Musical "Vicente Celestino" destaca homem por trás do ícone da canção

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - A bordo de uma lírica confessional, Vicente Celestino não apenas potencializou o exacerbado romantismo adotado pelos cantores de rádio da primeira metade do século 20, como foi considerado, anos mais tarde, um dos precursores da chamada música brega. Controvérsias à parte, o fato é que sua verve dramática e teatral não era meramente estilística. Desde cedo, o músico cruzou o terreno do teatro de revista, dos musicais, operetas e óperas, onde o palco, de um jeito ou outro, lhe era como um porto seguro. A ligação entre o teatro e a música de um dos maiores ícones do cancioneiro brasileiro agora é esmiuçada e ganha forma definitiva através do espetáculo Vicente Celestino, a voz e o orgulho do Brasil, a partir desta sexta-feira em cartaz no Sesc Ginástico.

O teatro sempre teve papel fundamental na vida de Celestino revela o autor Wagner Campos, que também assina a direção musical do espetáculo. Serviu de palco tanto para seus shows como para as muitas óperas que interpretou. Analisando essa trajetória, assim como a sofisticação de suas músicas, fica difícil enquadrá-lo como brega. Isso é por conta das letras, sentimentais, e pelo fato de ter sido extremamente popular.

Dono da mais longa carreira da história da música popular do país, desde a sua estreia artística, em 1914, a bordo da valsa Flor do mal, Celestino amealhou fãs ao longo de 54 anos. Durante o período, lançou ininterruptamente cerca de 137 discos em 78 RPM, 265 músicas, 10 compactos e 31 LPs, além de acumular participações no teatro, cinema e TV. Mas não é bem o descarrilar imponente de números que move os interesses da Cia Limite 151, mas, sim, desvelar o homem por de trás do ícone da canção.

Queremos revelar a vida, trazer à tona fatos e histórias ainda não contadas. Enfim, mostrar o homem por trás do cantor, o Celestino que também era o genial cancionista frisa Campos. Tudo isso a partir de uma pesquisa histórica onde as músicas indiquem o contexto e a passagem do tempo, desde o início até o fim da vida.

Longe da 'Broadway tropical'

No palco, os seus primeiros testes, aulas e apresentações, os trabalhos realizados com Villa-Lobos, a convivência e o casamento com Gilda de Abreu, o relacionamento conflituoso com o filho do primeiro casamento, os bastidores dos filmes, peças e programas de TV que realizou, além de sua visão de mundo e sobre a política são alçadas pela memória de um amigo jornalista, militante político baiano identificado apenas como Pequeno (Pedro Garcia Netto). E é a certeza de que poucas pessoas têm acesso a tais relatos que instiga o autor a recontar a trajetória.

Celestino já estava perto dos 68 anos, e esse rapaz, na faixa dos 25, era tratado com muito respeito, uma relação quase filial. E é ele que desperta o olhar de Celestino para as questões políticas da época, em meio ao regime explica o autor.

A abordagem valoriza passagens pouco conhecidas, como a luta de Celestino para se adequar às tendências musicais dos anos 60, como a bossa nova e o tropicalismo.

Para um cantor à moda antiga, era preciso lutar para não ser tachado como um cantor obsoleto e se recolocar no mercado. Por isso, fez questão de gravar as canções de Vinicius, mas sem deixar de lado a porção de seresteiro que o caracterizava.

Distante do modelo que condicionou os espetáculos musicais nos últimos anos, o autor aposta na carga dramática das histórias do músico, mais do que na força de seu sucesso como cantor e músico consagrado. Acostumada a encenar textos clássicos de Shakespeare, Mollière, entre outros, a companhia revela um homem multifacetado, que adensa sua criatividade em vertentes artísticas diversas, e empresta ao texto suas impressões sobre o mundo que o cerca.

Nunca havíamos trabalhado com musicais, mas o que vamos apresentar é algo que foge aos padrões dessa Broadway tropical que se estabeleceu como formato. É teatro musicado e não um musical propriamente dito explica Campos.

Mesmo assim, é claro que um desfile de pérolas do cancioneiro de Celestino embala a produção. Ao todo, 10 números musicais , que partem desde a primeira gravação, em 1915, para Flor do mal, até a última, Canção da paz (1966), cruzando ainda faixas como Porta aberta, Mãos que falam, assim como o clássico O ébrio, que se tornaria filme através das lentes de sua mulher, a cantora Gilda de Abreu. Ambos se conheceram, noivaram e casaram durante as apresentações de A canção brasileira, em 1932. Daí para frente, passaram a dividir assinaturas, fossem nos créditos de discos ou nos filmes e peças teatrais que produziram juntos.

Gilda é um personagem fundamental e preponderante para o impulso que a carreira de Celestino tomou. Ela deixa até de cantar para ajudar a alavancar a carreira. Depois começa a filmar, compor e produzir. É uma história de amor impressionante.

Descoberto pela dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho, que o lançaram como protagonista do musical Ópera do malandro, de Chico Buarque, Alexandre Schumacher atravessou uma cuidadosa seleção até ser confirmado no papel. Dono de porte, timbre e potência vocal similares a Celestino, o ator espera atingir não apenas o público que aprecia o cancioneiro antigo.

Cinquenta e quatro anos de sucesso é para poucos. Recorro à sua voz, falada e cantada para reproduzir o que acontecia com os homens da época. Quem não cantasse daquela forma empostada não vendia discos destaca o ator. Tenho certeza que vai ser um sucesso. No começo pode causar certa estranheza aos mais jovens, mas com o tempo eles vão perceber que aquela música tem vida e sentimento.

Serviço:

Vicente Celestino, a voz e o orgulho do Brasil

Teatro Sesc Ginástico, Av. Graça Aranha, 187, Centro (2279-4027). Cap.: 513 pessoas. 5ª a dom., às 19h. R$ 20. Estudantes, menores de 21 anos e maiores de 60 pagam meia. Comerciários: R$ 5. 10 anos. Duração. 1h30. Até 23 de maio.