Com 25 anos de carreira, o ator, autor, diretor e produtor Daniel Dias da Silva, com a Lunática Companhia de Teatro, em que faz dupla com Gustavo Falcão, apresentou ao Brasil o teatro do dramaturgo catalão Josep Maria Miró realizando a primeira encenação da peça ‘O Princípio de Arquimedes’, em cartaz até 1º de outubro no Sesc Tijuca. Sucesso de público e crítica, espetáculo já tem previsão de novas temporadas até o final de 2017 e ao longo de 2018.
Mas este é só um dos projetos deste cearense que se formou em Direito, mas engrenou nas artes dramáticas. Vivendo no Rio desde 1998, Daniel conta um pouco de sua trajetória.
Você e Gustavo Falcão planejaram fazer uma trilogia com textos hispânicos. Primeiro foi ‘Matador’, do autor venezuelano Rodolfo Santana, depois ‘Esse Vazio’, do argentino Juan Pablo Gomez, e agora ‘O Princípio de Arquimedes’, do catalão Josep Maria Miró. A parceria entre você e Gustavo está completando cinco anos, configura uma companhia, certo?
Foi sem planejamento. Aconteceu de forma espontânea. Tento sempre acompanhar a produção de novos autores, sejam eles nacionais ou estrangeiros. Me interessam textos que questionem a realidade, temas que tentem traduzir ou refletir sobre o mundo em que vivemos, sobre as angústias e anseios do homem moderno.Por falar espanhol, isso me aproximou mais de autores de língua hispânica, mas as temáticas e as linguagens de cada espetáculo são completamente distintas. E poder experimentar essas diferentes facetas também sempre me instigou. ‘Matador’, do autor venezuelano Rodolfo Santana, tinha um tom mais poético, fantástico e, ao mesmo tempo, político. Utilizava o universo das touradas para falar sobre o sentido da arte no mundo de hoje, sobre o desejo de glória e sucesso, através do diálogo entre um touro e um toureiro. ‘Esse vazio’ tinha um caráter mais pessoal, intimista, falava do reencontro de um grupo de amigos e sobre expectativas e frustrações de uma geração que ainda não encontrou seu lugar, motivado pela morte de um companheiro. Já ‘O Princípio de Arquimedes" tenta analisar os medos e conflitos da sociedade moderna a partir de um gesto de carinho entre um professor de natação e seu aluno, instigando o espectador a fazer o seu próprio julgamento sobre aquele fato.
E a Companhia? Num cenário de política cultural tão desafiador realizar produções é matar um leão por dia...
Eu e o Gustavo Falcão temos uma trajetória parecida, temos a mesma origem nordestina, somos atores e realizadores, com experiência em gestão de espaços culturais e buscamos os mesmos desafios. Daí decidimos unir as nossas forças e oficializar essa união profissional com o lançamento da Territórios Produções Artísticas. ‘Matador’ foi nosso primeiro trabalho e teve uma trajetória linda, com direção da Susana Garcia e do Herson Capri. Um dia, quando estávamos começando a produzir o segundo trabalho, olhando para tudo que tínhamos feito e para os projetos que tínhamos pela frente, comentei com Gustavo: "nós temos uma equipe, temos um grupo de pessoas envolvidas em torno dos mesmos objetivos, engajadas em projetos e discursos comuns, nós somos um bando de lunáticos e estamos realizando! Nós somos uma Companhia!" Isso acabou nos dando uma identidade e um rumo. Uma das características da Companhia é essa fluidez, sem uma estrutura ou hierarquia rígidas. Ontem estive no palco, hoje estou assinando a direção e amanhã posso estar apenas na coordenação.
E vocês vão agregando artistas...
Outras pessoas se identificam com nosso trabalho e acabam sendo agregadas ao grupo, mas sempre mantendo essa identidade. Foi assim que Herson Capri, Susana Garcia e Sergio Módena se juntaram a nós, assinando a direção e, hoje, podemos contar com os talentos de Helena Varvaki, Cirillo Luna, Gustavo Wabner e Sávio Moll - este último já emendando o segundo trabalho com a gente e protagonizando o próximo, em janeiro de 2018. Mas uma companhia não é feita apenas por quem está no palco e temos alguns profissionais que fazem parte do grupo desde o primeiro trabalho, o que permite um diálogo artístico mais consistente e permanente. Acredito que isso também reflete o nosso conceito de companhia, onde todos se sentem parte ativa na construção daquele espetáculo.
Sabia do filme brasileiro que vai estrear no Festival do Rio quando comprou os direitos de ‘O Princípio de Arquimedes’?
Eu já havia comprado os direitos da peça quando soube. Há uma versão espanhola, dirigida por Ventura Pons. Não deixa de ser instigante ter visões e leituras distintas, o que só comprova a força e a atualidade do texto de Josep Maria Miró. Eu soube do texto através da montagem original, de Barcelona. Vi que havia diversas montagens em outros países, mas nenhuma no Brasil. Continuei pesquisando até chegar ao autor. Conheci, ainda, Jesus Pece, que trabalhou na montagem argentina e se tornou o agente do autor. Ele foi fundamental nesse processo. Posteriormente, por duas vezes estive com o autor, Josep Maria Miró, na Espanha, onde reafirmamos nosso interesse em trabalhar juntos e trazer ‘O Princípio de Arquimedes’ para o Brasil.
Deve ser uma conquista realizar a primeira montagem no Brasil. O texto é bastante concorrido, parece...
Sim. Depois que mergulhei nesse projeto, a peça foi ganhando novas montagens mundo afora e o nome de Josep Maria Miró passou a ser mais conhecido e respeitado fora da Espanha. Hoje ele é um dos principais autores contemporâneos no país e um dos mais montados em todo o mundo. Estou muito feliz e orgulhoso de poder apresentá-lo ao público do Brasil.
Você também transita pelo cinema. Acaba de voltar de Fortaleza das filmagens de ‘Bate Coração’, de Glauber Paiva Filho.
A primeira peça que escrevi era inspirada em um poema do pernambucano Ascenso Ferreira. Chava-se 'Oropa, França e Bahia' e acabou sendo selecionada para ser montada em Fortaleza. Direção da alemã Nehle Franke e supervisão de Luiz Carlos Vasconcelos. Um jovem diretor de vídeo, chamado Glauber Paiva Filho, se interessou pela história para adaptar para um projeto de vídeo que acabou se transformando num longa para a TV com apoio de um prêmio internacional, da Fundação Vitae. Como autor, colaborei no roteiro. Anos mais tarde, Glauber, agora um diretor de cinema reconhecido, me chamou para atuar no filme ‘As Mães de Chico Xavier’. O filme foi rodado no Ceará e além do reencontro com Glauber, tive contato com outros profissionais do mercado cinematográfico cearense, bem mais desenvolvido. Desde então, o Glauber – em parceria com a Estação Luz – produtora de vários filmes com a temática espírita tinham desejo de trabalhar num projeto de comédia. Glauber e o Sidney Girão, um dos produtores, resolveram trabalhar em cima de dois argumentos do autor Ronaldo Ciambroni e me convidaram para colaborar no roteiro do filme ‘Bate Coração’. Eles me deram bastante liberdade para contribuir, o que ajudou bastante no trabalho. E acabei fazendo um dos personagens o que me deixou ainda mais feliz. O filme está em fase de pós-produção. A previsão de lançamento é no primeiro semestre de 2018.