Um professor universitário bem sucedido que ensaia uma carreira literária resolve, depois de 30 anos de forte batalha interior, transformar-se em mulher. Este é o ponto de partida de Lawrence Anyways, terceiro filme de Xavier Dolan, diretor canadense (de 23 anos), que se tornou referência entre os jovens cinéfilos ao se lançar à frente dos discutidos Eu Matei Minha Mãe (2009) e Amores Imaginários (2010). Cinematograficamente mais maduro, Xavier Dolan dá um importante passo rumo a solidificação de sua estética, nesta primeira vez que se limita à cadeira do diretor.
O mundo dos gays, travestis, transexuais e crossdressing não constitui nenhuma novidade para o cinema e para as artes, em geral, e, também, parece, não é o que interessa aqui. O que surge como pedra fundamental deste roteiro, são as (im)possibilidades da construção de uma relação de profunda afeição, amor até, diante de um fator determinante: em seu aniversário de 30 anos, Lawrence Alia resolve contar à sua namorada, Fred, que fará a cirurgia de mudança de sexo e aí a história do casal se dividirá entre momentos de extrema parceria e outros onde, separados, ambos trilham caminhos densos e de grande interesse. Temos, então, que o motor do filme está na relação do casal, propriamente dita.
O título do longa aponta para uma discussão que margeia o filme, mas, que não está presentificada senão, talvez, em uma ou duas cenas: o direito do sujeito, dominador de suas capacidades intelectuais, sociais e políticas, afirmar-se como tal, independente da forma com a qual se apresenta. Discussão muito em voga e que remonta, por exemplo, a recente história envolvendo o cartunista Laerte Coutinho, que desde 2010, veste-se de mulher em tempo integral e que, assim como Lawrence, é Laerte “anyways”.
Para dar conta de narrar a transformação de Lawrence e todas as fases de sua relação com Fred, Dolan cria filme com escopo épico de longa duração: são quase 170 minutos, nos quais assistimos o período de 10 anos que separa a decisão de Alia de sua plena realização. A duração do filme se apresenta como um problema a ser vencido: a montagem – algumas vezes lenta – e o grande número de personagens secundários inflam o longa sem uma real necessidade; nos deparamos, então, com algumas “gorduras” dispensáveis. Por outro lado, esta mesma montagem, se mostra um trunfo, quando aliada a potente trilha sonora, quase toda composta por standards.
O elenco, muito bem equilibrado, conta com nomes de peso como os escolados Nathalie Baye (Prenda-me se for capaz) e Yves Jacques (O Aviador). A construção mais complexa do filme, ao contrário do que se pode pensar, não está a cargo do seu protagonista, defendido com empenho por Mevil Poupaud (O tempo que resta), está sim, nas mãos de Suzanne Clément. A atriz que já constava no elenco do primeiro longa de Dolan, revela-nos sua Fred Belair em camadas e numa construção profunda e avassaladora; pode-se dizer, sem medo de exageros, que sua visceral criação é responsável por nos manter ligados ao filme em muitos momentos, sendo o seu conflito, até, mais bem estruturado que o do próprio Lawrence, em termos de roteiro e de construção. Por esta personagem, merecidamente, a atriz foi agraciada, com o prêmio de Melhor Atriz, na sessão Un Certain Regard, do Festival de Cannes.
Lawrence Anyways é uma afirmação de coragem e fôlego do jovem Dolan. Não obstante em ser ousado, o cineasta, lindamente, se coloca frente aos veteranos como mais que uma promessa, um realizador de força produtiva e criativa.
Cotação: ** (Bom).