Um livro sobre a morte em combate com gosto de fel

Marcelo Ambrosio, Jornal do Brasil

RIO - Já li muita coisa sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão. Enquanto esta última ainda é um livro aberto, no qual cada lado vem reescrevendo as páginas diariamente, na terra de Saddam o tempo já nos permite algumas divagações conclusivas. Se for para mergulhar a esse ponto, então Guerra sem fim, do repórter americano Dexter Filkins, deve ser uma leitura obrigatória para ambos os cenários.

Verdadeiro, vertiginoso, crítico sem ser maniqueísta, intenso, o texto de Filkins transmite o gosto de fel imposto aos combatentes pela adrenalina da batalha. Ao contrário de muitos de seus colegas que criaram versões heróicas para a campanha que manchou a história dos EUA, estamos diante de uma rara demonstração de isenção profissional. Detalhe: não há frieza, pelo contrário. Ninguém encontrará nessas páginas discussões estéreis sobre a necessidade ou não da guerra. Sobram medo e dor.

Dexter Filkins é um frontman nato. Isso significa ler capítulos eletrizantes como aqueles em que descreve a batalha de Falluja, cidade do triângulo sunita que chegou a estar em poder de um califado islâmico associado à rede Al Qaeda liderada no país à época pelo sanguinário Abu Musab Al Zarqawi. Ao lado do parceiro de cobertura, um fotógrafo australiano, o repórter produz relatos do episódio mais sangrento do conflito, aos quais a assepsia ordenada pelo governo Bush à cobertura não alcançou sucesso. Corremos com o autor por entre as vielas poeirentas, sentimos e ouvimos as balas dos mujaheddins sibilando sobre sua cabeça, atingindo paredes e matando pessoas. Isso é o Iraque.

Por esse viés participativo , há uma legitimação da morte jamais vista, mas um elemento essencial em qualquer relato de guerra desde a antiguidade. Aqui os marines morrem, sangram, tem maxilares arrancados por balas, pernas destruídas em explosões, cabeças abertas em horríveis ferimentos, trocam tiros com inimigos que não veem, frustram-se por não entender contra o que ou contra quem lutam. Erram e acertam. Em tempo: no livro os marines também matam, e muito, sobretudo rebeldes dispostos a morrer pela fé. É fácil nos sentirmos atônitos diante do desfecho de muitos desses episódios.

Dexter Filkins não glorifica nem os marines como heróis libertadores do Iraque, nem seus inimigos como arautos da resistência. São soldados profissionais lutando pela sobrevivência em uma guerra que jamais compreenderam. Nesse livro, a estatística militar, sempre dando ar impessoal às baixas inimigas, cede lugar a nomes, descrições, perfis. A Al Qaeda tem rosto. E ele costuma ser tão comum que se torna dissimulado.

Risco, aliás, é um elemento chave na narrativa, tanto quanto a ironia como no comunicado da rede terrorista enquadrando duas células que foram ao martírio nos mesmos alvos e reivindicavam, ambas, a glória. Capturado pelos guerrilheiros xiitas em Najaf, Dexter e o fotógrafo escaparam de um tribunal islâmico por milagre. Mas o texto não espuma de ódio por isso. Em várias entrevistas, o repórter expõe nos personagens os elementos que tornam o Iraque o maelstrom da civilização ( rodamoinho mítico que os nórdicos acreditavam sugar barcos no Mar do Norte).

Tudo é engolido pelo nonsense, da relação com os americanos à tentativa de se comprender os desvãos do pensamento árabe, tão saturado de violência. E, a maior ironia: convidado por Ahmad Chalabi vigarista que quase virou premier do Iraque a acompanhá-lo a Teerã, Filkins descreve a visita ao espetacular museu de arte contemporânea mantido com o acervo tomado a Farah Diba, mulher do deposto xá Reza Pahlevi. Uma das obras mais admiradas pelos partidários de Ahmadinejad é de Marc Chagall. Que era judeu. Vai entender.