Jô Soares, conhecido apresentador e comediante brasileiro, fez sua estreia na literatura policial em 1995 com a publicação de O xangô de Baker Street (ed. Companhia das Letras). Na trama, o célebre Sherlock Holmes é chamado ao Brasil por D. Pedro II para investigar o desaparecimento de um valioso violino Stadivarius. Ao mesmo tempo, um assassinato choca a cidade e deixa em pânico o delegado Mello Pimenta. Uma prostituta fora assassinada, teve suas orelhas decepadas e uma corda de violino estrategicamente colocada em seu corpo pelo assassino. Sherlock e o companheiro Watson enfrentam perigos que vão muito além das atrocidades do serial killer: feijoadas, caipirinhas, vatapás, intelectuais de botequim, pais de santo e o poder de sedução das mulatas locais.
Jô Soares é grande fã de literatura policial. Suas obras possuem clara influência do romance policial clássico. O tom de sátira, em vez de diminuir o gênero (como fazem alguns), serve para enaltecê-lo: Jô faz graça com a história; não com o estilo. Em verdade, a proposta autoral é muito clara e bem sucedida: criar tramas misteriosas com forte carga de humor.
O xangô de Baker Street é uma leitura deliciosa, permitindo ao leitor enxergar o Rio de Janeiro do Segundo Império, cenário pouco explorado pela nossa ficção contemporânea. Não bastasse, as situações hilárias em que Sherlock e Watson se metem em terras brasileiras garantem a leveza da obra.
O homem que matou Getúlio Vargas (ed. Companhia das Letras) é o segundo livro de Jô. A obra é a minha favorita, ainda que se afaste do romance policial para tangenciar as narrativas de aventura. Mais uma vez, o humor permeia a vida do personagem principal, o anarquista Dimitri Borja Korozec, que participa ativa e inusitadamente de importantes episódios históricos.
Voltando à seara policialesca, Jô publicou Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (ed. Companhia das Letras) em 2005 com uma premissa das mais divertidas: no início do século XX, a efervescência cultural da cidade do Rio de Janeiro é maculada por uma série de assassinatos. Os imortais da Academia Brasileira de Letras começam a cair inexplicavelmente mortos, um a um. Mais uma vez, a identidade do assassino se mantém em segredo até o final. A solução é intrigantemente satisfatória.
Em As Esganadas (ed. Companhia das Letras), seu romance mais recente, Jô continua no gênero policial, mas inverte o triângulo básico da literatura de mistério (crime – criminoso – investigação). Nesta obra, o leitor conhece a identidade do assassino desde o início. Desse modo, a tensão se constrói nas desastrosas tentativas da polícia de capturar o culpado pela morte de mulheres gordas e esbeltas no Rio de Janeiro em 1938.
Dos romances de Jô, apenas O Xangô de Baker Street foi para as telonas, com roteiro de Miguel Faria Jr. e de Patricia Melo (tema de nossa última coluna). O filme conta com ótimas atuações, além da sutil participação do próprio Jô Soares como desembargador Coelho Bastos. Os outros três romances de Jô possuem grande potencial para cinema e, sem dúvida, adaptações não tardarão para ocorrer. Enquanto isso, não temam o gordo, e devorem os livros!
>> 'JB' tem coluna sobre literatura policial
*Raphael Montes é advogado e escritor."Suicidas", seu romance de estreia, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010 e do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional, sendo o único livro brasileiro na Série Negra, coleção de romances policiais da editora Saraiva.O autor pesquisa o gênero policial, escreve estudos sobre o tema, realiza trabalhos como copidesque de textos literários e ministra palestras sobre processo criativo em faculdades e cursos. "Dias perfeitos", seu próximo romance policial, será publicado em 2014. Para saber mais, confira o website: www.raphaelmontes.com.br