Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - A cada ano torna-se mais desafiadora quando não frustrante a tarefa de acompanhar de perto a enxurrada de canções produzidas e veiculadas por novos artistas diariamente. Em meio a um cenário pop multifacetado, do indie ao mainstream, cujas barreiras perdem definição gradativamente, se espraiam uma infinidade de nomes que, em questão de dias, horas, minutos são catapultados ao centro de um furacão midiático. De ouvidos atentos a mais de 50 nomes, o Caderno B se lança à missiva de separar o joio do trigo. A partir de domingo, a série Ouça essa se empenha em destacar e entrevistar as mais relevantes promessas da música pop. Entre elas o trio britânico Delphic, assim como os nove outros nomes listados nesta página.
De volta a Manchester
Enfim uma banda inglesa ultrapassa a velocidade do hype; e sem dar tempo para os semanários musicais deixarem escorrer um novo gênero da ponta da língua. Dando adeus às sirenes ravers, às guitarras angulares, entre outros modismos, o Delphic mescla a house music dos clubes noturnos com a grandiosidade do rock de arena. Enquadram-se num cenário atual de bandas que aposentam a formação instrumental clássica. James Cook (vocal), Matt Cocksedge (guitarra) e Richard Boardman (multiinstrumentista) definem o trabalho como música eletrônica executada por uma banda de rock , e dão um tapa na cara do som eufórico e bem-comportado de alguns de seus contemporâneos. Primando pela originalidade, arremessam a sonoridade e a forma convencional de tocar guitarra na lata de lixo e apontam para um revival da Manchester oitentista época em que os álbuns futuristas do New Order ditavam as ondas de rádio. No fim das contas, não revolucionam a máquina, mas garantem inventividade o bastante para emprestar novo fôlego à saturada cena inglesa.
O que nos interessa é fazer com que as pessoas se emocionem e, é claro, fiquem estimuladas a dançar. Acho que Manchester precisa aprender a se mexer novamente. Queremos ser os maiores responsáveis por trazer o dance de volta ao mapa afirma Cook,enquanto descansa após um set de DJ realizado em Newcastle.
A bordo de Acolyte, aclamado álbum de estreia, o grupo desponta como um dos mais energéticos da atualidade. Navegam por referências como Björk, Radiohead, Kraftwerk, Aphex Twin, Sigur Ros e Chemical Brothers para construir uma atmosfera singular, num arco de gêneros que embala o techno minimalista e o pop mais radiofônico.
Todas as sonoridades que absorvemos estão gravadas no nosso subconsciente, então é difícil entender de onde vêm as conexões. Quando começamos a escrever juntos percebemos o cruzamento de influências comuns conta o vocalista. O que faz a nossa cabeça é um tipo de música que leva em conta a noção de pioneirismo. Mas é claro que admiramos e sabemos o quanto é difícil fazer canções que atinjam as massas. É algo tão valioso quanto criar a sonoridade mais original.
A mescla de sonoridades distintas, a quebra de barreiras entre gêneros musicais e o desprendimento quanto à formação sobre o palco não são as únicas facetas que denotam a contemporaneidade do grupo. Dono do próprio selo, Chimeric, o trio elaborou todo o material gráfico do álbum de estreia, assim como os vídeos promocionais. Perfeccionistas, escolheram a dedo o produtor Ewan Pearson, depois que ele fez da faixa Counterpoint o reflexo exato do que os três idealizavam.
Somos extremamente detalhistas, então gravar e compor se torna um trabalho muito penoso e estressante. Ewan impediu que nos matássemos brinca. Ele transformou em realidade tudo o que estava dentro da nossa cabeça. Ele mora em Berlim, que é casa do techno. Foi tudo muito inspirador já que estamos imersos nessa cultura há muitos anos.
Jovem, ambicioso e inventivo, o guitarrista Matt Cocksedge diz estar cansado do rock calcado em riffs de guitarra.
Passamos muito tempo ouvindo bandas que ditavam A guitarra está morta, vida longa à guitarra . Esse tipo de música se tornou cansativa e entediante. Sentimos que deveríamos usar a nossa criatividade para inovar e capturar uma sonoridade única.
