor essa classificação, como eram os longas de Elio Petri, de Costa-Gavras, do seu Glauber Rocha e muitos documentários. Eu conto histórias sobre pessoas em conflitos pessoais diante de dilemas práticos. E, muitos desses dilemas, é o Estado que cria. Enquanto o Estado não parar de culpar os pobres por seu infortúnio, não pararei de filmar, enquanto tiver forças.

O senhor é um dos poucos diretores a ter duas Palmas de Ouro no currículo. A segunda, conquistada por “Eu, Daniel Blake”, em 2016, veio às vésperas do seu aniversário de 80 anos, ampliando sua popularidade em circuito. Qual é o valor ético desse filme na sua obra? 

 KL: Todos os meus filmes partem de um olhar sobre as cidades onde eles se passam, ou sobre países, como é o caso da Espanha franquista em “Terra e liberdade”. A cidade é um coprotagonista, pois ela interage todo o tempo com os personagens, modificando como eles agem. “Eu, Daniel Blake” tem muitas universalizações, mas tem também um foco geográfico bem específico: Newcastle, uma cidadezinha a 450 Km ao Norte de Londres, com uma tradição de lutas sindicais. É um lugar mais pobre do meu país, que adotei como cenário a fim de gerar uma reflexão sobre o quanto é desordenada a assistência aos desempregados. A Inglaterra é um país do desemprego e de muitas outras contradições. Muitas delas vieram à tona com o plebiscito acerca da nossa saída da União Europeia e o Brexit. Nesse filme, tive a sorte de partir do conflito do desemprego para falar sobre amizade e denunciar o peso da burocracia nos centros de assistencialismo. 

JB: O senhor manifestou interesse, há quase uma década, em fazer um filme sobre Jean Charles de Menezes, brasileiro morto no metrô de Londres, em 2005. Também mostrou desejo de filmar o impeachment de Dilma Rousseff. Qual é a imagem que o senhor tem do Brasil hoje?

KL: Não cheguei exatamente a planejar filmes sobre esses fatos que citou, apenas penso que eles deveriam ser filmados, mas não por mim, porque eu não falo português. A língua é essencial para falar de uma outra cultura. Eu entrei no cinema numa época em que o Brasil estava em moda, com filmes de grande potência, do chamado Cinema Novo. Vez por outra, surge algum fenômeno, como “Cidade de Deus”, mas não é sempre. O que eu sei é que vocês passaram por um golpe de estado e isso vai ter consequências sobre vocês e sobre nós, aqui do Velho Mundo, com a desestabilização da América Latina.

* Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)

Cinco filmes imperdíveis da retrospectiva

“Rota irlandesa” (2010) 

Mais parecido com um (bom) filme de ação hollywoodiano, à la Jason Bourne, este thriller discute a “mercantilização da guerra” e, para isso, parte da opção - cada vez mais em voga - de governos, como o dos EUA, utilizarem mercenários autônomos em missões de intervencionismo em solo estrangeiro, em vez de seus próprios militares. Mark Womack brilha no papel de Fergus, um desses soldados de aluguel que refuta as explicações acerca da morte de seu melhor amigo em combate. Concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2010. Sessão na mostra: Dia 14, às 19h; 

“Mundo livre” (2007) 

Laureado com o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Veneza, este ensaio investigativo sobre os males morais do desemprego consagrou a atriz de TV Kierston Wareing, aqui em seu primeiro papel de protagonista na telona. Ela interpreta Angie, jovem sem trabalho que arruma um veio de renda rentável ao se tornar uma agente de empregos para imigrantes estrangeiros (sobretudo os ilegais). Sessão na mostra: Dia 10, às 19h; 

“Ventos da liberdade” (2006) 

Esta reconstituição da guerra de libertação da Irlanda, em sua luta contra a opressão inglesa, rendeu a primeira Palma de Ouro de Loach e confirmou o prestígio de Cillian Murphy como ator. Ele encarna Damien, médico que comandou a briga pela autonomia republicana da Irlanda, em 1920, ao lado de seu irmão (e futuro algoz) Teddy (Pádraic Delaney). Sessão na mostra: Dia 7, às 16h30; 

“Singing the blues in red” (1986) 

Precioso retrato das relações sociais nos tempos de Guerra Fria, este drama com elementos musicais concorreu ao Leão de Ouro em Veneza e saiu de lá com o prêmio da Unicef. Nele, Loach explora os conflitos de um músico e cantor da Alemanha Oriental disputado pelas gravadoras dos EUA. Klaus (o ótimo Gerulf Pannach) não se alinha com o jugo comunista em sua pátria natal, tampouco aceita os ditames capitalistas da indústria da música.  Sessão na mostra: Dia 15, às 19h;

 “Kes” (1969) 

Marco do cinemanovismo (movimento que modernizou a linguagem audiovisual, engajando o cinema a transformações políticas e comportamentais e renovando sua forma) na Inglaterra, esta crônica sobre amadurecimento venceu o Festival de Karlovy Vary, em solo tcheco, um dos mais prestigiados da década de 1960. A trama segue a educação sentimental de Billy (David Bradley), menino de classe operária que adolesce, tendo um falcão como melhor amigo. Sessão na mostra: Dia 5, às 16h30.

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