Primeiro festival internacional de dança contemporânea brasileiro a extrapolar os limites do palco e ganhar as ruas e espaços públicos da cidade, o Dança em Trânsito celebra sua 15ª edição reafirmando os números superlativos que têm marcado sua trajetória até aqui. Este ano, 21 trabalhos (doze inéditos no país), de sete companhias brasileiras e outras sete estrangeiras – das quais quatro estarão se apresentando pela primeira vez no Brasil –, fazem parte da programação que começa no próximo dia 17, em Capivari de Baixo (SC), passa por mais quatro cidades no Sul e chega em 23 de agosto ao Rio de Janeiro, onde ocupa centros culturais e teatros, além de espaços públicos, até 27 de agosto. A itinerância e o intercâmbio entre artistas e companhias de diversas cidades do mundo – marcas do festival –, ultrapassam fronteiras este ano e, mais uma vez, levam o Dança em Trânsito a Paris, em outubro.
“Independentemente do tamanho de cada edição, o Dança em Trânsito se mantém, ao longo de todos esses anos, coerente com sua proposta de valorizar, democratizar e incentivar a dança contemporânea no país, através do intercâmbio de diferentes linguagens e origens, de forma itinerante, e sempre buscando a formação de novos públicos para a dança e às artes”, resume Giselle Tápias, diretora artística e curadora do festival criado em 2002 e que este ano conta com o patrocínio da ENGIE Brasil e do Banco do Brasil.
Além da programação de espetáculos, que passa pelo Armazém da Utopia, Casa França-Brasil, Centro Cultural Banco do Brasil, SESC Ginástico e Teatro Cacilda Becker, o festival terá quatro residências de intercâmbio, com oficinas de criação no Sul – Entre Rios do Sul (RS), Capivari de Baixo (SC) e Alto Bela Vista (SC) – e mais uma em Paris. No Rio, o Cacilda Becker abriga três workshops gratuitos, de 23 a 25 de agosto, ministrados respectivamente por Edmond Russo, da cia francesa Affari Esteri; Flávia Tápias, coreógrafa, bailarina e diretora do Grupo Tápias – companhia associada ao Espaço Tápias e todas as suas produções – e Gaétan Jamard (França) e por Hector Plaza e Agnes Sales (Espanha). As inscrições já estão abertas e podem ser feitas pelo email [email protected].
A ocupação das ruas acontece no domingo de encerramento (27/8), com apresentações que começam às 11h no Armazém da Utopia, atravessam a Orla Conde até o Museu do Amanhã e chegam, no início da noite, à Casa França-Brasil e ao CCBB. Serão, ao todo, dez espetáculos de dez artistas e companhias, espalhados em uma área de cerca de 2km.
Uma delas é a Ana Vitória Dança Contemporânea, com sede em Porto, Portugal, que dará seguimento à proposição Cabeça Coletiva (1974), de Lygia Clark, em que a obra é conduzida pela rua em um acontecimento performático e itinerante. A proposta é uma interação com o público, que, do Armazém Utopia até o Museu do Amanhã, será convidado a participar, colocando ou retirando objetos pessoais, como canetas, bilhetes, cigarros, embalagens etc, nos nichos que compõem a cabeça. “O que é inaugural no trabalho da Lygia é justamente a doação da autoria ao outro”, observa a coreógrafa baiana Ana Vitória, que pesquisa a obra da artista plástica desde 2010. Antes, a Cabeça Coletiva estará em exposição, de 22 a 26 de agosto, na Casa França-Brasil, onde o público já poderá interagir com a obra.
A tecnologia será destaque em dois projetos desta edição, ambos realizados no CCBB. Em Portátil, a ID21, em parceria com os bailarinos convidados do festival Elton Sacramento e Luisa Helibron, convida o público a fazer uma imersão dos sentidos por meio da Realidade Virtual Portátil, que permite ao espectador “entrar” na coreografia dirigida por Flávia Tápias e Renata Versiani. Já em Segredo, três bailarinos convidados do Dança em Trânsito – Isabela Croacy, Elton Sacramento e Luisa Helibron – dançam sobre uma plataforma, elevada a 13 metros do chão, em frente ao CCBB, enquanto um videomapping da apresentação recobre toda a fachada do centro cultural, em uma parceria com a Visualfarm. “A proposta é instigar o público, brincar com sua percepção, com ilusão de ótica, e encerrar esta edição no Rio com um espetáculo diferente do que estamos acostumados a ver”, explica Flávia Tápias, que assina a coreografia.
