Há pouco mais de um século, os especialistas acreditavam que a partitura do "Canto Fúnebre", composta pelo maestro e pianista russo Igor Stravinsky, havia sido perdida durante a Revolução de 1917 ou em sua sucessiva guerra civil.
Porém, a musicóloga Natalia Braginskaya encontrou a peça em meio a outros documentos da biblioteca do Conservatório de São Petersburgo, entre notas de Modest Mussorgsky e Zesar Kiui. Composta em 1908 em homenagem a seu maestro Nikolai Rimsky-Korsakov, ela desapareceu em 30 de janeiro de 1909, ano de sua primeira e única execução em Felix Blumenfeld.
As 106 preciosas notas foram encontradas 106 anos depois por causa da tenacidade da especialista russa, que dedica sua vida às pesquisas sobre o pianista. Agora, será necessária uma análise crítica antes de executar novamente a sinfonia que ressuscitará uma obra adormecida por mais de um século. Segundo explicações de Braginskaya, trata-se de uma composição em tom menor, com 12 minutos de duração, sendo uma lenta e invariável música com timbres instrumentais contrastantes. "É um diálogo de sonoridade, com ecos de Rimsky-Korsakov, mas também de Wagner, que Stravinsky admirava muito mais do que conseguia perceber", destacou.
De acordo com a estudiosa, o reencontro da peça cobre uma das maiores lacunas no corpo das composições autorais e ajudará a compreender melhor a sua rápida evolução artística.
O "Canto Fúnebre" é o anel marcante entre dois trabalhos sinfônicos de 1908 ("Fogos de Artifício" e "Scherzo Fantastique") e o "Pássaro de Fogo" (1910), o balé que o fez famoso após sua representação em Paris por parte do "Ballets Russes", de Sergei Diaguilev. O próprio pianista considerava uma de suas melhores composições antes do "Pássaro de Fogo" e uma das obras mais vanguardistas pelo uso da harmonia cromática.
A descoberta é ainda mais fantástica pela maneira como ocorreu. Por muitos anos, os diversos musicólogos russos sempre teorizaram que o manuscrito musical poderia estar nos arquivos não catalogados do conservatório da Filarmônica de São Petersburgo. Mas, durante o período soviético não se sentiam encorajados a procurá-lo, já que o músico havia sido expatriado.
Determinada, a estudiosa chegou a pedir, no ano passado, uma autorização para fazer uma análise minuciosa nos arquivos do Conservatório, pedido que foi negado pelo governo russo. Porém, em fevereiro deste ano, o ministro da cultural decidiu transferir os documentos para outro local e, durante a remoção dos itens, foi encontrado um armário velho com uma pilha de manuscritos.
Com isso, ele permitiu que Braginskaya olhasse os documentos e, revirando os arquivos, achou a peça. "Seria bonito que alguém em Leningrado procurasse a partitura e que eu visse as coisas que compus antes do 'Pássaro de Fogo'", escreveu Stravinsky na sua autobiografia. Agora, seu desejo foi, finalmente, cumprido.