Bernardo Costa, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - É absurdo, veja bem. Seria preciso que eu fosse um indivíduo anormal, um desses casos de cinema, de romance . É o que diz Samuel Cardoso a determinado momento do conto O gerente, de Carlos Drummond de Andrade, espantado com o fato de Deolinda acusá-lo de ter-lhe decepado a ponta do dedo ao cumprimentá-la com um beijo na mão. O estranho hábito do protagonista de fato virou caso de cinema pelo olhar de Paulo César Saraceni, que pretende lançar seu recém-finalizado longa-metragem, homônimo à obra de Drummond, no Festival de Cannes, em maio deste ano. O diretor não lançava um longa desde 2003 (ano do documentário Banda de Ipanema).
A chegada de O gerente às telas representa um acerto de contas de Saraceni, 76 anos, com sua paixão tanto pelas letras quanto pelo cinema.
Eu estudava no Liceu Francês quando o colega de classe Oswaldo Waddington me deu vários livros de Drummond, em 1952. Foi quando li o conto e fiquei encantado. O personagem se apaixona pelas mulheres e tem uma coisa meio vampiresca de morder a ponta dos dedos delas. Na mesma hora eu fiz uma adaptação para cinema. Meu primeiro ato como cineasta.
Apesar de já atuar na revista Latina como crítico cinematográfico, Saraceni ainda não estava totalmente decidido pelo cinema na época, o que o fez engavetar o roteiro. Porém, após ser homenageado no Programa Petrobras Cultural em 2007 pelo conjunto da obra iniciada com o curta Caminhos (1957), uma das primeiras experimentações dos jovens que formaram o Cinema Novo é que se lembrou do antigo projeto. Com os R$ 800 mil que recebeu da estatal, pode realizá-lo.
Fiz o filme baseado neste roteiro que escrevi em 1952. A dificuldade maior foi a financeira, pois contei apenas com esse dinheiro, mas por outro lado foi fácil porque eu tinha a idéia na cabeça e nós fomos improvisando.
O diretor relata que driblou o orçamento curto contando muito com a amizade .
Os envolvidos, como os atores Othon Bastos, Paulo César Pereio, Ney Latorraca, que interpreta o protagonista, e Joana Fomm, que faz a narradora, e que foi namorada do próprio Drummond, aceitaram receber pouco e se divertiram muito.
Filmado em pontos conhecidos da cidade (Laranjeiras, Largo do Machado, Cinelândia, Praça 15) e seguindo com fidelidade o conto de Drummond, O gerente também traz Luis Carlos Saldanha como diretor de fotografia, Ana Maria Nascimento e Silva, no papel de Deolinda, Djin Sganzerla, filha do cineasta Rogério Sganzerla; e, na trilha sonora, João Gilberto.
Nisso ninguém acreditou. Falei com o João por telefone, que é uma coisa que ele adora, diferentemente de encontros pessoais, e ele aceitou. Fez duas músicas, mas ainda falta uma. Diz ele que já terminou. Mas também coloquei músicas de Cartola, Noel Rosa e Maria Callas, interpretando uma ópera de Verdi, que o personagem Samuel adorava.
O baixo orçamento de O gerente é marca registrada de Saraceni. Para ele, o cinema como obra de arte é conflitante com a ideia de mercado.
Só fiz filmes baratos, que primam pela poesia, a marca dos filmes do Cinema Novo. Em Porto das Caixas (1962), por exemplo, eu quis fazer um filme que fosse modelo de cinema artístico, barato, avesso a esse negócio de mercado. O erro de muitos filmes brasileiros é justamente a procura por bilheteria. Mercado é Holywood, não é Brasil.
Saraceni conta que, recentemente, recebeu um telefonema da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, informando que seus filmes foram selecionados para serem restaurados.
Fiquei muito feliz. Ainda não sei como isto vai ser feito, mas pretendo começar a restaurar a Trilogia da paixão, formada por Porto das Caixas (1962), A casa assassinada (1971) e O viajante (1998) , realizados a partir da literatura de Lúcio Cardoso.
Além do projeto de restauração de sua obra cinematográfica, Saraceni está escrevendo, juntamente com seu filho João Paulo e Gustavo Dahl, o roteiro para um próximo longa, intitulado Chaplin Club. O nome do filme remete aos primórdios de sua ligação com o cinema.
Quando eu jogava futebol no juvenil do Fluminense, o diretor do clube, Octávio de Faria, dizia que eu entendia de cinema e passou a me emprestar vários livros sobre arte. Foi ele quem fundou o primeiro cineclube da América Latina, chamado Chaplin Club, que ficava em Mangaratiba. Ali, eu, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman tivemos nosso primeiro contato com o cinema, através de Humberto Mauro, Mário Peixoto e Eisenstein. O filme vai ser uma mistura de documentário e ficção. O Gustavo vai fazer a parte documental e eu a ficcional, do sonho.
A decisão de viver efetivamente de cinema se deu em 1954, por ocasião do primeiro festival de cinema internacional ocorrido no Brasil. Organizado pelo crítico Paulo Emílio Salles Gomes, em São Paulo, o evento contou com a presença do cineasta austríaco Eric Von Stroheim, que impressionou o jovem Saraceni com seu filme Ouro e maldição (1924) e com a palestra que proferiu após a exibição.
Foi ali, na Praça da República, em São Paulo, que fiquei louco querendo fazer cinema. Quando saí de lá fiquei perdido, nem sabia mais onde era o hotel. Na volta para o Rio, pensei em um lugar onde poderia trabalhar com cinema. Foi assim que fui parar na Atlântida como assistente do Carlos Manga. Mas não gostei das chanchadas, de nada daquilo, pois queria fazer cinema com o rigor do Stroheim, que foi o primeiro a introduzir a estética neo-realista no cinema mundial... embora os italianos não reconheçam muito isto.