Fazer 50 anos é libertador, diz Michelle Pfeifer

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

DA REDAÇÃO - Ela já foi amante de nar cotraficante (Scarface), flertou com o mundo dos gangsteres (De caso com a máfia) e mostrou suas garras para o Homem Morcego (Batman O retorno). Aos 51 anos, a atriz americana Michelle Pfeiffer, a Mulher Gato mais sensual que o cinema já inventou, continua deslumbrante em carne e osso e machucando corações nas telas. Em Chéri, que estreou neste fim de semana no circuito nacional, ela encarna uma cortesã da Paris do início do século passado que sofre e faz sofrer com a iminente separação de seu amante (Rupert Friend), muito mais jovem do que ela, e filho de sua melhor amiga e rival nos negócios , vivida por Kathy Bates (Louca obsessão).

Adaptação do romance da escritora francesa Colette (1873-1954), que acaba de ganhar uma nova edição brasileira com o selo da Record, o belo drama de época promove o reencontro da atriz com o diretor inglês Stephen Frears, com quem fez Ligações perigosas 21 anos atrás. O filme marca a volta de Michelle ao papel de protagonista, depois de uma série de personagens coadjuvantes que puseram fim a um breve hiato longe dos sets. E o nome de Frears não foi o único fator determinante neste retorno ao centro

das atenções:

Chéri fala de mulheres que lidam com a idade. Descobri que fazer 50 anos não é nada demais. É até libertador contou a atriz americana em entrevista ao Jornal do Brasil.

Como descreveria esse reencontro com o diretor Stephen Frears?

A primeira vez que trabalhei com Stephen envolveu muita sorte da minha parte. Acho que a maior diferença entre os dois momentos é que, na época de Ligações perigosas, eu não sabia nada sobre o Stephen e, portanto, não tinha ideia no que estava me metendo. Desta vez eu apenas fiquei emocionada e muito feliz quando ele me ligou convidando para fazer Chéri. O convite foi tão repentino e o filme aconteceu tão rápido... De uma certa forma, acho que estava mais animada com a ideia de trabalhar com ele agora do que em Ligações perigosas.

Que aspecto da história de Lea, sua personagem, lhe pareceu interessante?

Acho que o fato de ela ser uma mulher à frente de seu tempo, mesmo para os padrões de hoje. Nós ainda tratamos como tabu o envolvimento de mulheres com homens mais jovens do que ela. É claro que esse tipo de relacionamento está se tornado cada vez mais comum e socialmente aceitável, mas o filme me fez lembrar que esse assunto ainda é complexo nos dias de hoje.

Léa é uma cortesã que se aposentou por causa da idade. Como você, que acabou de fazer 50 anos, lida com a questão em sua profissão?

Escuto esse tipo de pergunta desde que fiz 35 anos, já até me acostumei com isso, embora a odeie cada vez que me perguntam sobre idade. O que é irônico nesse caso é que eu fiz 50 anos enquanto fazia Chéri. No fundo, é um filme sobre mulheres que lidam com as pressões de estarem chegando numa idade já considerada avançada, e se preparam para o próximo estágio de suas vidas. Também passei por esse tipo de pressão, porque ninguém quer fazer 50 anos e, sabe o que mais? Chegar aos 50 não é nada demais. É até libertador, o que é um alívio. Quem poderia imaginar? (risos)

Você voltou a fazer filmes depois de um hiato longe das telas. Qual o motivo do distanciamento do trabalho?

Foi uma combinação de coisas. Primeiro, não estava encontrando projetos que me entusiasmassem a voltar a trabalhar. Ai então tive que mudar de casa, com toda a minha família (ela é casada com o produtor e roteirista de TV David E. Kelly). Também foi o período em que meus filhos estavam se ajustando à escola. Foi um período que me consumiu muita energia e tempo. Depois que tudo ficou no seu lugar em casa, começaram a aparecer roteiros interessantes. O primeiro deles foi Nunca é tarde para amar, da Amy Heckerling, que demorou uns dois anos para ser feito e não foi lançado decentemente, talvez tenha ficado em cartaz um ou dois dias em seu país. Depois veio Stardust O mistério da estrela e, em seguida, Hairspray Em busca da fama, dois projetos irresistíveis.

... E nos quais a senhora faz personagens não necessariamente de grande beleza, física ou moral. É uma forma de provar que a senhora pode fazer qualquer tipo de papel?

De forma alguma. Já me senti enquadrada em um determinado tipo de personagem antes, anos atrás, mas não agora. Minha preocupação é encontrar papéis que me animem a trabalhar.

Em que época lhe impuseram um estereótipo?

Lembro exatamente do momento: quando eu fiz De caso com a máfia (1987). Talvez tenha começado um pouquinho antes, já em Scarface, mas como o filme do Jonnathan Demme foi especial para todos os envolvidos nele, senti com mais força o que o público tinha uma ideia do que poderia esperar de mim, ou seja, fazer mulheres sensuais, belas e perigosas. Mas já me libertei disso há muito tempo.

Mas você continua deslumbrante em 'Chéri'....

É tudo uma questão de boa iluminação! (risos) Darius (Khondji, o diretor de fotografia do filme), é um gênio, me livrava de todas as situações que me prejudicavam. Eu até chegava perto dele e insistia: Nesta cena não é para eu ficar bonita . Dizer uma coisa dessas era como machucá-lo gravemente (risos). Ele ia lá, refazia algumas coisas e me dizia: Isso é máximo que posso fazer . E mesmo assim, tudo ficava lindo e maravilhoso na tela.