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A arte de ser Sérgio Britto

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Luis Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - Numa das muitas curvas que se intercalam pelas sinuosas ladeiras de Santa Teresa, destaca-se numa das mais altas partes do bairro uma casa de tijolos que, de tão bem cuidada, parece de brinquedo. A campainha toca às 13h30. Do lado de dentro, sentado diante de uma mesa arredondada de madeira, Sérgio Britto está a postos. Assim como esteve ao longo de 65 anos de entrega aos palcos. Aos 87 anos, mais de 130 peças na bagagem e a história do teatro brasileiro na ponta da língua, decidiu deixar escorrer por uma caneta bic num papel em branco as reminiscências que marcam sua vida e trajetória artística. O saldo desenrola-se ao longo das 416 páginas de O teatro e eu (editora Tinta Negra); biografia que complementa Fábrica de ilusão (1996) com revelações contadas agora em primeira mão e assinadas em primeira pessoa. O teatro, o ator, o diretor, o produtor, o crítico e o protagonista são todos um só: Sérgio Britto, o sonhador e inventor de mundos. Sob a luz dos holofotes ou no escuro dos bastidores, as histórias surgem como se narradas no ato, à flor da pele. Como na entrevista a seguir:

O que motivou o senhor a reescrever sua vida?

Já havia publicado outro livro, motivado pelo Luiz Geraldo Dolino. Quando disse a ele que havia deixado de lado uns escritos, ele me forçou a finalizar a história. É o meu maior incentivador... Quando a Michelle (Strzoda, editora da Tinta Negra) veio com a ideia de um novo livro, lembrei-a do primeiro, mas foi aí que notei: já haviam passado 14 anos. É muita coisa. Dolino mais uma vez apareceu e me incentivou a descobrir uma forma diferente. Sugeriu que eu experimentasse a primeira pessoa. Então me animei, e passei a narrar e a contar histórias, sem aquela análise fria e distante.

O senhor não faz rodeios. O primeiro capítulo começa intenso, com uma tentativa de suicídio, descobertas sexuais...

Esse capítulo é uma explosão de verdades da minha vida particular. Não são segredos, mas de qualquer maneira eu não quero falar sobre. Está no livro para que as pessoas leiam. O livro chama-se O teatro e eu. Aborda a minha vida no teatro, e toda a elaboração de um ator que começou de brincadeira.

E por que de brincadeira?

Jerusa Camões me encontrou no corredor da Escola Nacional de Música e me perguntou: Ô moço, você é muito bonito, quer fazer teatro? . A respostas veio automática: Quero . Não pensei, mas acho que esse querer estava escondido lá dentro.

E por que decidiu cursar e se formar em medicina? Até então a arte não lhe havia despertado maiores emoções?

O meu pai era um homem

extraordinário, muito ligado à arte. Gostava de literatura, de música, e nos levava ao cinema e ao teatro quatro vezes por semana. Um dia eu disse: Papai, você quer que eu estude medicina, mas está me preparando para outra coisa . E o dia chegou. Eu me formei em 2 de janeiro de 1948, e quatro dias depois eu estreei Hamlet. E aí foi uma loucura. Mas eu ainda não levava a sério. Havia feito duas apresentações de Romeu e Julieta, e Hamlet surgiu por amizade ao Sérgio Cardoso (1925-1972), por farra mesmo, sem responsabilidade. Tanto é que meu papel era o Horácio, um amigo. Até que o Ary Palmeira, que fazia o Rei Claudius, morreu e tive de substituí-lo. E aí não dava mais para brincar. Era um vilão, mau-caráter, havia matado o irmão para subir ao trono e casado com a cunhada. Um bandido requintado. Foi uma pancada séria. Entrei no personagem sem poder fazê-lo totalmente. Foi o começo.

E foi difícil romper com a idealização dos seus pais?

Não queria pensar que estava largando a medicina. Fui para São Paulo com Hamlet e meu pai apareceu em Campinas para me indagar: O senhor vai ser médico ou vai ficar sendo ator? Você me disse que não era ator . E eu disse: É, papai, pode ser que eu não seja ator, mas o meu negócio não é medicina. É teatro . Ele ficou paralisado. Meu pai me respeitava muito. Foi um ser humano muito especial na minha vida. A pessoa mais importante. Minha mãe se emocionava, queria muito o filhinho dela como o doutor Sérgio Britto. Mas quando eu comecei a ser reconhecido, ela esqueceu. Vaidade de mãe cobre tudo.

Quando percebeu que a arte era, além de um prazer ocasional, algo vital?

Levei um tempo para perceber. Até que o Ruggero Jacobbi (1920-1981) me chamou para fazer Electra e os fantasmas (1950). Fui melhor do que o esperado, mas ainda não tinha noção da importância do que eu estava fazendo. No início, recebia muitos convites para ser galã, porque era muito bonito. Fui para o Maria Della Costa fazer Manequim (1952), dirigido pelo Eugênio Kusnet (1898-1975). Ele era especialista em Stanislavski e resolveu problemas inacreditáveis. Fiquei deslumbrado e o teatro passou a ser sério. Mas acho que tudo mudou quando fui convidado para fazer Uma mulher e três palhaços (1954), do Marcel Achard. Eu usava um narizinho postiço, minha voz saia anasalada, mas foi ali que entendi e achei uma composição. Por mais espantoso que seja, ali eu comecei a ser ator. Disse: Eu sou ator . Com aquele nariz de palhaço, pensei: Mas que besteira ter perdido tempo nesses anos todos fazendo galãs. Eu não sou galã, sou um ator de composição . Que é o ator que entra pronto em cena, e não desprevenido, vazio...

Qual a importância do período em que trabalhou com o Gianni Ratto (1916-2005)?

