Arnaldo Jabor critica cinema atual: "feito para não pensar"

Ganhador do prêmio de melhor filme no 1º Festival de Cinema de Gramado, com Toda Nudez Será Castigada (1973), Arnaldo Jabor voltou ao evento 40 anos depois, mas desta ver para ser homenageado com o troféu Eduardo Abelin. Além de receber uma sessão especial de seu longa-metragem de 1973, na sexta-feira (17), o diretor subiu ao palco emocionado para receber o prêmio em reconhecimento a sua produção cinematográfica.

Jabor, porém, confessou não saber se voltará a fazer filmes, já que o público mudou muito. "O público se acostumou a um cinema de manipulação muito forte, em que o espectador é uma espécie de videogame do filme. Virou um cinema feito para não pensar", observou. O mal desempenho de seu último filme - Suprema Felicidade, 2010 - nas bilheterias também o desestimulou a voltar para trás das câmeras. "Eu achava que o filme ia saciar a fome do espectador que estava cansado de receber o mesmo tipo de filme. Por ser um filme reflexivo, tratar de certas questões, achei que ia fazer pelo menos 1,5 milhão de espectadores, mas fez só 250 mil", contou.

Sobre o cinema comercial, ele pontua que sempre existiu, mas que no passado, ainda assim, era de melhor qualidade. "Foi se estruturando um cinema de produtor, e produtor que eu falo é o americano, em que o diretor virou um guarda-civil, que só fala 'vai pra lá, vem pra cá'. O produtor quer um filme que não tenha intermediações artísticas", avaliou. Além das dificuldades de financiamento e falta de público, os produtores de cinema autoral ainda sofrem com a dificuldade para distribuir os filmes. Diante desse cenário, Jabor comenta que, para ele, "só interessa fazer cinema hoje, por uma razão puramente poética, de criação artística".

O cineasta, que se centrou na carreira jornalística a partir dos anos 1990, atribui isso à decadência do cinema a partir desta década. "Quando Collor entrou, a primeira coisa que ele fez foi acabar com o cinema brasileiro, com todas as fontes de financiamento", relembrou. "Eu estava de saco cheio de sofrer, sem nenhum tostão, então fui trabalhar para sustentar minha família", acrescentou. Durante o discurso da entrega do troféu, muito emocionado, o jornalista brincou que considera mais fácil falar na televisão do que no palco. "O tempo passa depressa e a gente se sente de época. Eu agradeço muito esse festival, que nasceu da raiz do cinema, no anos 70", finalizou.