Sobrinho-bisneto de criador do Drácula lança continuação da saga

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO - Aparentemente, o fenômeno iniciado com a saga iniciada com Crepúsculo (2008), filme que moderniza, novamente, a lenda dos vampiros, está longe de terminar. Acaba de chegar às livrarias brasileiras o ambicioso livro Drácula O morto-vivo, que se pretende uma sequência de Drácula, romance epistolar do irlandês Bram Stoker (1847-1912) que apresentou ao mundo e à cultura pop o conde sugador de sangue. Seu coautor é o canadense Dacre Stoker, sobrinho-bisneto do escritor original, que, junto ao pesquisador e roteirista americano Ian Holt, se debruçou sobre as anotações deixadas pelo tio-avô. Um roteiro baseado na nova aventura já está circulando por Hollywood, avisa Stoker

Embora ache injusto julgar o sucesso de um livro por sua habilidade em virar cinema, muitos já comentaram que ele daria um excelente filme diz o escritor de 51 anos em entrevista ao Jornal do Brasil.

ndo você e Ian Holt começaram a desenvolver O morto-vivo?

Na verdade, o crédito para a ideia é do Ian Holt. Ele me procurou ainda em 2003, querendo apoio da família Stoker para escrever uma sequência de Drácula. Ele havia escrito um roteiro para In search of Dracula, um livro muito popular. A premissa era esclarecer para o público as características do verdadeiro príncipe Drácula. Por anos, Ian guardou essa ideia na cabeça até que encontrasse a oportunidade certa para aplicá-la. Embora o conceito fizesse sentido, confesso que ter demonstrado um certo ceticismo quando ele apresentou a ideia. A história oferece ao leitor a oportunidade de rever o trabalho original que gerou todo essa febre de vampiros que vemos hoje em dia.

l o principal diferencial de 'O morto-vivo' de outros livros inspirados no conde Drácula?

Desde o princípio, ficou claro que seria importante fazermos algo um pouco diferente dos outros autores que escreveram sequências ou outro tipo de derivações sobre Drácula. Primeiro, buscamos a aprovação de minha família, o que incluía os bisnetos de Bram. Segundo, pesquisamos as notas que ele deixou quando escreveu Drácula, atrás de interpretações sobre os personagens. Nos sentimos capazes de dar continuidade ao enredo de onde ele parou, usando os personagens criados por ele, de maneira similar a que Bram faria se tivesse escrito um segundo capítulo.

ue você pensa do novo filão sobre vampiros, iniciado com 'Crepúsculo'? Acha que ajudará a chamar a atenção para seu livro?

Acho maravilhoso, parece que há espaço para todos. Vampiros têm a impressionante capacidade de mudar de forma e de se adaptar ao ambiente para sobreviver. Eles são os modernos predadores darwinianos! Nos últimos 112 anos, temos testemunhado essas criaturas sendo adaptadas por escritores e diretores para os mais variados gêneros. A saga Crepúsculo, por exemplo, os descreve como adolescentes problemáticos. A série de TV True blood os vê como vítimas que atravessam o tempo. No filme sueco Deixe ela entrar, o vampiro é uma criança. Todos, no entanto, seguem mais ou menos as regras básicas associadas aos vampiros há mais de um século. O morto-vivo permite que as pessoas se reconectem ao enredo original de Drácula mas em um estilo mais moderno de texto.

mes e séries de TV atuais reinventam Drácula como herói romântico. Como o descreveria?

Essas interpretações começaram há muito tempo, quando o personagem subiu aos palcos de teatro. No início do século passado, a peça Drácula foi um tremendo sucesso e ajudou as vendas do livro de Bram Stoker depois de sua morte. As pessoas esperavam que o protagonista, ao vivo, fosse um homem belo e encantador, não uma criatura saída de uma cova. Desse modo, Bela Lugosi estabeleceu um padrão de beleza para o conde do Leste Europeu, que poderia seduzir mulheres e beber seu sangue. Os vampiros de hoje têm uma aparência diferente do original, mas não se esqueça que a força deles está no fato de poderem mudar de forma, adaptarem-se ao meio e assim serem bem-sucedidos. Nosso Drácula é uma fusão do conde criado por Bram com o príncipe da antiga região da Romênia do século 14, que conhecemos dos livros de história. Nós demos ao nosso Drácula a chance de se representar como pessoa, e com mais narrativa, do que no romance original de Bram.

morto-vivo' revisita alguns dos personagens criados por seu tio-bisaavô, como Mina e Johnathan Harker, o Dr. Jack Stewart e o caçador de vampiros Abraham Van Helsing. Por que vocês levaram a história para o início do século 20?

