Cezar Motta lança livro para reconstituir a trajetória do ‘Jornal do Brasil’ até 2010

Depois de renascer nas bancas no dia 25 de fevereiro, sob a direção de Omar Resende Peres, o “Jornal do Brasil” ganha uma biografia, que conta a sua história desde o surgimento em 1891, como uma publicação de monarquistas em plena república, até 2010. 

Depois de uma reforma gráfica e editorial na década de 1960, o JB se transformou no melhor e mais belo jornal que o Brasil já teve. De autoria de Cezar Motta, “Até a última página: uma história do Jornal do Brasil” (Editora Objetiva) foi lançado em Brasília e no Rio de Janeiro.

Ao longo de 552 páginas, Motta faz um retrato minucioso, profundo e apaixonado do diário por onde passaram os mais brilhantes jornalistas e intelectuais brasileiros, desde a sua criação até 2010. O texto do livro é certeiro, leve, sem floreios, do tipo “impossível parar de ler”.

Quem o define bem é a escritora e acadêmica da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, que registra no prefácio: “Este é um livro de jornalista. Talvez por isso se leia com tanto gosto. Como uma grande reportagem. Mas, sobretudo, Cezar Motta entrevistou, ouviu, conferiu a revelação de uma fonte com versão de outra, foi checar em documentos.

Por vezes, deixou nestas páginas as contradições entre os diferentes testemunhos. Teve o cuidado de contextualizar o que foi apurando. Levou anos nesse trabalho, de cuidado e amor à notícia, empolgado com a sua pauta”.

Uma grande e fascinante reportagem. “Até a última página: uma história do Jornal do Brasil” parece uma ficção que daria um excelente filme, mas todos os fatos ali narrados, ocorridos entre o final do século XIX e o final da primeira década deste XXI, são a mais pura realidade.

Fundado pelo advogado Rodolfo Dantas, com o apoio de um grupo endinheirado, o Jornal do Brasil nasceu em 9 de abril de 1891, data escolhida a dedo porque era a comemoração de 60º aniversário de D. Pedro II como imperador do Brasil. A primeira sede foi num prédio próprio na Rua Gonçalves Dias, 56, no Centro do Rio. Teve como primeiro articulista e correspondente internacional um dos líderes do abolicionismo, Joaquim Nabuco, defensor da monarquia e que estava em “exílio voluntário”. Como escreve o autor, “um jornal de oposição em plena República da Espada”.

Em 1908, o jovem empresário pernambucano Ernesto Pereira Carneiro, comprou o “Jornal do Brasil” e concluiu a construção do novo prédio na Avenida Central (hoje Rio Branco). Era um jornal de classificados que, nos anos 1950, reinventou a imprensa no Brasil, vindo a se tornar o seu mais importante diário ao longo de décadas. Sinônimo de excelência no jornalismo, inovação e modernidade, por um longo tempo, o “Jornal do Brasil” foi a leitura diária obrigatória de muitos brasileiros.

O jornalista Cezar Motta entrevistou dezenas de pessoas e mergulhou em uma extensa pesquisa documental para reconstituir a trajetória do JB até o ano de 2010. O resultado é uma obra que aborda desde as relações do jornal com os governos civis e militares até o dia a dia da redação, pincelada por histórias bizarras e bem-humoradas, como a de um funcionário que praticamente morava no jornal sem que ninguém soubesse.

O autor conta que a ideia do livro surgiu “um pouco antes da festa de 80 anos de Alberto Dines no restaurante La Fiorentina, no Leme, no encontro anmual de antigos profissionais da empresa. “Chamei o velho amigo e jornalista José Sérgio Rocha para dividir a tarefa, e começamos de fato a tocar o projeto na festa do Dines.“

As reuniões na Fiorentina tinham como organizadores o saudoso Sérgio Fleury e a repórter Vera Perfeito, agora Vera Berrêdo, que realizaram uma verdadeira caçada a e-mails e telefones para compor uma robusta agenda de amigos e colegas.

Zé Sérgio não pôde continuar, por razões profissionais e pessoais, “mas participou de longas entrevistas com Alberto Dines, Walter Fontoura, Wilson Figueiredo, José Silveira, e colheu para o livro depoimentos importantíssimos de Ferreira Gullar e Luiz Mário Gazzaneo.”

Cezar Motta sabia que escrever este livro seria um enorme desafio, por isso buscou apoio dos amigos e colegas do antigo JB: “Para tocar o projeto, tive o incentivo permanente de Ana Maria Machado, Elio Gaspari, Walter Fontoura, Fritz Utzeri e Liege, Maria Regina Brito, Luiz Orlando Carneiro, a editora Daniela Duarte, entre outros.”

Além das fontes primárias, que deram longas e detalhadas entrevistas, o autor mergulhou em velhas coleções de jornais, documentos do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, livros de vários autores, biograas, arquivos de Ana de Castro, filha de Amílcar de Castro, entre outras fontes. Foram três anos de trabalho em dedicação exclusiva.

A história do Jornal do Brasil contada em “Até a Última Página” mostra vários marcos como a reforma gráfica e editorial do final dos anos 50 quando, segundo Cezar Motta, “o JB passou a ser o melhor jornal do país, em termos técnicos e visuais”. Sob a direção de Alberto Dines, o jornal se impôs na luta pela liberdade de noticiar, pelas inovações editoriais, e até o nal dos anos 1990, mesmo já em estado de falência e com atrasos salariais e tributários, era uma referência.

De acordo com o autor, “com Walter Fontoura e Elio Gaspari, o JB viveu momentos de brilho no acompanhamento da abertura iniciada por Geisel, na interpretação histórica do momento, em cima do fato, e com reportagens políticas audaciosas, como a radiografia do sequestro e assassinato de

Rubens Paiva e os documentos da Biblioteca Lyndon Johnson, no Texas, sobre a participação dos Estados Unidos no golpe de 1964, entre outras”.

O “Jornal do Brasil” se consagrou quando implantou o tripé editorial calcado em política, economia e cultura. Cezar Motta lembra que “a grande reforma foi uma decisão da condessa Pereira Carneiro e iniciada por Odylo Costa Filho, mas realmente concretizada por Jânio de Freitas, com o trabalho visual de Amílcar de Castro. Dona Maurina (a Condessa) quis transformar o velho jornal, um grande amontoado de anúncios classificados, em um jornal de prestígio, importante.” 

A partir da reforma, as coisas foram evoluindo. Com Odylo, surgiu o Suplemento Dominical, um embrião dos cadernos de cultura. Em 1960, Jânio de Freitas lançou o Caderno B, que deu formato definitivo aos cadernos culturais de todos os jornais do país com cultura, moda e tendências.

Nos anos 1960, Alberto Dines criou as editorias Internacional, Pesquisa, Fotografia e Economia, organizando o noticiário e acompanhando a complexidade cada vez maior do país. Em 1974, Walter Fontoura criou a Editoria de Política, surfando a onda da abertura de Geisel.