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Três vozes unidas na contemporaneidade em destaque no CCJF

Ilessi, Thiago Thiago de Mello e Luiza Borges estão na programação musical do espaço cultural

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Em comum, a música, acima de tudo, e a amizade, que faz com que a maioria dos encontros termine em música. Os cantores Ilessi, Thiago Thiago de Mello e Luiza Borges (nesta ordem por uma questão de agenda de shows a serem realizados, de maio a novembro, no Centro Cultural Justiça Federal, Centro do Rio) estão mais ligados do que nunca por conta de algumas interseções que permeiam os seus trabalhos sonoros.

A paixão por compositores ainda pouco conhecidos, embora com um baú de preciosidades – caso do Manduka, que vem a ser irmão de Thiago, gravado por Ilessi e por Luiza –, é um deles. A busca por uma música que faça o ouvinte olhar para dentro de si, em tempos de tanta exposição, também.

Ilessi será a primeira do trio a cantar no CCJF. Nos dias 3, 7 e 31 de maio, a jovem de Jacarepaguá, moradora de Copacabana, vai desfiar cerca de 17 músicas de Manduka no show 'Quem me levará sou eu', homônimo a uma das canções dele que ganharam notoriedade em vida. Feita em parceria com Dominguinhos, foi defendida por Fagner num festival em 1979. A obra de Manduka chegou para Ilessi pelo programa Rádio Chama, abastecido na web pelo grupo de compositores que se intitula Coletivo Chama e transmitido pela Rádio Roquette Pinto. O mundo escapou sob os seus pés quando ouviu 'Viagem de barco'. Ligou para outro Thiago, o Amud, e perguntou quem era o autor daquela canção que a arrebatou, acreditando que o autor estivesse vivo. Amud explicou que Manduka já havia falecido, o que surpreendeu a cantora, que sentiu a sua música tão viva e atual. Ilessi procurou imediatamente para o outro Thiago e a fim de conhecer o repertório singular de Alexandre Manuel Thiago de Mello, o Manduka, que viveu entre fevereiro de 1952 e outubro de 2004. 

“Essa cantora de tanta personalidade veio aqui em casa e garimpou um material farto do Manduka. Em apenas dois meses, voltou com muita certeza do que queria cantar. Fiquei feliz porque estamos precisando ouvir mensagens como ‘Viagem de barco’, que é um ‘Bye bye Brasil’ amazônico. Sofisticada e irônica, nos devolve um Brasil que há muito não existe”, diz Thiago, um incansável pesquisador das famosas fitas cassetes que o irmão mais velho espalhou pelos lugares onde viveu. A essência do disco de Ilessi é o K7 “O desmantelo”. Ela escolheu 14 canções desta coleção, mais a faixa-título, “Quem me levará sou eu”, e duas que nasceram no México, onde o compositor morou por seis anos. Cinco faixas já estão gravadas para o álbum, que sai no final de 2016, com o canto de Ilessi e as cordas de Diogo Sili, parceiro na empreitada. No disco e no show, ela vai apostar no formato voz e violão, o favorito de Manduka.

'Bala de vento', por exemplo, foi escrita nessa fase mexicana. Thiago foi atrás de vestígios do “hermano”, e encontrou algumas dessas fitas. Uma estava na Rádio Nacional, onde havia um disco inteiro com músicas que ninguém da família sabia da existência. Outras, guardadas com amigos. Thiago resgatou um significativo material inédito. “De vez em quando isso ainda acontece”, comenta. Há uns dois anos, o pai, o poeta Thiago de Mello, apareceu na casa dele com a gravação de um show que fez com o filho no Teatro Amazonas, em 1982. “Fiquei encantado porque era tudo muito artesanal, com música e poesia entremeados numa costura quase medieval”, atesta ele.

Completamente apaixonada por esse repertório, Ilessi conta que mergulhou em composições como 'Conseguiram parabéns' e 'Com os pés no futuro', ambas disponíveis em vídeo no YouTube, em registros da jovem cantora. “Foi um impacto muito grande a chegada da música do Manduka na minha vida. Ouvia sem parar como se só houvesse esses áudios no mundo (risos). É um privilégio ser uma das cantoras que dá voz ao Manduka hoje, quando o que mais precisamos é ser encantados por uma criação artística que nos enriqueça”, filosofa Ilessi, que estreou em disco no elogiado “Brigador”, de 2009, com parcerias de Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro.

A floresta do Thiago de Mello

No dia 12 de julho, será a vez de Thiago Thiago de Mello levar o seu 'Amazônia Subterrânea' para o público do Centro do Rio. É um projeto para além do disco, que Thiago espera gravar ainda este ano – ele tem dois álbuns com a banda Escambo: 'Flúor' (2009) e 'Neón' (2013). Nascido no Leblon, cidadão do Humaitá, o professor investe tempo, pesquisa e criatividade nesta coleção há cerca de três anos e meio. “Comecei a compor de maneira mais consciente sobre a Amazônia, onde morei na infância e para onde retorno todos os anos. Passei a ouvir mais sistematicamente outros compositores de lá, enchi a minha casa de plantas... Mexer com a floresta é sintonizar com a espiritualidade e a gente muda no processo”, avalia.

