Daniel Schenker, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Será que ainda cabe definir o que é teatro? A pergunta, claro, vale para as demais manifestações artísticas numa época em que as fronteiras vêm sendo cada vez mais questionadas e borradas. Os espetáculos que compõem a Mostra Internacional de Teatro (MIT), que chega à sexta edição a partir desta sexta-feira, no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil, parecem buscar intersecções com campos diversos o cinema, no caso de The cabinet, da companhia americana Redmoon; a música e a dança, em Dias da ira, da espanhola Marta Carrasco, o teatro de bonecos, em El ultimo heredero, do grupo chileno Viaje Inmóvil, e a acrobacia em La gigantea, da francesa Les Trois Clès. A MIT decorre de uma parceria com o Festival Internacional de Londrina (Filo), que começará no próximo dia 10.
Exemplar do expressionismo alemão, O gabinete do doutor Caligari (1920), de Robert Wiene, serviu de base para a criação de The cabinet, montagem assinada por Frank Maugeri, centrada na história de um sonâmbulo que cai nas mãos de um médico maníaco, que obriga seus pacientes a cometerem assassinatos. O paciente mata duas vítimas, mas, quando parte para o terceiro assassinato, tem um instante de lucidez.
Queríamos trabalhar a partir de um filme de terror que nos fornecesse material para uma pesquisa estética afirma Vanessa Stalling, integrante da companhia. Valorizamos variações de preto, branco e cinza e inserimos a cor em momentos precisos.
Cenas em miniatura
Influência determinante para alguns grupos (principalmente para o Wooster Group, fundado, entre outros, por Elizabeth LeCompte, Willem Dafoe e Spalding Gray), o cinema desponta com força para a Redmoon, companhia que começou em 1990.
- Conciliamos diferentes formatos, entre o espetacular e a miniatura, numa proposta de teatro visual diz Stalling. Procuramos criar mundos poéticos através da colagem de imagens. Não há como não dialogar com o cinema.
Maugeri criou cenas em miniatura para invocar o mundo adormecido do paciente. Elas são desenvolvidas dentro de cenário composto por uma enorme escrivaninha e povoado de marionetistas que manipulam os personagens e seus objetos com pinças. Apesar de priorizar a construção da imagem, a Redmoon também costuma trabalhar a partir de textos de dramaturgos renomados como Anton Tchekhov, a exemplo da montagem de A gaivota.
Nós fizemos duas versões de A gaivota, uma delas encenada num parque. O dia ia escurecendo à medida que Nina passava por transformações conta Vanessa Stalling, referindo-se à personagem da peça, aspirante a atriz que caminha rumo ao enlouquecimento.
A programação da MIT seguirá com a Cia. Marta Carrasco, que retornará ao Festival de Londrina. A partir do Réquiem, de Mozart, Dias da ira faz alusão ao Juízo Final, quando todos serão convocados a se apresentarem diante do trono divino.
O trabalho de Carrasco se distancia do que costumamos ver no campo do teatro-dança destaca Luiz Bertipaglia, diretor do Filo. Dias da ira é bastante teatral, até na utilização do texto. Ela aborda a briga entre madrilenos e catalães e critica a Igreja Católica.
Na sequência, o público verá El ultimo heredero, segunda montagem do grupo Viaje Inmóvil assinada por Jaime Lorca (a primeira foi Gulliver), diretor que mergulhou anteriormente nas obras de autores como Julio Verne (Viagem ao centro da Terra), Agota Kristof (Gemelos) e Carlo Collodi (Pinocchio). Ex-integrante da companhia La Troppa, até hoje lembrada pelo impacto causado pelo já citado Gemelos, Lorca se vale agora de atores e bonecos para contar a história de Nepomuceno, vassalo do rei de Espanha que chega ao Chile colonial como herdeiro de terras e criações de cavalos ao lado de sua mulher, Dolores, e de um menino, que ambos trouxeram escondido por ser considerado incapaz e menos talentoso.
O último espetáculo incluído na programação da MIT é La gigantea, nome de uma planta mágica nos primórdios da Terra. Num espetáculo que troca as palavras por marionetes, dança e acrobacias, Makou e sua mãe vivem num desértico país imaginário. Criada, em 2004, por Eros Galvão e Alejandro Nunez, a Cia. Les Trois Clès já investigou o universo de Gabriel García Marquez em Macondo, apropriação de Cem anos de solidão, realizada juntamente com o Catibrum Teatro de Bonecos.
Há grupos e encenadores conhecidos do público brasileiro, mas que não desembarcarão no Rio dessa vez, como a Companhia Chapitô, de Portugal, que apresentará no Festival de Londrina, em São Paulo e em Brasília a sua versão sem palavras para A tempestade, de William Shakespeare, e Guerra, da Compagnia Pippo Delbono, da Itália. À frente do Filo, Betipaglia detecta eventuais tendências entre as encenações selecionadas para o festival.
- Acho que cada vez mais nos deparamos com a mistura de atores e bonecos em tamanho humano. Em Braquage, da Cia. Baskélite, o ator (Olivier Rannou) contracena com boneco cita, valendo mencionar também Don Juan, memória amarga de mí, da Companhia Pelmànec, da Espanha.