Novo filme dos irmãos Taviani é exibido em Berlin

Escrita no século 16, a peça do dramaturgo e poeta britânico descreve a queda do imperador romano, responsável pela a expansão dos domínios de Roma, traído por um grupo de senadores e morto pelas mãos de um de seus amigos mais próximos, Marco Júnio Brutus, em 44 D.C.. Na peça dentro do filme, o assassino é interpretado por Salvatore Striano, que recebeu perdão de sua sentença depois de oito anos na prisão. 

“Shakespeare escreveu Julio Cesar há mais de 500 anos, e que descreve fatos ocorridos há quase 2 mil anos, mas as mensagens que ela contém transcedem o tempo”, contou Striano, hoje trabalha como ator profissional em cinema e televisão.

Nomes de ponta do cinema autoral italiano, ganhadores de prêmios em diversas contendas estrangeiras, os irmãos Paolo e Vittorio voltam ao circuito de festivais internacionais com o curioso Cesare deve morire, exibido neste sábado (11) na competição do 62º Festival de Berlim. O filme mostra uma versão livre da peça Julio César, de William Shakespeare, encenada por detentos da prisão modelo de Ribibbia, para onde são enviados assassinos, traficantes de drogas e membros da Camorra, a máfia italiana.

Ganhadores da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1977, com Pai patrão,  sobre o filho de um rude pastor que consegue escapar do destino que lhe fora traçado pelo pai, aqui os veteranos realizadores se alinham à teoria de que a arte pode ser trasnformadora. “Desde que conheci a arte, esta cela tem me parecido uma verdadeira prisão”, afirma  um dos presos, ao ser escoltado de volta ao cárcere, depois de terminada a encenação da peça.

Os Taviani descobriram os atores-detentos e o programa ocupacional de Ribibbia por acaso. “Um amigo nos falou que tinha assistido a uma peça de teatro que o havia feito chorar, o que é incoumum nos dias de hoje. A montagem em questão era  uma adaptação de Inferno, a primeira parte de A divina comédia, de Danti Alighieri. Mas o que nos deixou realmente surpreso foi a revelação de que a peça era dirigida e intepretada  pelos próprios detentos”, lembrou Vittorio, de 82 anos, o mais velho da dupla.

Não muito tempo depois os Taviani conseguiram permissão para filmar uma peça dentro do presídio, com o elenco selecionado entre seus internos. O passo seguinte foi escolher um texto que, de certa forma, espelhasse a realidade dos presos. “Não demorou muito que o texto ideal seria Julio Cesar, de Shakespeare, porque fala de temas como assassinado, traição, luta de poder, desonestida e violência”, explicou Vittorio.