Assim como da sua passagem pelo TBC e, posteriormente, da criação do Teatro dos Sete com a Fernanda Montenegro, Fernando Torres e Ítalo Rossi, a encenação e o impacto do 'Mambembe'...

Em 1956, o Gianni, que era o nosso mestre, foi para o TBC e todos nós fomos atrás. Eu comecei mal por lá. Não tinha papel para mim. Apenas uma pontinha, que eu fiz e gostei. Era um coreano velho, de 90 anos... O Gianni é o apogeu das nossas vidas. Eu, Ítalo e Fernanda o tínhamos como mestre. Mas um dia o nosso grande amigo teve uma ziquizira, e até hoje ninguém entende o que aconteceu.

E o que aconteceu? O que os levou ao afastamento?

No fim da vida, ele fez um documentário (A mochila do mascate), um projeto da filha dele... E disse horrores ao nosso respeito. Um dia ele vira para nós e diz: Esse repertório que nós fizemos é uma vergonha. Eu tenho nojo de ter feito esse repertório . Ficamos apatetados. Porque, na verdade, esse homem havia escolhido cada uma das peças. Tudo era escolha dele. De repente ele disse que deveríamos fazer um teatro mais comercial, e que com o dinheiro iria montar uma companhia de alta qualidade. Disse que já havia escolhido os atores, que eram os alunos do curso que ele estava fazendo. Nenhum de nós conseguiu entender o que estava acontecendo. Ainda fizemos uma última peça juntos, Mirandolina (1966), que não foi bem de público. Para salvar a situação, mandamos alguns textos... Mas ele se negou a dirigir qualquer peça. Disse que preferia enviar um cheque com a parte dele da dívida. E assim acabou a nossa ligação com o Gianni. Foi decepcionante. Mas não tira o mérito do que ele fez com a gente, mesmo que ele não reconheça. Afinal, disse que tudo era nojento. São coisas da vida. O teatro é assim. A cabeça de cada pessoa é uma complicação.

Nos anos 70, o senhor percorreu o mundo com 'Os autos sacramentais'. Foi ao Irã, Londres, Veneza, mas a peça não esteve no Brasil. Como era fazer e viver de teatro nos anos de chumbo? Quais os maiores percalços enfrentados?

Eu não sei responder. Eu nunca planejei a minha vida. Eu me deixei carregar pelas ideias palpitantes. De repente pintava um espetáculo totalmente novo, e eu ia fazer. Tudo que me despertava um interesse novo eu corria para fazer. Acabei com um repertório respeitável. Fiz pelo menos 130 peças, umas 100 como ator. Olha, eu já fiz muita coisa importante. O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues; os Becketts... Entre eles, Fim de jogo, com o Amir Haddad; Quatro vezes Beckett, com o Gerald Thomas; A última gravação de Krapp e Ato sem palavras nº 1, com a Isabel Cavalcanti. Beckett foi evoluindo dentro da minha cabeça. Descobri o humor que nascia do absurdo das situações com o Amir. Gerald mexeu profundamente e foi direto na ferida. Com ele, Beckett é desespero. Um humor corrosivo, sem piedade. Mas foi um prazer, assim como em Quartett que fiz com ele. Já Isabel marca um encerramento especial...

Por quê?

É muito perigoso dizer algo como: Esse é o maior trabalho da minha vida . Mas se eu quisesse examinar profundamente o que fiz, talvez esse último Beckett seja o trabalho mais importante da minha vida. Além de dirigir o espetáculo, Isabel dirigiu o Sérgio Britto. O (crítico de teatro do Jornal do Brasil) Macksen Luiz escreveu a observação mais perfeita: Sérgio Britto foi desconstruído, ou reconstruído pela Isabel . E foi isso. Fui ficando quito, quieto, quieto... Entrava em cena paralisado. Adquiri uma intensidade dentro de mim. Não havia nenhuma truque de ator. O ator Sérgio Britto não era usado. Ou era utilizado de maneira diferente, se anulando. Foi um trabalho apaixonante. É difícil medir, dentro das coisas que fiz, se essa foi a melhor de todas, mas talvez...

Prestes a completar 90 anos, o que mudou na sua maneira de encarar a vida, a passagem do tempo e a morte?

Eu geralmente não penso nisso. Mas agora, especialmente, que vou fazer 87 anos, reflito. Outro dia eu vi o tempo e disse: Meu Deus, está perto de 90 . É uma idade razoável. Mas acho que morrer faz parte da vida. Não tenho medo, não.

Até que ponto as lembranças e o passado ocupam o espaço que o futuro e as aspirações ocupavam na sua vida quando jovem?

Não sou um sujeito de ficar recordando, não é do meu temperamento. Sou de procurar, sempre em busca de algo novo para fazer. Esse ano eu tive uma grande sacudidela escrevendo o livro. A partir dos anos 2000 eu fiz um repertório extraordinário, incluindo Sérgio 80, que era uma recordação da minha vida. É um período muito rico. Se a minha vida fosse só esse momento eu já estaria satisfeito.

Quais são as indagações, questionamentos, preocupações ou planos para o futuro?

Tenho uma única e séria preocupação. Medo de me enfastiar, de perder o interesse. Eu vou ao teatro, ao cinema, todo o dia eu vou a algum lugar, eu leio alguma coisa. Se eu perder a curiosidade por essas coisas, o que eu vou fazer da vida? Mas eu acho que isso não vai acontecer. Eu gosto de surpresas. Não faço muitos planos. Deixo que as coisas aconteçam. No segundo semestre faço Recordar é viver, do Hélio Sussekind, com direção do Eduardo Tolentino. Depois quero montar Tchecov, O canto do cisne, com a Isabel. É uma peça muito simples, mas linda.