Espetáculo da Companhia do Latão aborda greve sindical de 1979 

'O Pão e a Pedra' marca 20 anos da elogiada companhia e está em cartaz no CCBB-RJ

Comemorando 20 anos em 2017, a Companhia do Latão, de São Paulo, está em cartaz até a próxima segunda-feira (13) no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro com a peça O Pão e a Pedra. Sucesso de crítica e público por onde passa desde que estreou em maio de 2016, a peça vem sendo apontada como pertinente e atual para o momento pelo qual passa o Brasil. A trama aborda os desdobramentos da greve de 1979 e o difícil enfrentamento da máquina do capitalismo.

O diretor Sérgio de Carvalho afirma que foi ali que o sindicato dos metalúrgicos "tomou consciência da importância de uma atitude mais combativa contra o empresariado, a mídia e a ditadura, a partir da pressão da base", diz ele, lembrando da ascensão no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como líder do movimento sindical. Confira na entrevista abaixo:

Por que revisitar a greve dos metalúrgicos do ABC num espetáculo teatral?

Sérgio de Carvalho: No espetáculo O Pão e a Pedra, escolhemos a greve de 1979 como tema central porque ela, de certo modo,  contém lições sobre as dificuldades da política quando os trabalhadores tentam enfrentar a máquina policial do capitalismo. Dentre as greves do ABC ela foi, de certo modo, menos bem sucedida do que a de 1980, quando Lula se tornou o grande líder que ainda é. Mas foi ali que o sindicato dos metalúrgicos tomou consciência da importância de uma atitude mais combativa contra o empresariado, a mídia e a ditadura, a partir da pressão da base. Foi ali que uma reivindicação salarial se converteu num aprendizado político coletivo, que inspirou todo o país. Foi ali que se juntaram setores da esquerda que dificilmente conseguem atuar em conjunto. Quando hoje são destruídas as conquistas desse ciclo histórico de democratização, quando retornamos a uma ditadura aberta em que o capital manipula a letra da lei, nos pareceu necessário repensar esse movimento histórico em que muita gente lutou pelo mais importante, a igualdade real.

O teatro político no Brasil vai bem?

Sérgio de Carvalho: Um teatro político depende de que haja um movimento social ativo e crítico, de sentido anticapitalista. O que posso dizer é que avançamos muito no campo da pesquisa formal, mas todas as conexões (que não dependem só do teatro) estão por ser feitas: precisamos de novos ambientes de cultura crítica, romper o império da mercantilização e confinamento de classe ao qual as artes estão submetidas.

Qual o balanço desses 20 anos do Latão? E quais seus próximos projetos?

Sérgio de Carvalho: A Companhia do Latão comemora 20 anos em 2017. É difícil fazer um balanço em poucas palavras, mas é possível dizer que seguimos trabalhando animados, o que é  sempre o mais difícil. Tentamos, de algum modo, representar aspectos da vida social e cultural no Brasil de uma maneira viva e contraditória, incluindo a própria representação no problema de que tratamos. Ainda não temos um projeto definido para o próximo ano, mas faremos experimentos teatrais, temporadas comemorativas dos 20 anos e, no segundo semestre, tudo indica que começaremos a ensaiar, entre outras atividades, um novo espetáculo, previsto para estrear no Rio no começo de 2018.