Álbuns do consagrado João Donato chegam ao mercado em caixa com quatro CDs

Comemorando dez anos de existência, a gravadora Discobertas lança um box com quatro CDs de raridades do mestre João Donato, álbuns que jamais foram lançados. Fazem parte da caixa caixa os álbuns “Raridades - Anos 70”, Gozando a existência” (1978), “Naquela base; (1988) e “Janela da Urca”. Todo o material é inédito, incluindo os encontros com Nara Leão, Djavan e Alaíde Costa. O produtor Marcelo Fróes iniciou a extensa pesquisa há quatro anos no acervo particular do pianista e compositor acreano.  O produtor diz que “o projeto exigiu uma longa gestação para chegar a este formato histórico e documental, que tanto agrada aos fãs, colecionadores e historiadores.” 

Depois de passar os anos 1960 nos Estados Unidos, Donato voltou ao Brasil em 1972 e já, no ano seguinte, começou a gravar discos para selos brasileiros. Após os clássicos “Quem é quem” (1973) e “Lugar comum” (1975), gravou a série “Leilíadas”, em 1986, parou e só tornou aq sua discografia mais regular dez anos depois, a partir de “Coisas tão simples”.

Marcelo Fróes conta que “Donato já havia falado sobre o disco de 1988, cujos tapes de 24 canais consegui recuperar na Cia, dos Técnicos, em 2014. Já conhecia  “Gozando a existência”, então propus mergulhar no acervo dele. Foram dois anos de emoções, ouvindo cerca de 800 cassetes e outros formatos.” O produtor ficou surpreso com o bom estado do acervo, uma vez que Donato “anotava o conteúdo das fitas e datava. Sobreviveram a muitas mudanças de endereço nesses 30, 40 anos”. 

Na ùltima década, a Discobertas já lançou quase 70 boxes, fora algumas dezenas que fez para as grandes gravadoras em 20 anos. Nos encartes dos CDs, João Donato explica o que o trouxe de volta ao Brasil. “Estava com saudades do pessoal, também por ter me separado. O meu casamento acabou, minha filha e minha mulher foram embora para perto de São  Francisco e eu fiquei sozinho em Los Angeles. Aí, pensei: ‘O que é que eu tô fazendo aqui, sozinho nos Estados Unidos? Todo mundo falando em inglês perto de mim... o rádio, a televisão... Eu fiquei meio desnorteado, então concluí: ´Pô, tô com saudade do pessoal do Brasil, da minha família. Aí, eu vim.” 

Dos amigos da música de que sente falta, está Nara Leão, com quem Donato adorava trabalhar: “Nara era minha irmã, a gente ia de mãos dadas pegar o ônibus. Ela não tinha carro e nem eu, então eu a encontrava. Ela avisava no telefone que estava saindo, pegava o ônibus no Leme e aí eu ficava na esquina da Rua Montenegro , aquela que depois virou Vinicius de Moraes. Tempos depois, Nara gravou a minha ‘Nasci Para bailar`, que foi um de seus grandes sucessos. 

“Gozando a existência” foi um projeto experimental gravado por João Donato e seus muitos amigos, entre setembro e outubro de 1977 e em julho do ano seguinte. Marcelo Fróes explica que “das sessões participaram Vinicius de Moraes, Nara Leão, Miúcha, Cristina Buarque, Alaíde Costa, Rosinha de Valença. Beth Carvalho, Gal Costa, Quarteto em Cy, Luiz Alves, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Fernando Leporace, Novelli e  dezenas de pessoas.” 

O álbum seria triplo, porém diversas fitas se perderam e, de acordo com Fróes, “muitos dos artistas citados não estão efetivamente nas faixas que compõem o produto que pudemos montar. Dentre as muitas curiosidades dos bastidores, fica a conclusão de que o não- lançamento deste disco em 1978 liberou os compositores Novelli, Paulo Jobim e Nelson Angelo a levarem suas três canções para o repertório do clássico “Clube da Esquina 2”,  que Milton Nascimento gravou e lançou em 1978 - contando inclusive com a participação de Donato.”

“Leilíadas” , gravado ao vivo num nightclub carioca e que subaproveitou o riquíssimo repertório que João Donato vinha compondo e ensaiando ad eternum em shows e demos, a oportunidade de gravar um novo disco de estúdio surgiu em 1988, quando um admirador japonês chamado Yoichi Ogawa resolveu propor a gravação. João Donato diz que “foi ideia do Ogawa”. 

Ele disse “Vamos gravar um disco. Eu produzo, patrocino. Aí liguei para os meninos,  Luiz Alves, Robertinho, pra começar a arrumar os músicos para tocar. Gravamos esse disco instrumental, “Naquela base”, que também ficou pra lá, ninguém deu continuidade. Ogawa foi embora pro Japão. Um cara curioso, ia em todos os meus shows. Em todo lugar que eu ia tocar, estava lá aquele japonês. Aí, um dia, eu fui lá na mesa dele e falei: “Pô, em todo lugar que eu tô você tá, rapaz?! Ele disse ´é que eu gosto de ouvir a sua música´. Ficamos amigos e um dia ele me perguntou se a gente queria gravar um disco, que ele queria pagar pelas gravações. Só que, após a gravação, ele viajou para o Japão e deixou as fitas do disco comigo.” 

Frustrado com o não-lançamento de seu álbum instrumental, Donato aproveitou a oportunidade de gravar no estúdio particular do amigo Ritchie, um ano depois, experimentando sintetizadores novos e equipamentos modernos. Nasceu ali “Janela da Urca”, um registro cheio de canções novas, algumas com letra e voz, e que - embora tenha ficado arquivado por tantos anos, conta uma história e ilustra o final de um ciclo.  Donato buscou novos rumos e, a partir de 1996, retomou de vez sua discografia.

Ficha Técnica 

Box “Mad Donato” Produção executiva: Marcelo Fróes Masterização: Ricardo Carvalheira Projeto grá?co: Bady Cartie