Reaparece romance de Jaime Prado Gouvêa

Duílio Gomes, Jornal do Brasil

RIO - O escritor mineiro Murilo Rubião, introdutor do realismo fantástico no Brasil e integrante da geração de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Rezende e Hélio Pellegrino, criou em 1966 o Suplemento Literário de Minas Gerais, que lançou dezenas de escritores brasileiros e estrangeiros em suas páginas e foi responsável pelo surgimento de uma nova geração de autores mineiros, a chamada Geração Suplemento, expressão cunhada pelo crítico Hélio Pólvora e divulgada por ele e pelos também críticos Assis Brasil e Fausto Cunha.

Jaime Prado Gouvêa foi um desses jovens escritores da Geração Suplemento. Formado em direito pela UFMG, com passagem pela redação do paulista Jornal da Tarde, Gouvêa lançou poucos mas criativos livros de contos e um romance. Este, O altar das montanhas de Minas, está sendo reeditado pela Record e vem todo impregnado de mineiridade. A começar pelo título, um hino religioso que divulgou o Congresso Eucarístico de Minas Gerais realizado em 1936, com seus versos impressionistas e muito populares: Qual resplende em manhãs purpurinas / o sublime clarão do arrebol / sobre o altar das montanhas de Minas / brilha a hóstia, mais fúlgido sol .

A partir da página 21, quando surgem estes versos, o romance dá uma guinada e entra pelo atalho político. Desenvolvido durante a ditadura militar no Brasil, o enredo tem a Inconfidência Mineira como referencial e traz os personagens centrais Dirceu Dumont e as figuras femininas de Bárbara e Marília. A história, insólita e crepuscular, transita entre Belo Horizonte, Ouro Preto e Mariana, redações de jornal censuradas e órgãos repressores dos anos de chumbo, com suas prisões arbitrárias e torturas.

Em Ouro Preto, o leitor vai passar, com os personagens, pela Casa dos Contos, o Chafariz, a Praça Tiradentes, a igreja de São Francisco de Assis. A Ouro Preto da segunda metade do século 20 se mistura à Vila Rica do século 18, prevalecendo, em ambas, as crises existenciais de seus personagens e a porção transgressora de seus perfis.

As repressões políticas e as resistências dessas duas épocas provam que a história se repete e os vilões estão sempre à espreita para ceifar a democracia. A dominação colonial, com suas opressões fiscais, se funde com o regime militar do século 20 e a corrupção de seus dirigentes. Heróis e traidores sempre se repetem no curso da história.

O olhar crítico do autor cria (no caso, reconta) uma cena acontecida na Ouro Preto dos anos 70 durante a entrega das medalhas da Inconfidência, cujas listas de agraciados sempre estiveram nas mãos dos dirigentes da Assembléia Legislativa e da Academia de Letras, em uma espécie de consórcio de amigos: quando o gordo governador mineiro chega à Praça Tiradentes local da outorga dos prêmios com sua comitiva, o povo começa a vaiá-lo. O maestro agita rapidamente a batuta e faz com que a banda aumente o som. Mas as vaias seguem o som da banda e promovem um efeito devastador.

Relva úmida, orvalho, penas de cisne escreve o autor em um dos muitos momentos eróticos do romance algas deixadas pelas ondas e outras destilações entre pétalas correram pelas antenas de Dumont no momento em que abraçou Bárbara pelas costas.

Uma cena marcante deste O altar... é quando, em meio aos sinos de todas as igrejas ouropretanas badalando em seus ouvidos, Dirceu descobre que Bárbara que ele imaginava gostar apenas de chá ou licor é viciada em cocaína. Sob o efeito dessa droga, ela, com Dirceu no banco do carona, dirige o seu carro em alta velocidade na rodovia que vai de Ouro Preto a Belo Horizonte.

O rapaz pede à namorada que dirija mais devagar por causa das curvas perigosas mas ela não lhe dá ouvidos e continua pisando no acelerador. Não tem jeito, ele pensa. E procura encher seus pensamentos com outras coisas, fingir que nada disso estava acontecendo, imaginar que, correndo tanto, pelo menos a viagem acabaria logo, nenhum pesadelo dura tanto assim .

O inevitável acontece quando surge à frente do carro de Bárbara um caminhão Scania com o motorista enfiando a mão na buzina. Dirceu acorda no hospital com uma série de fraturas. Somente depois das cirurgias, lhe contam o que aconteceu a Bárbara.

Caio Fernando Abreu considerava O altar das montanhas de Minas um livro comovente e de estrutura sólida, onde o autor põe na mesa todos os clichês do pós-modernismo.