Em 'As desaparições', Alexei Bueno apresenta novos poemas ao público

Henrique Marques-Samyn *, Jornal do Brasil

RIO - Uma das primeiras páginas de As desaparições é ilustrada por um retrato de Alexei Bueno assinado por Sérgio Telles. Os traços ágeis e precisos figuram um rosto amadurecido, em que a austeridade do semblante é amenizada por um suave sorriso. Não obstante, trata-se de um retrato que difere bastante daquelas fotos que retratam o poeta no distante ano de 1984, quando lançava seu primeiro livro de poemas, As escadas da torre. Vinte e cinco anos mais tarde, Alexei Bueno apresenta ao público um livro em que seu estro, se por um lado permanece fiel a um conjunto de temas fulcrais não exclusivamente de sua poesia, mas da grande poesia de todos os tempos: a precariedade da existência humana, a avassaladora marcha da história, o implacável silêncio dos deuses por outro lado singra mares que pareciam vedados ao poeta quando jovem.

Não se trata de afirmar que Alexei, saudado outrora por Ivan Junqueira como nosso mais recente herdeiro das tradições helênicas e por este resenhista como herdeiro do simbolismo, tenha renunciado a essas matrizes estéticas; elas continuam presentes em sua obra todo legítimo poeta se mantém fiel às suas fontes. Entretanto, se nos primeiros livros essas influências se apresentavam de modo patente o substrato simbolista, mormente no já citado As escadas da torre; o influxo clássico, sobretudo em Poemas gregos (1985) aos poucos se foram diluindo numa dicção vigorosa, marcada por uma cuidadosa seleção vocabular e pelo tratamento filosófico da matéria lírica, o que pode tanto resultar numa abordagem crítica sobre temas cotidianos quanto produzir poemas que encerram densas reflexões metafísicas em versos. Não se creia, todavia, que tudo isso é feito de forma distanciada e cerebrina; pelo contrário: é característico da obra de Alexei Bueno o tom passional, que ora se expressa por incisivas asserções, ora por comentários irônicos ou sarcásticos.

Exemplos desses últimos podem ser encontrados, em A valsa dos canalhas ( Nossa vida outra seria /Se a cada dia no mundo //Pudéssemos ver um verme /Lançado entre os seus iguais, /Não queremos nada mais, /Nós, Senhor, teu povo inerme, //Do que a espantosa alegria, /A luz que nos aparvalha, /Que é a benção de um só canalha /Num caixão a cada dia ). Não menos vigoroso é As desaparições , poema que dá título ao livro, que constitui uma longa e torturada meditação sobre a efemeridade da existência ( Vamos, legiões, nos sumindo /Na astral fantasmagoria, /Caleidoscópio que é o dia /E a noite, fluindo, fugindo, /Fulgindo, até que, ofuscados, /Do sonho enfim despertemos, /Rolando, como tememos, /Hirtos, por todos os lados ); tempus fugit, volta a afirmar Alexei Bueno em No táxi ( Nada nos resume. /Cada morte é um dia. /Só o hoje é passado ).

Nem todo o livro, no entanto, é feito de sarcasmo e sombras. Silvia Saint é um arrebatado encômio para uma famosa atriz pornográfica, celebrada à maneira de uma femme fatale baudelairiana ( Deusa, deusa mil vezes, /Deusa de uma e mil faces, /Das rameiras rapaces, /Das cortesãs soezes. // ... //Jamais, deusa, não traias /Teus pobres fiéis que babam, /Que em êxtases se acabam /Por ti, pelas tuas aias. //Louro véu do universo, /Sacra estátua e cadela, /Pisa esta alma que vela /Teu sonho áureo e perverso ).

Observa Ruy Espinheira Filho na orelha que os poemas de oscilam entre a realidade mais chã e o misticismo mais imponderável . Percepção que diz respeito a uma tendência dos primeiros poemas de Alexei Bueno, que foi com o tempo se acentuando: a transição do sórdido ao sublime. É uma poesia feita de extremos e contradições que, por isso mesmo, se (re)afirma como profundamente humana.

* Henrique Marques-Samyn é poeta e doutor em literatura comparada pela Uerj.