Crítica: 'O príncipe do deserto'

Fosse feito há 30 anos, O Príncipe do Deserto (Black Gold no original) certamente estaria entre clássicos como Lawrence da Arábia ou O Homem que queria ser Rei. Não foi. No final dos anos 70, o produtor Tarak Ben Ammar adquiriu os direitos de The Great Thirst (A Grande Sede), novela do suíço Hans Ruesch, e viu um longa épico sobre a batalha entre progresso (americano) e tradicionalismo (árabe) por uma terra profusa em petróleo em algum ponto do Oriente Médio. Ammar não pensou pequeno, queria Omar Sharif, Richard Harris e Anthony Quinn no elenco, todos filmados em grandes planos gerais do deserto, constrastando areia, sangue e o óleo negro. A grana não veio, o longa foi para a gaveta.

Por obra e graça do recém criado Doha Film Institute, no Catar, O Príncipe do Deserto finalmente veio ao mundo, produzido pelo mesmo Tarak Ben Ammar, distribuído pela Warner Brothers, mas com outros nomes no elenco, nomes, digamos, menos cotados - Antonio Banderas puxa a fila, para que o leitor tenha uma ideia.

Tocado pela eficiência militar do diretor francês Jean Jacques Annaud (O Nome da Rosa, Sete Anos no Tibet), trata-se de filme suntuoso, porém falho e historicamente atrasado. A história se passa num país árabe do qual não sabemos o nome, em algum ponto do início do século passado (o melhor palpite é algo entre 1925 e 1930). Neste país que ninguém conhece, duas tribos - uma do norte, outra do sul - disputam um grande pedaço de nada, no meio do deserto, chamado "Cinturão Amarelo". Uma das tribos vence e, por tradição (?), o líder derrotado, Amar (Mark Strong) deve entregar seus dois filhos à tutela do líder vitorioso, Nesib (Banderas). Fica decidido que o 'cinturão' não é de ninguém, que não vale a pena brigar por aquilo, a vida continua. Mas os meninos ficam. E crescem. Saleeh é o impetuoso, ansioso por escapar, Auda (Tahar Rahim) é o tímido e recolhido bibliófilo.

O tempo passa, e um dia bate à porta do sultanato de Nesib o representante de uma companhia petrolífera americana. Ele informa ao sultão que o 'cinturão', aquele grande pedaço de nada, guarda reservas de petróleo de excelente qualidade, suficientes para dez encarnações. A trégua e o acordo entre Amar e Nesib começam a murchar ali. As tribos voltam a guerrear e o filme de Annaud desemboca num lago fundo de previsibilidade e tédio. Ao menor sinal de um incidente, a trilha de James Horner berra, num descompasso interminável.

No centro de O Príncipe do Deserto está a transformação de um fracote míope em habilidoso comandante militar e, sob certa análise, a relação (de dependência de recursos naturais) entre Ocidente - Oriente Médio. Nenhum dos dois temas fica evidente, em momento algum. O roteiro, esburacado, faz uma lista imensa de pequenos incidentes desimportantes. O que resta é uma coleção de tomadas amplas e seqüências capengas, sob trilha ruim. 

Cotação: * (Ruim)