Como sempre, aconteceram pequenas quebras de protocolo - nada que alterasse o ritmo do MC da ocasião, o jornalista e crítico Rubens Ewald Filho. Houve também emoção, entusiasmo e a presença de uma das maiores divas do cinema. Após duas semanas e mais de 300 filmes, a premiação da 36ª Mostra Internacional de Cinema, na última sexta-feira (2), teve clima mais intimista, no acolhedor Cinesesc, em São Paulo, deixando de lado a grandiosidade que tinha como palco a Cinemateca da cidade, na Zona Sul, tradicional reduto do encerramento do festival, nos últimos anos.
O clima da noite pode ser resumido na tocante comemoração do elenco do filme "Colegas", longa premiado - três jovens portadores de Síndrome de Down que derrubaram as muralhas do preconceito à base do talento. E cativaram os presentes. A Mostra prosegue até a próxima quinta-feira (8), com a já famosa repescagem - última chance de quem perdeu algum filme.
Abrilhantado pela presença de ninguém menos que Claudia Cardinale, a grande convidada do evento - a diva italiana veio ao país lançar seu mais recente filme, "O Gebo e a Sombra", do centenário (104 anos) cineasta português Manoel de Oliveira -, o evento de premiação teve o mérito de ser enxuto como as premiações de festivais de cinema, como regra, deveriam ser. Chamada ao microfone, a atriz de obras inesquecíveis (na Itália e em Hollywood) como "Rocco e Seus Irmãos", "O Leopardo" (ambos de Luchino Visconti) e "81/2" (Federico Fellini) e "Era Uma Vez no Oeste" (Sergio Leone) estava radiante. Da diretora da Msotra, Renata de Almeida (que dividiu com Ewald as honras da noite), recebeu o prêmio Leon Cackoff (o antigo prêmio Humanidade, idealizado para destacar grandes contribuições artísticas, foi rebatizado com o nome do criador da Mostra, falecido em 2011). Foi aplaudida de pé - falou pouco (em italiano), mas preencheu a sala com seu enorme carisma ao agradecer com sinceridade genuína a felicidade de estar mais uma vez de volta ao Brasil. Engajadíssima em causas humanitárias, é gratificante ver a atriz ainda sendo homenageada em grandes eventos, como aconteceu também no Festival de Cannes, em 2010.
ISRAEL E A ITÁLIA DE MARCO BELLOCHIO
Importante destacar, a parte competitiva Mostra Internacional de Cinema de São Paulo compreende formato único no mundo: premiar filmes de novos diretores com no máximo dois filmes no currículo.
Composto pelos cineastas Danis Tanovic (cineasta bósnio do mítico "Terra de Ninguém", de 2001), Jan Harlan e Cao Hamburger ("Quando Meus Pais Saíram de Férias"), mais o ator austríaco Burghart Klaussner (dos filmes de Michael Haneke) e por Kanako Hayashi (presidente do F estival de Cinema de Tóquio), o juri acertou em cheio ao premiar "Preenchendo o Vazio", de Rama Burshtein como melhor longa de ficção - trata-se de um sensível retrato 3x4 de Israel, carregado de tinturas feministas. O longa foi o vencedor do troféu Bandeira Paulista, cujo design é assinado pela artista plástica Tomie Ohtake.
Já o eleito da crítica foi um veterano, o italiano Marco Bellochio, por "A Bela Que Dorme" - nele, o autor do monumental "Bom Dia, Noite" (2003 ) parte da discussão sobre a eutanásia para focar suas lentes em aspectos socio-políticos da Itália de hoje. Um grande filme, como o são os últimos de Bellochio (vide o sucesso de "Vincere" por aqui, dois anos atrás), que logo entrará em cartaz comercialmente no Brasil.
Outro grande diferencial da Mostra é a escolha do público que, para muitos, é a mais alta galhardia do festival. Coube a "No", do chileno Pablo Larraín, a primazia - após um início um tantinho, o filme ganha um ritmo impecável e flui maravilhosamente ao repassar a escolha política do Chile quando eleições são convocadas pelo ditador Augusto Pinochet, nos anos 80. O destaque no elenco recaí em um quase irreconhecível Gael García Bernal - o galã mexicano (com o perdão do clichê) "carrega o filme nas costas".
A outra escolha do público - melhor longa brasileiro - deu o tom de emoção da noite. Assinado por Marcelo Galvão, "Colegas" não ficou por aí: foi também o eleito do Prêmio da Juventude, votado por adolescentes que acompanham sessões especiais da Mostra. Na trama, um trio de jovens downianos vive uma espécia de road movie. Vestidos impecavelmente para a ocasião, os protagonistam ganharam a simpatia de todos no Cinesesc, com seus discursos sinceros e emocionados.
Na categora Documentários, o prêmio do júri comandado pelo crítico Amir Labaki (diretor do festival "É Tudo Verdade") foi para "We Came Home", de Ariana Delawari, uma história pessoal da cineasta sobre sua família e o Afeganistão pós-11 de Setembro). Já o público preferiu o hilário "A Copa Esquecida", falso documentário arrebatador sobre uma fictícia Copa do Mundo de 1942 disputada na... Patagônia! "Sementes do Nosso Quintal", de Fernanda heinz Figueiredo", foi a escolha do público para melhor documentário nacional.
Foi a primeira Mostra comandada diretamente por Renata de Almeida após o falecimento do parceiro e marido Leon Cakoff, criador do festival paulista (pioneiro no Brasil), ano passado. Os resultados não poderiam ter sido melhores. Grandes filmes, público numeroso e atento, e a função social cumprida, com o desdobramento da sessões para outras praças no interior do estado e até para salas na periferia. Nada mais justo do que a festa para convidados, após a première em 3D no Brasil do cândido, engraçadíssimo e imperdível longa de animação "Frankenweenie", nova saga do genial Tim Burton.