Marina Lima: impregnada de Brasil

Marina Lima está impregnada de Brasil em seu novo álbum, “Novas famílias”, o 21º de carreira, que  lança hoje em CD e nas plataformas digitais. O disco, que tem oito faixas inéditas e a regravação do sucesso “Pra começar”, traz  guarânia, funk, eletrônico, samba, balada, pop e até tecnobrega. Uma vitamina mista que resulta, principalmente, de sua experiência em São Paulo, para onde se mudou há sete anos. 

O trabalho está repleto de referências paulistanas e novas parcerias. “Fui para São Paulo, porque senti que o Rio não se interessava mais por mim”, comenta, sem, no entanto, demonstrar qualquer mágoa.  “A diferença é que, quando estamos no Rio, olhamos para o próprio umbigo. Em São Paulo, tenho conhecido mais do Brasil, entro em contato com culturas diferentes. É um verdadeiro aprendizado, em que adicionei coisas que já me atraíam. São outros códigos, outras tribos”, diz a cantora em entrevista, nesta quarta-feira, hospedada em um hotel de Copacabana, sobre essas novas infl uências. 

“Novas famílias” aborda questões sociais contemporâneas, mudanças de costumes e bate forte na política. Curiosamente, as referências ao Rio de Janeiro aparecem na primeira e na segunda faixas. “Um carioca acrobata/Não deixa a peteca cair (...) Céus, e essas novas famílias/Com terras molhadas de amor/ Minando qualquer ditador”, canta na faixa-título). “Mas ‘Novas famílias’ também é uma referência a minha própria família, que hoje se resume a mim e Cícero - meus pais e meu irmão Beto morreram”, acrescenta a cantora e compositora.

A carga política que Marina imprime em “Novas famílias”, que terá show de lançamento em maio no Circo Voador, se destaca em quatro faixas e no texto do encarte: “Nunca me senti tão envolvida com o Brasil. A força e o engajamento que tenho visto por aí não são brincadeira, e têm me dado um orgulho danado. A verdade é que existe muita gente boa, bem intencionada e talentosa no mercado para ajudar a tirar o país desta crise. Estamos nos olhando mais, conscientes das diferenças e querendo passar o Brasil a limpo. Rio, São Paulo, Belém, Parnaíba, Mercosul... Foram me chamar? Aqui está a minha trilha para o Brasil de agora. Realista, crítica, porém cheia de amor pra dar. Tudo, tudo, tudo vai dar pé”. 

Entre as faixas mais politizadas, estão a primeira, que tem até um tom otimista;  “Mãe gentil”, um apelo pela mobilização social; o sucesso “Pra começar” (lançada ao vivo em 2000) e “Só os coxinhas”, com sua fina ironia. Questionada se o funk seria uma resposta à letra machista de “Só as cachorras”, do Bonde do Tigrão, Marina considerou um ponto de vista interessante, porém disse que a inspiração da parceria com o irmão Antonio Cicero foi outra: “Fiz ‘Só os coxinhas’ quando vi aquela cena da farra dos guardanapos do Sérgio Cabral Filho em Paris, foi um choque para mim. Aquilo é um retrato da corrupção e do desprezo pelas pessoas, são aqueles que só pensam em dinheiro”. 

A música “Mãe gentil”, que a Marina Lima considera “um grito de guerra do Terceiro Mundo”,  é assinada por ela, a carioca Letícia Novaes e o paraense Arthur Kunz.  “Esta é pra sair do chão, não no sentido de folia, mas para reivindicar os nossos direitos. Perdemos nossa pátria, sinto como se fôssemos forasteiros no nosso próprio país”, revolta-se. 

Ela, que fez questão de manter seu título de eleitor no Rio de Janeiro, diz que tem um histórico ligado à esquerda. “Sempre me preocupei com a desigualdade social. O Brasil não tem sequer saúde pública decente e estão substituindo as escolas pelas igrejas. Não tenho nada contra os evangélicos, mas não quero as regras deles na minha vida”, dispara. 

E destaca que, infelizmente, a música “Pra começar”, dela com letra de Antonio Cicero, permanece atual: “Pátrias, famílias/ Religiões e preconceitos/Quebrou, não tem mais jeito”, mas não desanima: “Não podemos perder o entusiasmo. Eu acredito que se trate de um ciclo, que, de tantos em tantos anos,  volta o retrocesso, a maldade,”compara.

A cantora e compositora se aventurou na literatura em 2012 com  “Maneira de ser” e anda envolvida com dois projetos cinematográficos. “A primeira vez em que fui ensaiar o texto com a Andrea Beltrão, fiquei com febre no dia seguinte”, conta Marina sobre seu nervosismo em contracenar com a atriz no elenco de “Baleia”, filme de Esmir Filho ainda sem data de estreia. 

No projeto original, a cantora faria apenas trilha sonora do longa, mas o diretor achou que seria ótimo tê-la interpretando uma cantora. “Ele e o Ismael (Caneppele, ator) levaram três anos para me convencer e acho que o roteiro até mudou por minha causa. É uma personagem com quem me identifiquei, por não ser tão distante de mim. Mas já avisei que, quando estrear, estarei fora do país!”, brinca, com sua timidez. 

Por outro lado, Marina parece à vontade com outro projeto cinematográfico, o documentário de Candé Salles, que tem provisoriamente o título “Chegando ao clímax com Marina Lima”. A produção registra a sua mudança para São Paulo, a produção do livro, o estúdio de gravação do álbum “Clímax”, ensaios, shows e outros momentos da sua vida. 

Do talento de Marina Lima como compositora, nem é preciso falar. O interessante é saber que ela cria no violão, no baixo, na guitarra e no Logic. A faixa “Árvores alheias”, por exemplo, foi compostas no programa de computador que oferece possibilidades infinitas. “Meu interesse pela música eletrônica vem de longe, comecei a mexer nisso em 1998. “Uma vez entrevistei a Björk, que tem essa característica eletrônica em seu trabalho, e perguntei o que ela achava desse preconceito. Ela respondeu que tinha pena de pessoas que não se interessam e não aceitam novos recursos, porque acham que vão perder espaço. É exatamente o que eu penso”.       

O lançamento do disco, que futuramente sairá em vinil, acontece no mesmo dia em que Antonio Cicero toma posse na Academia Brasileira de Letras. “O disco ficou pronto em dezembro, porém decidimos deixar o lançamento para o início do ano. Um mês e meio atrás, meu irmão me ligou para dizer que sua posse era dia 16! Meu irmão, que admiro tanto, construiu uma obra maravilhosa comigo, chega agora ao ponto mais alto da erudição e intelectualidade brasileira! Se meus pais estivessem vivos, nem sei como reagiriam”, diz Marina, com olhos marejados e visivelmente emocionada.