Quatro companhias e artistas se apresentam pela primeira vez no país. Da Coreia do Sul, a Company SIGA, do coreógrafo Lee Jae-young, traz os duos Equilibrium e o premiado Rest. Perrine Valli, da Suíça, apresenta o duo Morning Sun, sobre o desejo feminino, e o solo Si dans cette chambre un ami attend, inspirado na obra da poetisa americana Emily Dickinson. Da França, o dançarino brasileiro Jorge Ferreira interpreta Tremor and more, criação do coreógrafo francês Herman Diephuis. E Žigan Krajn?an e Gašper Kunšek são os autores e intérpretes eslovenos do espetáculo Alien Express, que aborda os arquétipos da nossa história.
Do Brasil, são cinco os trabalhos inéditos: Creme do Céu, Dobras e Ouroboros são criações franco-brasileiras do Grupo Tápias, que desde 2012 tem uma segunda sede na França, com dançarinos franceses. Todos as três coreografias tem coprodução do Le Bords de Scènes, do qual Flávia é artista residente em 2017. A Cia Regina Miranda & Atores Bailarinos faz no festival a pré-estreia de NAITSU – Noites com Murakami, espetáculo solo criado para Marina Salomon, que dialoga com a obra do celebrado escritor japonês Haruki Murakami. Também inédito é Espelho da Lua, criação da Cia Mário Nascimento, de Belo Horizonte, inspirada em lendárias mulheres guerreiras, as Icamiabas, amazonas brasileiras que viviam isoladas na época do descobrimento.
Completam a programação Metamorfose, de Aline Corrêa (RJ); O Crivo, da cia Ateliê do Gesto, de João Paulo Gross e Daniel Calvet (GO); e No tempo e Luz no olhar, a carioca Nimo Cia de Dança. Trilha, espetáculo criado por Flávia Tápias e Gleidson Vigne para a estreia da Trânsito Cia de Dança, fará apresentação única no dia 18/8, em Florianópolis. A nova companhia é fruto das diversas residências coreográficas realizadas pelo festival nos Centro de Cultura da Engie, que revelou jovens talentos oriundos de diversas partes do país. “Observamos que, no decorrer destes anos de residências artísticas, vários jovens vêm se destacando por seu talento, dedicação e interesse. O intenso desejo deles por mais informação e acesso à cultura revela a carência por mais ações formativas que eles enfrentam nas cidades onde se encontram”, comenta Flávia Tápias. A Trânsito Cia de Dança terá foco na formação, na pesquisa, na criação e na difusão de trabalhos realizados em parceria com o festival Dança em Trânsito e os Centros de Cultura, com destaque para a dança contemporânea.
Dança em Trânsito
Criado em 2002, o Dança em Trânsito é um festival internacional de dança contemporânea que tem por objetivo valorizar, promover e democratizar esta expressão artística, seja pelo intenso intercâmbio entre artistas e companhias do Brasil e do exterior, como também pela itinerância, percorrendo desde as grandes cidades até pequenas localidades no interior do Brasil, em teatros ou espaços públicos. Sua atuação abrange ainda residências artísticas, com oficinas de criação, e workshops, abrindo canais para novos talentos da dança, e a formação de plateias, estimulando o interesse pelas artes e pela dança. O festival é parte do projeto Ciudades Que Danzan, que reúne 41 cidades em diversas parte do mundo com o intuito de difundir a dança contemporânea. Desde a sua criação, o Dança em Trânsito já apresentou mais de 80 companhias de 16 países em 18 cidades de nove estados brasileiros, para um público de mais de 40 mil pessoas.
DANÇA EM TRÂNSITO
www.dancaemtransito.com.br
De 23 a 27 de agosto de 2017 – Rio de Janeiro
Direção artística e curadoria: Giselle Tápias