Crítica: "País do desejo"

Paulo Caldas é um dos cineastas que vem causando grande interesse nos espectadores do bom cinema nacional desde a sua estreia, em 1997, com O Baile Perfumado. O pernambucano ficou ainda mais em voga quando Cinema, Aspirinas e Urubus (2004), do qual é roteirista (ao lado de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes) foi recebido com louvor pelo público e pela crítica; depois do documentário O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas (2000), Caldas volta à cadeira de diretor no premiado Deserto Feliz (2008). Este histórico, sem dúvida, corroborou para que certa expectativa cercasse a estreia do seu novo filme – País do Desejo. Tal expectativa, contudo, não é saciada pelo longa que se apresenta num escopo melodramático com ranço de cinema velho.

O melodrama surgiu como gênero dramático (híbrido) no início XVIII, e, como todo gênero, sofreu modificações e adequações até se conformar cênica e dramaturgicamente, no século seguinte, num estatuto que, hoje, reconhecemos como modelador. Uma dessas modificações tem ligação direta com um dos seus geradores etimológicos – a música, que, na origem, se juntava ao drama como força enunciativa aproximando o melodrama da opereta, do boulevard e das variantes do teatro musicado, não à toa grandes obras melodramáticas ganharam ainda mais força quando relidas pela chancela de “musical”.

A música, no filme de Caldas, é assunto: Maria Padilha dá vida a Roberta, uma pianista clássica que luta contra uma doença crônica nos rins. Numa das apresentações de sua turnê por Passárgada, Roberta passa mal e desmaia no palco. Internada numa clínica especializada, a pianista conhece José (Fábio Assunção), padre responsável pela pequena Igreja de Santo Agostinho, extremamente envolvido com as questões de sua paróquia e irmão de César (Gabriel Braga Nunes), médico da clínica. Aqui, todas as questões já estão dadas: o padre se apaixonará pela musicista e tomará algumas atitudes que só a capa de melodrama explica.

Na tentativa de tornar possível o amor instantâneo, inexplicável e dramaticamente infundado de Roberta e José, os roteiristas se utilizam de expedientes nada práticos, trazendo à tona assuntos que não ganham corpo e levando para cena personagens que, sem dúvida, teriam mais valor fora dela. Assim, surge uma enfermeira oriental fã de mangás eróticos; a personagem parece ser o objeto que justificará o título que diz ser aquele o país do desejo, mas, esta é mais uma expectativa frustrada: não há explicação e a personagem não tem função além de dar conta de uma cena herética na qual a mocinha come hóstias com catchup, enquanto lê seus quadrinhos. Surgem na trama uma menina vítima de estupro e toda a sua família – esta história, pelo menos, tem implicações definitivas na trama principal, apesar de ganhar mais espaço, na tela, do que era preciso.

As belas paisagens de Eldorado e Passárgada também estão em excesso, e algumas tomadas só se justificariam pela bonita fotografia de Paulo Jacinto dos Reis o que, contudo, não é suficiente.

O semiólogo francês Patrice Pavis parece estofar os transbordamentos do filme, quando fala sobre o melodrama. Ele diz que “o texto melodramático abunda em construções retoricamente muito complexas, em termos raros e afetados, em locuções que comprovam a emotividade e a ausência estrutural da frase. [Que] o jogo de cena adora prolongar o gesto, acentuar e deixar entrever bem mais do que ele exprime.” Diz, também que é o melodrama, sem o saber, “a forma paródica da tragédia clássica”. É claro que ele está falando de teatro, afinal é a sua especialidade, mas sua fala nos ajuda a tentar entender que tipo de movimento Caldas engendrou para esta sua empreitada, digamos, marginal.

É claro que o artista pode (e deve) se expressar a partir de qualquer suporte e usando, para tal, qualquer linguagem, todavia, sua obra, uma vez exposta à apreciação pública, será avaliada como componente do universo na qual está inserida. E, sem dúvida, País do Desejo caminha por uma estrada ao lado do que se está produzindo no cinema brasileiro, diria mesmo que é um cambaleante passo para trás na difícil trajetória que vem sendo vencida pelos nossos cineastas.

Cotação: * (Regular)