Lúcia Bettencourt, Jornal do Brasil
RIO - O nome da autora é conhecido: Márcia Tiburi integra a equipe do Saia Justa, programa de tevê a cabo que pretende oferecer um painel diversificado de opiniões femininas. Doutora em filosofia, professora de história da cultura, Márcia é a autora de diversos livros: as antologias As mulheres e a filosofia (2002), O corpo torturado (2004) e Mulheres, filosofia ou coisas do gênero; os ensaios Uma outra história da razão (2003), Diálogo sobre o corpo (2004), Filosofia cinza: a melancolia e o corpo nas dobras da escrita (2004), Metamorfoses do conceito (2005). Em 2008 publicou Filosofia em comum: para ler junto.
O manto é o terceiro volume de uma trilogia íntima iniciada pelo romance finalista do Prêmio Jabuti de 2005, Magnólia: romance em 100 fatos e um voo de inseto. A trilogia, que agora se completa, constitui-se pela narrativa de acontecimentos mínimos, mas capazes de, em sua pequenez, revelar a condição existencial da mulher. Misturando paixão com meticulosidade, a divisão lógica do texto, mesmo que arbitrária, emoldura as frases poéticas que reinam no domínio da intuição. A narrativa, fugindo do épico, procura revelar, nos fragmentos líricos escavados do cotidiano, revelações do processo de (auto)conhecimento em que as personagens são surpreendidas.
A história narrada neste último romance é, em última análise, a mesma história das duas narrativas anteriores. Se em Magnólia temos uma mulher que encontra uma casa (que é ela mesma) e nessa casa abre gavetas que lhe permitem examinar suas próprias fantasmagorias; se na Mulher de costas (ao contar a lenda da Salamandra) temos uma mulher que atravessa um deserto, e esse deserto é ela mesma; em O manto, ornitomance das Berenices, temos uma mulher que se esconde num armário e nesse armário encontra as fitas gravadas que lhe permitirão examinar os fragmentos de acontecimentos que, provocando sua reflexão, permitirão sua construção como indivíduo.
Os resumos apresentados por Marcia Tiburi são enganosamente simplificadores. Em verdade, os três alentados romances não revelam suas chaves com facilidade, e constituem-se em leitura exigente e sofisticada. E, embora sejam partes de um conjunto, são obras independentes, que não necessitam umas das outras para se sustentarem.
O manto está dividido em três partes, um prólogo extenso, com parágrafos numerados, que explicam o propósito das reflexões; uma segunda parte onde são transcritas as fitas e uma última parte, oriunda da transcrição de um caderno. Os artifícios da narrativa pretendem mesclar sujeito/autor/narrador, apropriando-se de objetos que pertencem à vida cotidiana de alguém que se refugia em reflexões.
Na primeira parte, conta-se a história de uma mulher que recebe uma casa de herança. Dentro dela há um armário no qual se encontra guardada uma caixa de sapatos com nove fitas cassete, que foram deixadas por sua mãe. Esse encontro com o passado lhe provoca o desejo de transcrever as fitas em forma de romance, mas, inexperiente, passa mais tempo falando sobre o que a levou ao processo de escrever o livro, ou melhor, de transcrever o conteúdo das fitas.
Na segunda parte estão as transcrições detalhadas das fitas; acompanham notas explicativas. Nas fitas, como retalhos de uma manta, estão gravadas as emoções de uma mulher que vê seu marido voltar para casa após 20 anos de ausência. Refletir sobre a solidão é o que alimenta as gravações. Finalmente, na última parte, o leitor encontrará a urdidura da história traçada num caderno, que só será inteiramente compreendida com a leitura de uma carta, uma espécie de pós-escrito.
Márcia Tiburi, que demorou sete anos para realizar o projeto, tinha a intenção de não escrever mais literatura depois de terminar a trilogia íntima. No entanto, o propósito de dedicar-se apenas à filosofia não durou, e a autora diz que já está outra vez envolvida com um novo romance, embora espere que este não demore tanto para ser concluído, como ocorreu com O manto. No entanto, a demora faz parte do processo de insuflar a vida na palavra, a autora informa.
Para Márcia, a literatura é esse processo vital, a que ela se entrega com a mesma intensidade com que faz filosofia. Mas, enquanto a literatura é entendida como um processo que necessita da palavra escrita, a filosofia pode ser praticada na oralidade e até mesmo só no pensamento. No caso de Márcia, porém, o pensamento filosófico se entremeia no texto literário e cria textos que ela se recusa a aceitar como relatos ou novelas, talvez porque: A escrita é a morte do conhecimento, dizem até hoje, podemos ler em quaisquer dos livros que temos por aqui .
O que temos em mãos? A tentativa de materialização da substância de que se compõem os raciocínios estimulados pelas emoções e vivências cotidianas transcrição do delírio da vida.