ASSINE
search button

Crítica de teatro: 'Amor e ódio em sonata'

Compartilhar

Recentemente, o interesse pela biografia de um dos maiores escritores de todos os tempos, Leon Tolstoi, tem crescido muito no meio cinematográfico e literário.   O  romance A Última Estação, de Jay Parini, por exemplo, que relata o período final do relacionamento entre Tolstoi e sua esposa Sônia, tornou-se filme de razoável sucesso em 2009, dirigido por Michael Hoffmann, com Helen Mirren e Christopher Plummer nos papéis principais.  Também as publicações das cartas de Sônia, de partes de seus diários e de biografias, que acabaram por revelar as desavenças mais acentuadas do casal ao longo do período em que viveram juntos, jogaram nova luz sobre a mulher de personalidade marcante, sempre à sombra de seu marido, trabalhando para que a obra que ele criava pudesse alcançar o maior número possível de leitores.  Como copista dos manuscritos de Tolstoi, Sônia chegou a reescrever milhares das mais famosas páginas da literatura russa do século XIX, sentindo-se, por isso, um pouco criadora e criatura daquele universo.  Esse sentimento, contudo, acabou por gerar tensões entre os dois, principalmente quando Tolstoi, já mais velho, decidiu abrir mão dos direitos autorais de sua obra e optar em definitivo pelo estilo de vida que o tornaria uma espécie de líder espiritual das grandes massas, tendo, inclusive, servido de inspiração ao jovem Gandhi.

A montagem Amor e Ódio em Sonata, atualmente em cartaz no Teatro Solar de Botafogo, explora a relação de Tolstoi com duas das figuras femininas mais importantes de sua vida: a própria mulher, Sônia, e Sasha, a filha, a quem o escritor autorizou parte da administração de seu legado e em cuja companhia fugiu para afastar-se de vez da esposa. 

Com uma estrutura que privilegia a expressão épico-lírica das personagens, construindo-se através do uso de monólogos que fazem um relato emocionado das vivências das duas mulheres em seus papéis de companheira, mãe e filha na Rússia do século XIX, o texto do diretor Leonardo Talarico parece abordar com maior interesse a dificuldade que tinham as esposas de encontrar plena realização em seus casamentos, pois aceitavam o matrimônio ainda inexperientes e tinham, quase sempre, na relação com os maridos, a única janela para a vida pública e o grande meio de sobrevivência, o que costumava criar sentimentos contraditórios na relação do casal (como o amor e o ódio do título).  Obviamente, nesse caso, é a personagem da esposa, Sônia, que aparece desenvolvida de maneira mais completa, restando ao retrato da filha Sasha, que nunca se casou, um desenho de maior superficialidade.

As atrizes defendem com garra seus papéis.  Amandha aproveita-se do fato de ter em mãos uma personagem mais bem construída e explora com desenvoltura, apesar da extrema frieza inicial, as dores da condessa Tolstoi.  Juliana Weinem não consegue superar a própria inexperiência nem as limitações do material literário com o qual lhe coube trabalhar, mas, mesmo assim, acaba por emprestar à sua Sasha a afetividade que a tornou especial aos olhos do pai.

A direção de Leonardo Talarico preocupa-se apenas em dar a maior veracidade possível aos sentimentos contraditórios expostos no texto, propondo um mínimo de intervenções. 

Os figurinos são adequados, e o cenário, de extrema simplicidade, como toda a montagem, tem caráter unicamente utilitário.

Amor e Ódio em Sonata é um espetáculo que discute a dificuldade que possuem determinadas pessoas em perceber fronteiras além do próprio universo de interesse ou dor.  Tolstoi não conseguia enxergar Sônia nem a natureza de seus sentimentos de maneira mais íntegra.  Tampouco ela alcançou compreender plenamente o parceiro e o impacto que lhe causava a agonia da aventura humana.   Como essas são também emoções e penas bem contemporâneas, o público deverá prestigiar.

Cotação: ** (Bom)