Crítica: 'Histórias que só existem quando lembradas'

Os livros já perderam a conta de quantas vezes correram ideias bem pouco inteligentes a respeito de um suposto progresso brasileiro. Isso não nos impede de vivenciar esse sentimento geral novamente nos dias atuais. Essa empolgação está diretamente relacionada à sensação também geral – e as vezes incômoda - de pertencimento a um país de passado arcaico e exótico que parece caminhar lado a lado com seu presente.  

Também são inúmeras, ao longo da História, as discussões em torno da relação entre novas tecnologias e o homem – o que não impede nossos contemporâneos de investigar urgentemente as novas dinâmicas dessa relação hoje. São dois temas que de alguma forma são tocados no importante e interessante Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, longa metragem de estreia de Julia Murat, filha da diretora Lúcia Murat.

O enredo se faz em Jotuomba, minúscula cidade do outrora próspero e agora decadente Vale do Paraíba, interior do Rio de Janeiro. Há muito tempo que ninguém morre nesse vilarejo onde o cemitério foi trancado. O lugar parece parado no tempo até ser subitamente atravessado por Rita (Lisa E. Fávero), uma jovem fotógrafa e mochileira que se interessa por aquela atmosfera e se hospeda na casa de Madalena (Sonia Guedes), uma habitante síntese de sua terra.

Assim como o roteiro e a própria relação da diretora Julia Murat com seus atores, a plástica e belíssima fotografia do filme é trabalhada entre o documental e a fantasia. A partir das próprias características reais do lugar, cria para a Jotuomba do filme uma atmosfera antiga, rural, arcaica e pacata que parece familiar – mesmo que no imaginário – a todo brasileiro. Há de se destacar esse belo trabalho fotográfico não só devido à competente consistência que apresenta durante todo o filme, mas também porque a própria protagonista é uma fotógrafa, gerando boas reflexões metalinguísticas para quem se propuser a tal.

Fundamental e claramente destoante dessas características arcaicas de Jotuomba está a protagonista, Rita. Ela simboliza a modernidade, a tecnologia, o iPod e o olhar externo a um local visto como exótico e curioso. Tudo gira em torno dessa tensão entre o velho e o novo, o estrangeiro e o residente.

Novo, atual e pelo menos minimamente experimental, Histórias Que Só Existem Quando Lembradas é resultado de um longo trabalho cinematográfico e atinge suas pretensões com muita qualidade e refino que justificam sua vitoriosa carreira em festivais internacionais.