Zé Celso traz “O rei da vela” para o Rio 

O Teatro Oficina, de Zé Celso Martinez Corrêa, celebrou no ano passado os 50 anos da montagem de  “O rei da vela”. Escrito em 1933 pelo poeta Oswald de Andrade e publicado em 1937, o texto virou peça, filme e teve temporada de lotação esgotada no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, São Paulo. Depois do carnaval, a companhia fez curtíssima temporada no Teatro Sérgio Cardoso, e ganhou fôlego, dada a atualidade do texto de Oswald para o cenário político do Brasil. 

As páginas da história prometem ser reforçadas com a vinda de “O rei da vela” para o Rio de Janeiro. Serão cinco sessões na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca (dias 14, 15, 20, 21 e 22 de abril). 

O assassinato da vereadora Marielle Franco  no dia 14 de março foi o estopim para que Zé Celso  atravessasse uma barreira de obstáculos para trazer o espetáculo ao Rio. O convite partiu de Bel Kutner, diretora da Cidade das Artes, como noticiou a colunista Hildegard Angel, no dia 24 de março. O diretor completa 81 anos amanhã, concentrado no que batizou de “Caravana da intervenção cultural do rei da vela no Rio de Marielle”. Zé Celso considera o Rio  como o “lugar mais Faixa de Gaza” do  país, comparando a cidade ao território palestino em guerra no Oriente Médio. Espera que a montagem traga à cidade uma “iluminação poética”. 

“Artistas de todas as áreas estão criando condições para que aconteça ‘O rei da vela’, consagrada no Rio em 1968, de onde repercutiu para o Brasil e o mundo, juntamente com ‘Roda viva’,  de Chico Buarque. A peça de Oswald, escrita na ascenção do fascismo, ganhou uma atualidade ainda maior depois do golpe que ‘Fake Temer’ liderou em 2016”. 

A “Caravana da intervenção cultural do rei da vela no Rio de Marielle” move mundos e fundos. O eixo é o financiamento coletivo, via plataforma Benfeitoria. Serão necessários R$ 150 mil para cobrir os custos básicos. Vêm 40 pessoas do Teatro Oficina, entre técnicos e elenco, que vão se hospedar em casas de amigos. Dois caminhões transportarão a estrutura da peça, com os grandiosos cenários de Helio Eichbauer, luz e figurinos. Tudo torna ainda mais emblemática a vinda do grupo à cidade. 

Quem participar da colaboração vai concorrer a violões autografados por Caetano Veloso e Gilberto Gil, livros de Fernanda Torres, um par de ingressos para a temporada do show de Chico Buarque em São Paulo (detalhe: com direito à foto com o artista), além de muitas peças gráficas do acervo do Teatro Oficina, para destacar alguns itens. 

Com seu vocabulário único, Zé Celso fala sobre a ocasião. “A execução de Marielle atingiu os subterrâneos profundos dos brasileiros, subjugados, artistas, subterraneados da classe média baixa, até os baixios da Pirâmide Social ao Alto das Favelas, vivendo esta eterna Guerra de Canudos. Mas hoje tenho certeza de que estamos em sublevação, até mais do que em 1968, depois da execução do estudante Edson Luís. Nunca, depois do Golpe de 2016 [com o impeachment da presidente Dilma Roussef, algo parecido aconteceu. Estamos numa outra Era: o Rio virou o Brasil. Ao mesmo tempo, os fascistas desembestaram de vez para a violência tentando mais execuções como a de Lula, que agora corre risco de vida”. O diretor lamenta não poder ocupar o Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, palco de outras encenações do Oficina. “Montamos a primeira versão de ‘O rei da vela’, ‘Galileu Galilei’, ‘Os pequenos burgueses’ lá. Tinha 1.400 lugares, sempre  lotado. Torço para que o movimento dos artistas do Rio consiga recuperar a sala”, diz. 

Zé Celso atualiza a situação do Teatro Oficina, às voltas com Sílvio Santos. “O governador Geraldo Alckmin e o prefeito João Dória entregaram ao Grupo Silvio Santos, por interesse eleitoreiro, o entorno tombado do Teatro Oficina: “Parque do Bixiga” e a dita “Revitalização do Bairro do Bixiga”, isto é, o genocídio dos moradores da Lapa de São Paulo, para construção de prédios de 100 metros de altura para a classe média. O Golpe de 2016 foi sucedido numa rapidez de minutos por golpes contínuos. Nós sofremos o golpe no dia 23 de outubro. A situação de impasse hoje está com o Ministério Público, que examina a legitimidade ou não deste golpe. Na Câmara dos Vereadores de São Paulo, o Partido Verde, através do vereador Gilberto Natali, apoiado pelo vereador Eduardo Suplicy e muitos outros, entrou com um processo para tornar público o Parque do Bixiga, Entorno do Teatro Oficina em forma de um projeto de Lei”, escreveu o artista. 

Da vida real para o palco, nem parece que o tempo passou. A trama de “O rei da vela” mostra a rotina no escritório  de Abelardo & Abelardo, o protagonista Abelardo I, banqueiro, agiota, o Rei da Vela, com seu domador de feras, o empregado socialista Abelardo II subjugam clientes numa jaula – devedores, impontuais, protestados…”, de acordo com a sinopse. 

Burguês, Abelardo faz um negócio para a compra de um brasão: casar-se com Heloísa de Lesbos, que se negocia como valiosa mercadoria para manutenção da família, falida pela crise do café, no seleto grupo dos 5% da elite. Abelardo I, submisso ao capital estrangeiro do Americano, no terceiro ato leva um golpe de Abelardo II, que o sucede na manutenção da usura do capital.

 Estão no elenco, Marcelo Drummond, Tulio Starling, Sylvia Prado, Camila Mota, Cristina Mutarelli, Zé Celso, Vera Barreto Leite, Roderick Himeros, Ricardo Bittencourt, Fred Steffen, Daniele Rosa, Tony Reis e Joana Medeiros.

Serviço

“O rei da vela” - de Oswald de Andrade. Com o Teatro O?cina.

1ª semana: 14 e 15/04/18 (sábado e domingo) 

2ª semana: 20, 21 e 22/04/18 (sexta, sábado e domingo) 

Sexta, às 20h | Sáb. e dom., às 19h 

Ingressos: R$ 80 e R$ 40 (estudantes, aposentados, professores e artistas). 

Cidade das Artes (Av. das Américas, 5300 - Barra da Tijuca 

Duração:  3h30 Indicação etária:  16 anos 

Projeto de ?nanciamento coletivo RJ: www.reidavelanaestrada.com/rio