'Dois amores e um bicho' - montagem volta ao Rio para nova temporada

Uma família está entretida num zoológico. Isolado em sua jaula, um orangotango chama a atenção. O bicho fora colocado em quarentena por ter molestado outro macaco. O motivo leva Carol a lembrar do episódio que levou o pai, Pablo Estefano,  à prisão quando ela era criança. O pai matara o cachorro da família. Essa é a premissa para Gustavo Ott tratar de questões do mundo contemporâneo (violência, homofobia, terrorismo, entre outras) em “Dois amores e um bicho”, primeira montagem de um texto do venezuelano no Rio. Sob a direção de Guilherme Delgado, a encenação-- a quinta da Tentáculos Espetáculos– volta, dia 03 de outubro para sua segunda temporada no Espaço Tom Jobim, onde estreou em julho.

Encenado dez anos atrás na Venezuela, em montagem dirigida pelo próprio Ott, o texto chegou às mãos de Delgado por acaso: era um dos quatro de autores latino americanos editados pela Escola Nacional do Sesc. Era 2013, e o noticiário fervilhava com os protestos nas ruas por mais decência em nosso país. Vindo de “O sósia”, texto de um autor europeu que trata de justiça, o grupo acalentava o desejo de falar de algo mais próximo da nossa realidade. E o texto de Ott veio a calhar. “Tivemos os protestos nas ruas, a questão do uso dos beagles como cobaias de um laboratório de cosméticos, entre outras questões. E o texto vinha ao encontro de tudo isso, sobretudo da nossa vontade de vir para um universo latino”, entusiasma-se Delgado.

O motivo que levou o pai a matar o cão intriga Carol da mesma forma que as mortes em série dos animais do zoo, onde trabalha como veterinária. O caso acaba investigado pela polícia e traz à tona mais questões atuais e atemporais. Tudo sem soar panfletário, ressalva o diretor: “O autor tem a capacidade de abordar diferentes assuntos numa única trama sem fazer do seu texto um manifesto. Acho que a dramaturgia latino-americana é muitas vezes explícita demais e, no caso desse texto, muita coisa fica subentendida”.

E Delgado teve carta branca de Ott para montar o texto a seu modo. Começou por não seguir todas as rubricas do texto. Para preservar o núcleo familiar -- Pablo, o pai (Vitor Fraga); Karen, a mãe (Ana Paula Novellino) e a filha, Carol (Yndara Barbosa) -- optou por escalar o ator Luiz Paulo Barreto para os papéis secundários, inicialmente interpretados pelas atrizes. Em vez de palco italiano, a arena, recurso que se mostrou adequado ao texto.  “A ideia é que a platéia ‘enjaule’ os personagens como também que os espectadores se encarem”, explica. 

Mais sobre Gustavo Ott

Um dos principais autores contemporâneos da Venezuela, Gustavo Ott tem prêmios na Espanha e nos EUA. Em 2002, “Dois amores e um bicho” foi agraciada para o programa “New Work Now”, do Public Theater de Nova York. Peças do escritor e jornalista  foram traduzidos para mais de dez idiomas como alemão,  russo e japonês, entre outros.

Serviço: 

Temporada: de 3 de outubro a 30 de novembro de 2014 

Horários: 21h (sextas e sábados) e às 20h (domingos). 

Local: galpão do Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico (Rua J. Botânico, 1008. Tel: 2274-7012)  

Ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia entrada para os casos previstos em lei) e R$ 15 (promoções)