Conceitual, a abordagem de Acolyte tem na faixa-título a matriz dos arranjos que moldam as outras nove canções.
Acho que construímos um álbum fluido e consistente, áspero e bonito diz Cook. Acolyte é a peça-chave. Tudo gira em torno e deve caber dentro dessa atmosfera.
A cada uma das questões respondidas, o trio deixa escorrer certezas e um otimismo que vez por outra se confunde com prepotência. Celebrados por resenhas favoráveis e pela instantânea glorificação do jornalismo musical britânico, eles sabem, porém, que ainda lhes resta um longo e instável caminho à frente.
Fico eletrificado, mas sei que é só o começo. Acabamos de lançar o primeiro disco, mas já estamos profundamente envolvidos com os conceitos do segundo. É claro que é incrível poder rodar o mundo tocando, mas fazer novas músicas é o que nos move. É como uma obsessão. Estamos sempre de olho no futuro.
The Drums
Enquanto a eletrônica continua a mexer com o som e a cabeça de roqueiros seja pela sobreposição de sintetizadores ou pela imersão em beats programados Jacob e Jonathan trilham o caminho inverso. Cansados das eletronices produzidas na Flórida, juntaram uma grana, arrumaram as malas e partiram para Nova York. De guitarras em punho, mergulham na década de 50 e no surf pop dos 60, pegando carona na sonoridade oitentista de Orange Juice e The Smiths. Relegados a moquifos de segunda categoria nos EUA, ganham fama sob a grita da atenta mídia britânica, que os tem como a banda mais cool de Nova York . Ecoando Factory e Beach Boys, assinam hits pegajosos, dançantes e ensolarados como Let's go surfing e Saddest summer, assim como melancólicas e nostálgicas baladas. Down by
the water é um caldo de tirar o fôlego. Ouça essa: I felt stupid (https://www.myspace.com/thedrumsforever)
Two Door Cinema Club
Amigos desde os tempos de colégio, Alex Trimble, Kev Baird e Sam Halliday são apontados como a grande revelação irlandesa dos últimos anos. Usam a formação de power trio para passar bem longe do punk e se filiar à sonoridade eletrônica. Expoentes do indie rock sob medida para as pistas de dança, desenham refrões melodiosos à Death Cab For Cutie e levadas rítmicas chupadas de Daft Punk e outros combos eletro, como Digitalism , diz Kev. Produzido por Eliot James (Kaiser Chiefs, Bloc Party), Tourist history já embarca os irlandeses numa turnê ao lado do Phoenix e confirma o nome da banda no line-up dos maiores festivais de verão da Europa em 2010. Ouça essa: Undercover Martyn (https://www.myspace.com/twodoorcinemaclub)
Theophilus London
Fugindo à tradição arraigada dos guetos mais populosos e pobres de Nova York, London passa longe da persona machista e materialista que corrompe e empobrece o rap americano. Incensado pelo universo da moda, por trás de seus óculos de grau, jaqueta de couro e influências pinçadas do rock britânico metralha versos inteligentes e mais um diferencial entoa alguns de seus refrões. Guiado por dançantes linhas de baixo, destila poesia urbana e contemporânea por entre batidas cruas e camadas de sintetizadores. Conhecido por mixtapes em que sampleia ícones do soul, R&B, jazz e até do pós-punk, conta com colaboradores de peso, como o produtor Mark Ronson e o cantor Sam Sparro. Ouça essa: Humdrum town (https://www.myspace.com/theophiluslondon)
Chew Lips
Escoltada pelos multiinstrumentistas Will Sanderson e James Watkins, a lourinha Tigs tem a fórmula do pop gravada na boca. Envolta em bases eletrônicas e sintetizadores pulsantes, constrói refrões grudentos com a mesma facilidade que desenha linhas melódicas sinuosas de forte apelo sensual. Fã do rock alternativo cravado por ícones como Pavement, Dinosaur Jr. e Yo La Tengo, enfileira hits certeiros como a hipnótica Play together. Produzido por David Kosten (Bat For Lashes), Unicorn é um apanhado de chicletes que fixam à primeira orelhada e versam sobre a passagem para a vida adulta. Não sabíamos muito bem onde chegar, mas era claro que não deveríamos soar como algo pós-Strokes, Bloc Party e Foals. É um disco de transição , revela Tigs. Ouça essa: Salt air (https://www.myspace.com/chewlips)
