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Em 'O palhaço', Selton Mello trilha caminho oposto à 'Feliz Natal'

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Daniel Schenker, Jornal do Brasil

PAULÍNIA, SP - Selton Mello vem sobrevivendo a momentos de desestabilização. Não só sobrevivendo como revertendo a seu favor. Depois do mergulho intenso em Lavoura arcaica (2001), transposição cinematográfica de Luiz Fernando Carvalho para o romance homônimo de Raduan Nassar, passou por uma crise durante as filmagens de Jean Charles (2009), de Henrique Goldman, quando questionou seu vínculo com a profissão de ator. A crise gerou seu segundo longa-metragem como diretor, O palhaço, cujas filmagens estão tomando conta, nesse momento, dos estúdios de Paulínia.

Meu personagem sonha em deixar o circo. Ele se pergunta se realmente quer continuar trabalhando como palhaço. Mas hesita em abandonar o pai, já idoso diz Mello, sobre Benjamim, que forma com o pai, Valdemar, a dupla circense Puro Sangue e Pangaré.

Os nomes dos personagens, interpretados pelo próprio Mello e por Paulo José, são homenagens aos pioneiros palhaços Benjamin de Oliveira, também compositor e ator, e Arrelia (Waldemar Seyssel), o primeiro a aparecer na televisão brasileira. Antes de começar as filmagens, que irão se estender até o dia 12 de abril (com locações em Ibitipoca, MG), Mello investiu num longo processo de pesquisa, que pretende transformar num produto adicional ao filme.

Conheci palhaços como Biribinha e Cochicho, que hoje trabalha no circo de Beto Carrero e nos ajudou nas gags físicas conta Selton, que chama atenção para as mudanças decorrentes da passagem do tempo. Antigamente, o palhaço era a grande estrela. Depois passou a ter a função de costurar os números.

Não há como deixar de pensar na referência de Bye bye Brasil (1979), de Carlos Diegues, filme que registra o momento de passagem de um país voltado para o entretenimento artesanal para outro, sintonizado nas antenas de TV.

Além de Bye bye Brasil, revi O profeta da fome (1970), de Maurice Capovilla, Tico-tico no fubá (1952), do Adolfo Celi, e filmes de Mazzaropi enumera Selton Mello.

Paulo José, contudo, diferencia O palhaço de produções anteriores.

Acho que Selton não questiona propriamente a decadência do circo. Até porque a crise não é definitiva, mesmo que não vivamos mais a época das tradicionais famílias circenses. Basta notar que o circo é cada vez mais incorporado por quem faz teatro. Luiz Carlos Vasconcelos, por exemplo, criou o palhaço Xuxu observa Paulo, presente na coletiva de imprensa, ao lado de Selton, da produtora Vânia Catani e de Emerson Alves, secretário de Cultura de Paulínia.

O ator sabe do que está falando. Afinal, é ligado ao circo desde o início de sua carreira.

Sou de Lavras do Sul. Lá eu e meus irmãos tínhamos um circo de fundo de quintal. Depois formei com Flavio Migliaccio a dupla Shazan & Xerife. Eu e Dina (Sfat) fizemos ainda uma dupla de circo na novela O homem que deve morrer recorda Paulo, que poderá ser visto, em breve, em outros filmes, como Insolação (2009), de Felipe Hirsch, e Quincas Berro D'água, versão de Sergio Machado para o romance de Jorge Amado. Na época do Teatro de Arena os atores viajavam pelo interior e se apresentavam em circos, já que os espetáculos eram concebidos para o formato circular.

Hoje, Paulo perpetua um pouco sua ligação com o circo através do vínculo com o Grupo Galpão. Da companhia, Mello convidou Teuda Bara para integrar o elenco. Também fazem parte da equipe de O palhaço os atores Cadu Fávero, Erom Cordeiro, Thogun, Hossen Minussi e Álamo Facó. Selton hesitou diante do desafio de acumular as funções de ator e de diretor.

Ofereci o personagem a Wagner Moura, que não pode aceitar por causa de Tropa de elite 2, e a Rodrigo Santoro, que estava envolvido com um filme sobre Heleno de Freitas. Então, decidi fazer. Percebi que não precisaria explicar para outro ator o que queria.

Sou um cineasta bipolar

Apesar de retomar o universo do convívio familiar, Selton Mello caminha em direção oposta ao amargo Feliz Natal (2008), sua estreia como diretor. Através da figura do palhaço, ele quer trazer à tona a qualidade lúdica própria da infância.

Mandei Feliz Natal para Raduan Nassar assistir. Ele me ligou e disse: Nossa, é um filme tão sem esperança . Eu contei que estava começando a filmar O palhaço, ambientado num circo que se chama Esperança. Avisei que será um filme solar. Sou um cineasta bipolar diverte-se Mello, antes de afirmar sua vocação para a diversidade. É provável que meu trabalho como diretor contemple projetos tão diferentes quanto os que faço como ator.

No caso de O palhaço, Mello gostaria que esta nova empreitada fosse classificada como uma comédia sonhadora . Uma rápida visita a um dos estúdios do Polo Cinematográfico de Paulínia, onde foi montada a lona do Circo Esperança de Valdemar e Benjamin, sugere uma atmosfera amorosa e nostálgica. Uma sensação impregnada nas cadeiras gastas da plateia, na cortina de veludo, nas luzes coloridas que atravessam o palco e nos muitos ventiladores antigos.

Um filme impregnado de candura é o mais louco que podemos fazer numa época como a de hoje conclui.

O repórter viajou a convite do Polo Cinematográfico de Paulínia