Resolvemos criar um intervalo de 25 anos entre o final do livro de Bram e o início do nosso romance por várias razões. Queríamos, por exemplo, que Quincy, o filho de Mina e Jonathan, que nasce no final de Drácula, tivesse idade suficiente para ser um personagem. Também queríamos usar o próprio Bram Stoker como personagem, e ele morreu em 1912.

O livro mistura personagens de fictícios com reais, como Jack, O Estripador, e a condessa húngara Elizabeth Bathory...

A história original de Bram é baseada em eventos reais da Londres de 1897 ou que aconteceram na Europa daquela época, o que a torna ainda mais assustadora, quase realista. No prefácio da edição irlandesa de Drácula, o único que Bram escreveu, em 1901, ele menciona que os crimes de Jack, O Estripador tiveram um efeito enorme sobre ele e que isso, provavelmente, repercutiria mais adiante. Bem, O Estripador nunca apareceu em Drácula, então seria aceitável que ele surgisse na continuação. A condessa Bathory foi um vilã de verdade, associada à matança de centenas de jovens virgens de sua cidade, em cujo sangue ela costumava se banhar. Então, assim como Bram, encontramos uma figura história e criamos um personagem vampiro vagamente inspirado nela.

Vocês já receberam alguma proposta para transforma 'Drácula O morto-vivo' em filme?

Ian já escreveu um roteiro a partir do nosso livro, que já está circulando por Hollywod nesse momento. Embora ache injusto julgar o sucesso de um livro na sua habilidade em virar cinema, muitos já comentaram que daria um excelente filme.

O enredo de 'Drácula O morto-vivo' deixa aberta a possibilidade de uma terceira aventura do Príncipe Negro. Já existe algum plano nesse sentido?

Nós temos um esboço para o próximo seguimento, e estamos trabalhando na confecção de um novo capítulo. A editora Penguin, do Canadá, inclusive já comprou os direitos para o território deles.

Banho de sangue em Hollywood

A impressionante (e inesperada) arrecadação de US$ 400 milhões em todo o mundo faz de Crepúsculo (2008), de Catherine Hardwicke, o paciente zero de uma pandemia que rapidamente extrapolou os limites do mercado cinematográfico. O sofrido romance entre Bella (Kristen Stewart) e o vampiro teen Edward Cullen (Robert Pattinson) transformou-se numa saga de quatro episódios (Eclipse, o terceiro, chega aos cinemas esse ano; Amanhecer, em 2011), e rapidamente contaminou a TV a cabo: estão no ar True blood, pela HBO, e Vampire diaries, pela Warner Channel.

É no cinema, no entanto, que o fenômeno se reproduz com maior rapidez (e avidez), e não exclusivamente visando o público infanto-juvenil. Enquanto os detentores da franquia Crepúsculo buscam um diretor de renome para o quarto desdobramento da saga estão entre Gus Van Sant, de Gênio indomável, Sofia Coppola, de Encontros e desencontros, e Bill Condon, de Deuses e monstros Sigourney Weaver (Avatar) acaba se assinar contrato para o elenco de Vamps, comédia romântica de Amy Heckerling sobre duas amigas, interpretadas por Alicia Silverstone e Krysten Ritter, que precisam escolher entre o amor terreno e a vida eterna. As filmagens começam no final de abril.

Em breve Crepúsculo deixará de ser a única saga a lucrar com um personagem imortal. A FilmNation Entertainment, uma produtora de Nova York, acaba de comprar os direitos da série de romances The last vampire, de Christopher Pike. A premissa: jovem vampira entra para a escola onde o filho do detetive que morto por ela estuda, mas acaba se apaixonando pelo rapaz. A série de livros é composta por sete títulos: Black blood, Red dice, Phantom, Evil thrist, Creatures of forever e The eternal dawn.

Outro que, aparentemente, não resistiu à vampiromania, é Tim Burton. Rumores dão conta de que o diretor americano, que mal terminou de mandar para os cinemas Alice no país das maravilhas (que estreia dia 23 de abril no Brasil), incluiu a Dark shadows entre os seus próximos projetos. O longa é uma adaptação para o cinema de uma antiga novela de TV, produzida pela rede ABC entre 1967 e 1971, que tinha como protagonista uma família do Maine que recebe a visita de um primo vampiro. A trama envolvia também lobisomens, zumbis, fantasmas e todo tipo de criaturas sombrias. Não é de admirar o interesse de Burton pelo projeto.

>> Nas livrarias

Drácula O morto-vivo

Dacre Stoker e Ian Holt. Ediouro, 280 pags. R$ 49,90