Ele conta que fez mais de 40 músicas em 2014, uma produção incomum. “Abri um canal e, entrando na Amazônia, entrei na história da minha família. Fui na casa do meu pai e encontrei pastas com documentos. Comecei a ler cartas da minha avó para o meu pai, que está agora com 90 anos, do meu bisavô para o meu avô. São cartas escritas em 1904! Abria e pulavam traças e eu lia cada vez mais interessado naqueles assuntos todos, dos quais sou herdeiro. Virei madrugadas devorando esses registros e descobri, por exemplo, que muitos antepassados tiveram inclinações musicais. Foi o que me deu fôlego para aprimorar essa pesquisa”, diz, lembrando que “o Brasil não conhece o Brasil”, como cantava Elis Regina, e a Amazônia, pulmão do mundo, riqueza do nosso país, é desconhecida para a maioria dos brasileiros.

A música de Thiago se ocupa de dar possíveis respostas para questões elementares (e fundamentais), como: Quem somos nós? E para que estamos aqui? “Já existe uma geração trabalhando com esse tipo de música que a gente faz, na contramão do mercado. É puro investimento, sem retorno financeiro. Tem um edital aqui, um elogio acolá, um convite para fazer um show, mas ainda é muito desproporcional”, pontua. Talvez por isso, a vontade de imprimir um certo ritmo na propagação da sua música pelas redes, através da Rádio Chama – ele é integrante do Coletivo Chama –, e dos vídeos que vem publicando, desde janeiro, sempre na primeira quinta-feira de cada mês, nas suas páginas no YouTube e no Facebook. “A ideia veio dos meus alunos, que assistem a milhares de vídeos curtos por dia, e, ao mesmo tempo, prestigiam os meus shows, prestam atenção nos artistas que indico. Já temos vídeos prontos para subir até setembro e estou adorando fazer isso”.

Para o show no CCJF, o artista separou 15 composições, entre elas 'Vingança de cunhã', gravada pela banda Pietá e por André Muato, 'Certezas inacreditáveis', que nomeará o segundo disco da Luiza Borges, a ser lançado ainda este (o primeiro, 'Romanceiro', é de 2012) e 'Que nem Japiim', as duas últimas, em parceria com Edu Kneip. Japiim tem um conceito interessante: É um pássaro que imita os sons de outros pássaros, cobras e onças, porque ele mesmo não tem um som original. Faz parte desse processo de buscar a própria voz que aproxima os três jovens artistas. Neste show, Thiago Thiago de Mello será acompanhado por Bernardo Aguiar na percussão eletrônica (que também participa do show da Ilessi e do disco da Luiza) e Diogo Sili na guitarra elétrica (que toca violão no show da Ilessi).

E para fechar o ciclo de apresentações dessa gente jovem, cabelo ao vento reunida, a cantora Luiza Borges apresentará o show 'Certezas inacreditáveis' no CCJF nos dias 25 de outubro e 15 de novembro. Além de cantar, ela escreve e compõe. Adianta que gravará 'Se, será, seria', que faz parte do livro de poesias 'Silêncio absoluto', a ser lançado esse ano pela Editora LiteraCidade. O prefácio será do letrista Mauro Aguiar. Professora de canto desde 2009, ela revela que se viu diante da mesma questão que vem movendo a fé de Ilessi e Thiago nos últimos anos. “Passei a refletir de forma cada vez mais madura sobre o porquê de continuar dizendo algo para as pessoas através do canto. A voz é um instrumento que veicula conteúdos. Serve para a troca, soa para comunicar. E a serviço de que troca eu quero sustentar a minha voz cantada?”, pergunta.

Os três artistas concordam que essa ideia de fazer canções sobre o autocontato esteja no ar. “Venho pensando que isso é tudo o que precisamos: Nos ouvirmos, nos colocarmos, e assim podermos ter um espaço real para nos alimentarmos também da expressão do outro. Escutar. Absorver. Devolver. A vida está muito corrida, os relacionamentos robotizados. Estamos todos sem tempo para isso. Como pode ser possível se identificar com o trabalho de um novo artista, buscar num show desconhecido a tal da troca, se não há espaço sequer para nos notarmos e nos expressarmos? É com essa lacuna que eu gostaria de colaborar”, sentencia a moradora de Laranjeiras.

“Percebi que existe uma geração que, sem combinar, está dividindo os mesmos pensamentos”, afirma. Luiza Borges vai mostrar que pensamentos são esses no CCFJ, onde cantará músicas como 'Fardo' (Thiago Amud), 'Canto e trabalho' (Thiago Thiago de Mello e Marcelo Fedrá), 'A fama e a fome' (Pedro Ivo e Mauro Aguiar) e 'Irada' (João Nabuco e Mauro Aguiar). Ao todo, 14 músicas serão interpretadas por Luiza e André Siqueira no violão, com participações especiais. Por falar nisso, vale lembrar: Ilessi, Thiago e Luiza vão cantar dos shows uns dos outros. E, assim, com encontros verdadeiros e repletos de propósito, essa rede se fortalece cada vez mais.