A abstração de Antonio Bandeira volta a Paris

André Duchiade, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Considerado um dos maiores pintores brasileiros de todos os tempos, Antonio Bandeira (1922 - 1967) deve grande parte de seu mérito artístico a Paris. Nascido em Fortaleza em 1922, foi na capital francesa que o artista viveu a maior parte de seu aprendizado na pintura, travou contato com pessoas e ideias que definiriam seu estilo e realizou exposições que o tornariam célebre na crítica brasileira e internacional. Em uma entrevista de 1950, disse: É sobretudo graças a Paris, fermento de arte e de inteligência, que sou reconhecido . Agora, mais de 40 anos após sua morte em solo parisiense, a obra de Bandeira volta à cidade que o consagrou, com a mostra A abstração lírica na pintura de Bandeira, aberta ao público a partir de terça-feira na Maison de L'Unesco.

A exposição é composta por 30 obras em óleo e 10 papéis, provenientes de colecionadores particulares e instituições como o MAM. A curadora, Vera Novis, planeja a mostra em Paris desde 1995, quando organizou retrospectivas no MAM e no Masp, mas só conseguiu tirá-la do papel agora, 25 anos depois da última individual póstuma de Bandeira na cidade francesa. As obras dão uma visão de conjunto da obra do artista, com ênfase no período europeu.

A trajetória artística de Bandeira começa na Fortaleza da década de 40. Com pouco mais de 20 anos, o pintor autodidata se aproveitava do bom momento cultural vivido pela capital cearense.

Havia muita efervescência, salões de arte e exposições semestrais. Bandeira ganhava prêmios em todos destaca Vera Novis.

Em 1945, o suíço Jean- Pierre Chabloz, pintor, desenhista e crítico de arte, realizou uma visita à cidade e, conhecendo a obra de Bandeira, o convidou para uma exposição no Rio.

A primeira passagem na então capital federal foi marcante, mas curta. A cidade foi seu primeiro contato com uma metrópole, uma das grandes inspirações de sua obra.

Ao chegar ao Rio e ver edifícios altos, inexistentes em Fortaleza, ele deslumbrou-se, o impacto foi muito grande diz a curadora.

Menos de 10 meses depois, ele deixaria a cidade, após obter sucesso com duas exposições coletivas e uma individual, no Instituto de Arquitetos do Brasil, e ganhar uma bolsa de estudos na França.

Sua pintura nessa época começa a se transformar. Se, no Brasil, tinha Van Gogh como maior inspiração, seu estilo começa a ser alterado por influência de vanguardas como o fauvismo e o cubismo.

Antes ele tinha um estilo expressionista carregado, pintava madonas, Jesus morto nos braços da mãe observa Vera. Em Paris, obras como Mulher sentada lendo e Cara trazem uma influência cubista clara.

O artista divide a vida entre os cafés e a academia entre 1946 e 1950. O fim da bolsa, de apenas um ano, não o impede de permanecer na cidade, e eventos consagrados do circuito artístico parisiense como o Salon d'Automne e Salon d'Art Libre, e novos, como o Salon de Mai, apresentam obras do artista. Seu ânimo na Paris do pós-guerra fazia com que as pessoas ficassem encantadas, além de aumentar seu círculo de relações.

É nessa época que Bandeira se torna amigo da pintora francesa Camille Bryen, e o alemão Wolfgang Schulze, já consagrado e conhecido como Wols. A produção do brasileiro nessa época já começava a ficar mais gestual e abstrata, e a influência do amigo é incontestável. Ainda assim, enquanto o alemão lida com temas lúgubres e atormentados, Bandeira prefere temas alegres.

Seu sentimento artístico nada tinha a ver com abstracionismo. Sua verdade interna não era niilista, era o contrário do desespero de Wols. Os opostos se atraíram comenta a curadora.

Após fundar o grupo Banbryols com os amigos uma das maiores frustrações do artista foi nunca ter chegado a expor coletivamente com o grupo, cujo nome surgiu das iniciais dos três é convidado para a 1ª Exposição de Pintura de Artistas da América Latina na Maison de l'Amérique Latine e vive completamente integrado à chamada École de Paris. Esse percurso culmina em sua primeira exposição individual, realizada na Galerie du Siècle. A essa altura já é total sua adesão ao movimento denominado abstração lírica ou informal.

Retorna ao Brasil em 1951, por ocasião da 1ª Bienal de São Paulo, onde o informalismo de sua obra ficará contraposto à linguagem construtivista e precisa dos artistas brasileiros de então. Desenvolve então o estilo que marcará definitivamente sua carreira, variando de pinturas a óleo de extrema delicadeza a outras com traços primitivos, realizadas com bastões. Ao mesmo tempo, os temas variam de árvores, paisagens longínquas ou cidades.

Ele dizia que não era abstrato, que seus temas eram da infância. Pode-se ver fagulhas, constelações, galáxias, explosões e fogo de artifício em seus quadros detalha Vera.

Premiado por seu cartaz da segunda edição da Bienal, retorna à Europa em 1954 e, depois de alguns meses na Itália, volta a Paris para outra temporada de cinco anos.

Eessa segunda estadia em Paris foi a de maior êxito. Fez sucesso junto a marchands de grandes galerias, expôs em Londres em 1955 vendendo mais da metade dos quadros na abertura e em 1956 ganhou outra exposição em Paris comenta a curadora. Em 1957 foi a vez de Nova York; no ano seguinte, a de Bruxelas, onde foi convidado a fazer todo o painel do Pavilhão Brasileiro na Exposição universal e internacional, o auge de sua carreira.

Ao retornar ao Brasil, em 1959, Bandeira já é um artista consagrado por críticos como Mário Pedrosa e Sérgio Milliet. Sua atividade nessa temporada de cinco anos é intensa: fica muito amigo de poetas como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Paulo Mendes Campos, inaugura o MAM da Bahia, expõe nos principais museus e galerias do país e, paralelamente, segue enviando trabalhos para mostras em Paris, Munique e Nova York. Volta a Paris em 1965, para sua terceira e última temporada, quando participa de algumas exposições até morrer prematuramente no dia 6 de outubro de 1967, após complicações em uma cirurgia para a retirada das amígdalas.

Duas homenagens póstumas são realizadas em Paris: uma Sala Antonio Bandeira no Salon Comparaisons em 1968, e, em 1971, uma exposição individual na Galeria Debret da Embaixada Brasileira. Em 1985 a Galerie Michel Broomhead apresenta uma mostra individual do artista. A maior coleção de suas obras atualmente se encontra no Museu do Ceará, em Fortaleza, com 34 quadros.