ASSINE
search button

Crítica: Peça busca transformar em teatro texto condenando à leitura

Compartilhar

Macksen Luiz, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Este recital, em cartaz no Teatro Sesi, que adquire forma teatral através da adaptação de suas duas intérpretes, Elisa Lucinda e Geovana Pires, é baseado em texto de Fernando Pessoa, Notas para a recordação de meu mestre Caiero. O diálogo estabelecido por Pessoa entre os seus heterônimos Álvaro de Campos e Alberto Caieiro, captura o universo de seres poéticos como presenças de realidade existencial. A angústia criativa de Campos é confrontada com a natureza apaziguada de Caiero, que diante da complexidade do ato de viver, impregnado da pulsão da escrita, ilumina as dúvidas de Pessoa.

Não há tréguas neste embate de poesia exposta como fluxo de pensamentos em estado de fricção e ressonâncias de alma atormentada pelo inexplicável. A palavra poética se derrama como caudal de imagens de amargo lirismo, que a tradução cênica nem sempre consegue reproduzir.

O grande mérito das atrizes está em buscar transformar em teatro um texto que parece condenando à leitura. A ousadia, parcialmente compensada pelo modo como se apropriam da voz de Pessoa e pela forma como a projetam, procura demonstrar como sentem sua poesia. A dificuldade está na teatralização, que, mesmo em forma de diálogo do original, possui ritmo mais interiorizado do que audível.

Não sem razão, as adaptadoras criaram prólogo, quase como preleção, que situa os personagens e desenha contorno didático. Na contínua movimentação das atrizes para imprimir dinâmica ao que é dito, perde-se muito da essencialidade da palavra, produzindo o efeito inverso de a transformar em recitativo.

A intenção de encenar algo tão volátil como a natureza do olhar de uma sensibilidade pulsante fica a meio, ainda que, ao pinçar o temperatura de escrita arrebatada, Eliza Lucinda e Geovana Pires lancem no palco o ardor da palavra poética, tão rara no nosso teatro.