Rox
Desde que Amy Winehouse e Mark Ronson pintaram seu set de tintas sessentistas, uma profusão de jovens cantoras se lançaram à sonoridade Motown. Se em 2009, Adele, Duffy e VV Brown fizeram suas releituras, em 2010 a jovem Rox já não tem mais nada a ver com isso. Entre Sade e Lauryn Hill, cita de Portishead a Elton John como influências. Cruzada por referências aparentemente desconexas, essa inglesa de 21 anos, metade jamaicana, metade iraniana, assina em Memoirs uma odisseia amorosa. Começo o disco falando sobre uma relação estável, depois falo sobre perder alguém que não lhe faz bem e, finalmente, o caminho até encontrar um novo amor , diz Rox ao Caderno B. Dona de um timbre cristalino e de uma extensão invejável, aposta na diversidade. Hits instantâneos como No going back cruzam o terreno do soul, reggae e o mais puro pop. Ouça essa: My baby left (https://www.myspace.com/roxmusik)
Chapel Club
Entra ano e sai ano, o cenário britânico catapulta uma releitura do pós-punk cunhado por Ian Curtis e seu Joy Division. Com a mesma verve carregada de bandas como The Editors e White Lies, o vocalista Lewis Bowman desenlaça melodias soturnas mas de irrefutável apelo pop. Barítono, empresta vocal encorpado para preencher arranjos que valorizam linhas de guitarras pontuais e estridentes. Citando Sonic Youth, New Order, Yeah Yeah Yeahs, Atlas Sound e Liars, Bowman ainda revela desconforto à frente do microfone. É a minha primeira banda. Tive que aprender a cantar, escrever canções e me apresentar ao vivo. Fico surpreso que os nossos shows estejam chamando atenção. Ainda me parece um pouco ridículo , confessa. Ouça essa: O maybe I (https://www.myspace.com/chapelclub)
Holly Miranda
Dona de uma voz suave e de canções de tinta folk, Holly Miranda caiu nas graças de um dos mais celebrados produtores da atualidade, o guitarrista do TV On The Radio, David Sitek. Sob o estofo da cuidadosa produção do músico, seu disco de estreia, The magician's private library, chancelado pela renomada XL Recordings, ganha a companhia das originalíssimas vozes de Tunde Adepimbe e Kyp Malone, ambos do TVOTR. Sob uma torrente de metais, teclados e guitarras, a moça desfila um repertório comovente em meio a paisagens sonoras acinzentadas, desoladas e, por vezes, fantasmagóricas. Ouça essa: Waves (https://www.myspace.com/hollymiranda)
Phantogram
Procedente da remota Saratoga Springs, a poucos quilômetros de Nova York, não demorou para o duo formado por Sarah D. Barthel (voz e piano) e Joshua M. Carter (guitarra) aterrissar na metrópole. Avançam sobre a música neoclássica, krautrock, shoegaze e o afrobeat para embalar letras sobre amor e morte. Tentamos fazer a música que gostaríamos de ouvir... Algo fresco e novo, mas que seja familiar e estimule a nossa criatividade, como os Beastie Boys, Flying Lotus, Pavement, Bowie, Sparklehorse... , enumera Josh, que anda escutando Beach House e excursionando com bandas como XX e Yeasayer. Ouça essa: Mouthful of diamonds (https://www.myspace.com/phantogram)
Free Energy
Eles não reinventam a roda mas emprestam generosas doses de diversão e ironia à seriedade do rock produzido atualmente. Distribuindo riffs clássicos em distorções setentistas, prestam tributo ao hard rock, mas deixam de lado a agressividade para construir uma sonoridade despojada. Refrões ganchudos fizeram a cabeça de James Murphy (LCD Soundsystem), que produziu o álbum de estreia e agora o distribui pelo seu selo DFA. James nos encorajava, dizia que deveríamos nos divertir. Ele é o responsável pela atmosfera relaxada do disco , ressalta o guitarrista Scott Wells. Ouça essa: Dream city (https://www.myspace.com/freeenergymusic)