Quinto dia do festival de Berlim aposta em filmes que incomodam o público

Berlinale apresenta títulos sobre uma realidade que nem todos querem ver

BERLIM - Dramas que revelam abismos sociais em países de primeiro mundo, choques culturais entre famílias de diferentes latitudes e os bastidores de guerras sanguinárias marcaram a programação desta segunda-feira (13) do 62º Festival de Berlim. O dia começou sombrio com a exibição de L’enfant d’en haut, da diretora franco suíça Ursula Meier, sobre um menino de 12 anos que pratica pequenos furtos em uma estação de esqui dos Alpes suíços para poder sustentar a suposta irmã mais velha, com quem vive no vale lá embaixo.

Coprotagonizado pela jovem atriz francesa Léa Seydoux (Bastardos inglórios, Missão Impossível 4), também estrela de Les adieux à la reine,  título exibido na abertura da maratona alemã, o filme exibe uma faceta pouco conhecida da Suíça, o paraíso das contas secretas. “A geografia da história funciona como uma metáfora para o contraste social do país; os ricos que se divertem nos resorts nas montanhas e as famílias mais pobres, que vivem ao pé dos Alpes”, explicou Ursula, no encontro que se seguiu à projeção.

No filme, Seydoux vive Louise, a jovem com quem o garoto divide um modesto apartamento do vale. A relação entre os dois alterna momentos de carinho e desinteresse. “Mas meu principal objetivo não foi fazer uma denúncia social, ou algo parecido, mas descrever um tipo de desespero que existe no mundo inteiro, aquele causado pela ausência da figura paterna ou materna”, explicou Ursula, no encontro com a imprensa que se seguiu à projeção.

Exibido na sequência, também na disputa pelo Urso de Ouro de melhor filme, o drama familiar Jayne Mansfield’s car, sexto longa-metragem dirigido pelo ator americano Billy Bob Thornton, leva o espectador a uma cidade do Alabama, um dos mais conservadores estados do país, no final dos anos 60. No centro da trama está um patriarca autoritário (Robert Duvall) que mantém a vida dos quatro filhos sob um cabresto curto (interpretados por Kevin Bacon, Robert Patrick e o próprio Thornton), obrigado a receber em casa a família do atual marido da ex-esposa, que veio enterra-la na terra natal.

Desenvolvida pelo próprio Thornton, ex-marido da estrela Angelina Jolie, a história confronta três gerações diferentes com o significado das guerras, do passado e as do presente – o conflito no Vietã acabara de ser retomado pelo governo americano. “É um filme sobre o romantismo das tragédias mundiais”, resumiu o diretor, de 56 anos de idade. “O encontro forçado entre estas duas famílias, uma americana, a outra inglesa, serve como entrada dos fundos para um filme antiguerra, de como elas são afetadas por este tipo de tragédia e como não aprendemos com as lições do passado”.

A programação oficial foi encerrada com a projeção, fora de competição, de The flowers of war, do aclamado diretor chinês Zhang Yimou (Lanternas vermelhas). Trata-se de um épico ambientado durante a invasão japonesa à China, no final dos anos 30. Christian Bale, o Batman da milionária franquia da Warner Brothers, interpreta um andarilho americano que se torna protetor de estudantes católicas e prostitutas acolhidas numa igreja da cidade de Nanquim, cenário de uma dos massacres mais violentos da história do país.

O longa-metragem foi feito ao custo de US$ 90 milhões, financiado pelo estado chinês, e descreve batalhas entre os dois exércitos e todo tipo de violência sexual contra mulheres cometidos pelos soltados japoneses. “Mas não se trata de um filme que vilaniza o Japão e o seu passado”, avisou Bale, que contracena com um elenco magitoriamente chinês e japonês. “O filme de Zhang Yimou fala sobre seres humanos e como estes reagem dentro de situações de crise”.