O Rio de Janeiro ficou pequeno para o Mimo Festival neste fim de semana. Com 20 concertos, 23 filmes exibidos e 20 atividades na Etapa Educativa, o Mimo mostrou porque é consagrado como o maior evento gratuito de música instrumental do Brasil. Em sua 12ª edição, o festival desembarcou no Rio pela primeira vez e foi recebido de braços abertos. Durante três dias, mais de 19 mil pessoas viram os espaços históricos da cidade coloridos e assistiram shows de nomes como Bombino e Boubacar Traoré, inéditos no Brasil, além de apresentações de artistas consagrados como Tom Zé e Alceu Valença.
Diferente da maioria das festivais, o Mimo celebrou a pluralidade musical trazendo artistas de estilos que vão do blues à música coreana. Já na primeira noite, quatro concertos lotaram o Parque Lage, a Sala Cecília Meireles, o Espaço Cultural BNDES e a Igreja da Candelária.
Abrindo o festival em grande estilo, o espanhol Daniel Casares, considerado um dos melhores guitarristas flamencos da atualidade, e a Orquestra Sinfônica Cesgranrio tocaram para uma Igreja da Candelária lotada e que recebeu uma iluminação especial. Aclamado pelo público, o africano Boubacar Traoré trouxe toda a sua simplicidade para a Sala Cecília Meireles e mostrou o seu blues original do Mali. No Espaço Cultural BNDES a dupla escocesa Catriona McKay e Chris Stout mostraram o resultado inusitado da mistura da Harpa Celta com o violino escocês para uma platéia atenta e curiosa.
A grande novidade da noite foi a apresentação do coletivo luso-angolano Batida, que trouxe uma sonoridade que mistura a música angolana dos anos 70 e música africana e colocou todo mundo pra dançar. O líder do grupo, Pedro Coquenão, também fez questão de deixar uma mensagem política ao falar sobre a situação de opressão e censura em Angola. Um dos integrantes do grupo, o rapper Luaty Beirão, foi preso com outras 15 pessoas acusadas de planejar um golpe contra o presidente do país. O músico foi notícia mundial ao fazer uma greve de fome durante 36 dias em protesto a prisão dos colegas. Em uma brincadeira com os espectadores, apresentou uma grande placa com uma foto de Luaty. “Luaty, esse é o Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, esse é o Luaty!”, que foi bastante aplaudido.
O segundo dia de Mimo começou cedo no Museu da República com um público que ia de crianças a idosos. As apresentações da Grande Companhia de Mysterios e Novidades, que se apresentou com pernas de pau, do pianista Antônio Guerra e dos músicos Nailor Proveta e Alessandro Penezzi encheram os olhos e ouvidos da platéia nos jardins do Palácio do Catete. Enquanto isso, na Igreja da Penha, as sul-coreanas SU:M despertaram a curiosidade de quem assistia com um som belíssimo tocado por instrumentos tradicionais da Coreia. A noite, foi a vez do Parque Lage se iluminar novamente para receber os shows da Banda Black Rio, que fez o primeiro show em comemoração aos 40 anos de formação, seguido por Tom Zé, que trouxe uma apresentação irreverente com músicas do seu último álbum Lata na Via Láctea, de 2014. “Nos jornais meu nome está tão escondido que preciso de uma Mimosidade, uma Mimosura", comentou durante a abertura do show.
Com o Parque Lage em sua lotação máxima, a surpresa do segundo dia foi o show do guitarrista africano Bombino. Durante duas horas, ele conseguiu levantar até mesmo aqueles que não conheciam o seu trabalho e provou em cada solo porque ficou conhecido como o "Hendrix do Saara".
No terceiro dia, feriado da Proclamação da República, o Mimo fez uma homenagem à data com uma Chuva de Poesia com textos de autores como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, que escreveram sobre a República. Centenas de papéis coloridos caíram do alto do casarão de Getúlio Vargas e encantaram o público. Em homenagem aos 55 anos dos museu, o local ainda recebeu shows de David Ganc e Quarteto Guerra-peixe, Orquestra Popular Tuhu e do bluesman Boubacar Traoré.
O encerramento do festival ficou por conta do projeto Valencianas. A união dos clássicos de Alceu Valença com a afinação da Orquestra Ouro Preto contou com um repertório de sucessos de toda a carreira de Alceu e foi cantado pelo público do início ao fim. Quando as luzes se acenderam, o público queria mais MIMO e um grande cortejo musical tomou conta das ruas do Jardim Botânico. Durante três dias, o MIMO foi abraçado pelo Rio e não vê a hora de voltar.
Festival Mimo de Cinema e Etapa Educativa
Além dos shows, o MIMO contou com uma mostra de cinema no Cine Odeon com a exibição de 23 filmes com temática musical. Filmes inéditos sobre Nina Simone, Elza Soares, Ney Matrogrosso, Carlos Imperial e Itamar Assumpção foram exibidos em sessões gratuitas com presença dos diretores.
Os artistas convidados para os shows, também deixaram um legado para jovens músicos com a Etapa Educativa do festival. 20 atividades entre workshops e aulas para crianças foram realizadas no Museu da República e no Espaço Guiomar Novaes.