Roda de choro no bairro da Glória vira badalado ponto cultural

O que há quatro anos era apenas o encontro de amigos músicos em um bar de esquina da Glória acabou se tornando um ponto cultural movimentado, que atrai pessoas de vários bairros da cidade. A roda de chorinho da Rua Benjamin Constant, que acontece às quartas-feiras, das sete às dez da noite, atrai centenas de pessoas todas as semanas. São estudantes, funcionários de escritórios próximos e turistas, além de aposentados e famílias inteiras, que toda semana batem ponto ali. A saída da estação de metrô é um indicativo de que algo de diferente está acontecendo naquele pedaço. Entre o pastelzinho crocante e o gole da cerveja estupidamente gelada, o público degusta músicas de Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Waldir Azevedo e Ernesto Nazareth. E o fato de haver poucas mesas disponíveis no Boteco Pé de Santa não parece ter a menor importância para os frequentadores, que se espalham pela calçada e a escadaria de pedra, até a música acabar e o botequim baixar as suas portas. “É um ambiente seguro, com pessoas descontraídas e boa música”, resume o procurador João Paulo, morador da Barra da Tijuca, que, se destacava no ambiente por estar usando terno. Era a primeira vez que ele participava do evento, a convite do amigo Carlos Eduardo, da área financeira. “Esta é a segunda vez que venho aqui. Mesmo morando no Recreio, acho que vale a pena frequentar aqui”, diz.

Música, petiscos e paquera

Todo esse grande burburinho começou em 16 de abril de 2014, quando os músicos se reuniram no bar para tocar. “Lembro da data exata porque, mesmo sem ter sido planejado, foi uma semana antes do aniversário de Pixinguinha”, conta Diego Terra. O saxofonista era vizinho e amigo do violonista de 7 cordas Lucas Porto e, como eles, vários outros instrumentistas residem no bairro e proximidades. A roda de choro nasceu desses encontros casuais no bar em que costumam assistir ao futebol.

“O público hoje está entre os 25 e os 40 anos e vem de todas as partes da cidade. Observo também muitos pais jovens, que chegam e vão embora mais cedo com as crianças”, diz Diego, que chama a atenção também para a importância de se quebrar preconceitos em relação ao chorinho. “Outro dia atravessei a rua para comprar algo e uma menina se espantou ao me ver com o sax . Ela disse que pensava que era um grupo de velhinhos que tocava na roda”, diverte-se.

Se o dia da apresentação sempre foi o mesmo - toda quarta-feira - o alcance e horário mudaram muito. “Tinha dia que era só eu e um violonista tocando para dois ou três frequentadores. No início, vinham os moradores da região, para quem já passamos muito o chapéu”, brinca. O boca a boca foi se multiplicando e, com o plateia crescente, também vieram as queixas dos vizinhos. 

“Eles reclamavam mais do movimento que cava depois que acabávamos de tocar. Afinal, sempre tem alguém com violão, mais animado. E aí, conseguimos chegar a um acordo: encerramos pontualmente às 22h e o bar fecha mais cedo”, diz o contrabaixista Pedro Aune, que, mesmo não sendo integrante formal do grupo, acompanha o movimento desde o início. “Na época em que o grupo foi formado eu não pude participar, mas toco quase toda semana. Afinal, é o espírito do chorinho ter sempre espaço para os amigos e convidados”, diz o instrumentista.  

Música, bebida e paquera

“Eu já levei muito ovo na cabeça”, conta, entre gargalhadas, Fernanda Alves, sobre o tempo em que os vizinhos andavam insatisfeitos. Frequentadora da roda de choro desde o início, ela estava acompanhada pela amiga Jessica Balbuena, gaúcha que veio morar na cidade há um ano e meio.

“Bom, o pessoal não ia embora, mesmo depois de o grupo terminar a apresentação e, certamente, o barulho incomodava”, conta Fernanda, confessando que também fazia parte dos que esticavam a noite no local. Sobre o que mais as atraíam no evento, se a música, bebida ou “clima de paquera”, as duas se entreolham e parecem combinar a resposta: “O chorinho!”

Jessica, que trabalha na área de audiovisual com Fernanda, conta que decidiu passar a frequentar a Glória desde que se assustou com a violência na Praça São Salvador, onde costumava ficar: “Atualmente, prefiro ir à quadra do Cardosão, em Laranjeiras, e nos chorinhos como os daqui e os do Flamengo”.

A jovem se refere a dois bares na Rua Marquês de Abrantes que reúnem, uma vez por semana, músicos de chorinho. “Frequento outras rodas, como a do Boteco Bom Gosto, na esquina da Travessa dos Tamoios. Mas lá é um outro perfil, nos reunimos para estudar e trocar ideias de arranjos, composições”, explica Diego.

Clima de paquera é o que se percebe no ar no Choro da Glória. Era só ver o chamego do casal Maria Carmem e Wilson. “Moro metade do ano na Dinamarca e metade aqui, no Itanhangá. Semana passada, nos conhecemos numa festa e ela me convidou para conhecer o choro”, conta ele. Ela, que mora em Botafogo, diz que foi a filha que a levou ao evento pela primeira vez. “Adorei o grupo, o repertório é impecável. Por isso convidei ele para vir aqui”, diz ela.

Contratação - Com um ano de roda, Diego conta que ainda faltava integrantes para que o grupo chegasse a uma formação clássica de chorinho. “Foi quando a dona do bar propôs que passássemos a tocar como contratados da casa. Aí, conseguimos fechar a formação, seguindo em duas frentes, a roda na Glória e concertos e arranjos em casas de shows”, conta Diego. 

O Choro na Glória é formado atualmente por Anderson Balbueno (pandeiro), Bernardo Diniz (cavaco), Pedro Barros (violão de seis), Rodrigo Milek (clarinete), além de Diego e Lucas. 

Rogéria Fernandes, dona do Boteco Pé de Santa há 22 anos, comenta que, nas primeiras quartas-feiras, percebeu que “o grupo atraía um público legal” e, depois de um mês, começou a lotar. “Resolvemos contratá-los para formalizar as apresentações e, além do cachê, pagamos todos os direitos autorais”, conta a proprietária.

Feliz e até um pouco espantada com o crescimento de público, Rogéria diz que em dia de chorinho, contrata mais cinco funcionários para dar conta do movimento. “Também estou providenciando algumas obras para aumentar o espaço e dar mais conforto ao público”, revela.

Os pastéis de carne e queijo e caldinho de feijão, já famosos entre os frequentadores têm atraído, além da música, estrangeiros. Como os amigos italianos Noemi Frahini, Antonio Caroli e Silvia Di Eusanio, que estavam no local pela primeira vez. “Estamos no Rio há dois meses e somos voluntários da ONG Projeto Luar, em Jardim Primavera, Duque de Caxias. Moramos lá também e é a segunda vez que viemos ao chorinho, porque é maravilhoso”, diz Noemi.

A face camerística do grupo, em formação de quinteto, veio em 2015, quando os músicos organizaram uma temporada de shows na Casa do Choro. No ano seguinte, lançou o show “Choro da Glória – Inéditas”, mostrando o lado mais criativo e com repertório que deu origem ao CD “Choro da Glória” com 12 temas e arranjos inéditos de Lucas Porto e Bernardo Diniz. “Fizemos o disco por nanciamento coletivo no final do ano passado. Infelizmente, estamos com quatro meses de atraso porque a fábrica MCK ainda não prensou os CDs”, lamenta.