Crítica de teatro: Aquelas mulheres e Restos

Macksen Luiz, Jornal do Brasil

DA REDAÇÃO - Neil Labute é o autor do momento. Nada menos do que três montagens do autor americano estão atualmente em cartaz. Além de A gorda, há quatro meses em cena no Teatro das Artes, Aquelas mulheres, no Teatro Fashion Mall, e Restos, no Teatro dos Quatro, acabam de estrear, enquanto Baque apresentou Labute há quatro anos à plateia carioca e A forma das coisas deu seguimento ao festival de seus textos. Esta concentração em torno do dramaturgo não parece um acaso, mas o alinhamento com tendência internacional em torno de autor com produção prolífera e indiscutível domínio em contrabalançar universo dramático alinhado com tramas atuais e efeitos de linguagem que utiliza convenções narrativas tradicionais.

Numa primeira fase de sua carreira, aquela menos comercial , Labute recorria aos mesmos cânones de sua escrita, mas com maior parcimônia nos truques e nos golpes de teatro, comuns nas suas últimas peças. Em Baque, a inspiração era na tragicidade grega, adaptada a três histórias com tramas perturbadoras. Em A forma das coisas, a arte serve de pretexto e de metáfora para relações contemporâneas, algo doentias, e de barganha entre individualidades egoístas.

Nada parece muito real

Já em A gorda constrói narrativa ligada ao melodrama para comentar a obesidade com a oportunidade proposta por sua recorrência na vida atual. Aquelas mulheres está na categoria da segunda fase da dramaturgia de Neil Labute. O homem que promove sucessivos encontros com ex-namoradas para, aparentemente, medir a sua fase atual de vida, revelará a sua verdadeira intenção nas cenas finais. Este colaborador de revistas chiques atrai as mulheres para reviver e anotar o que mudou, em si e nelas, ao longo do afastamento. Nada parece muito real, as mulheres, tipificadas em várias categorias (dona de casa suburbana, hippie tardia, a sofisticada, a empresária estressada) se sucedem em longas conversas em que relembram e reavaliam a relação. Nos confrontos, que na verdade se resumem a um único, já que a perspectiva da ação é a masculina, transmite-se indisfarçável misoginia, ao transformar as mulheres em objeto de uso.

O homem, instrumento para quatro duetos de uma nota só, é o veículo esquemático para a revelação derradeira, nada espantosa. Flávio Ramos Tambellini segura com mão, mais ou menos firme, essa entediante dialogação, sem buscar variantes para o formato repetitivo. A solução cenográfica de Cristina Borges, com as mudanças de quadros alongadas pela necessidade de trocar de ambiente, reforça a falta de ritmo e a redundância das cenas. A dona de casa vivida por Larissa Maciel é ultrapassada pela beleza da atriz. Paula Braun, Lorena Silva e Luiza Mariani compõem excessivamente personagens já por demais sublinhados como tipos. Pedro Brício, num registro diverso ao que habitualmente atua, demonstra segurança e inteligência interpretativa para preencher personagem com tão poucas possibilidades.

Restos percorre o mesmo caminho, em outra direção, mas com igual desfecho. O monólogo trata de morte, de doença terminal, dos males do fumo, em discurso direto de um viúvo durante o velório da mulher. A reconstituição da vida em comum, a origem de cada um, os anos de convivência, as lembranças e a previsibilidade do futuro são repassados neste solilóquio armado para que a plateia se surpreenda com o segredo desvendado nos últimos minutos. Este tiro de surpresa, para além do seu pouco alcance como golpe dramático, é facilmente percebido bem antes de ser desmascarado.

Domínio do ator

Márcio Aurélio, diretor de recursos sofisticados, aproveitou a forte presença do ator, afinal os monólogos têm pouco mais do que a monopolização do intérprete para se fazer cena, e cercou a montagem de refinado invólucro. O cenário de André Cortez utiliza painéis abstratos com toques de iluminação. A música, em pequenas intervenções, ajuda a criar atmosfera. Mas o destaque da montagem está na interpretação de Antonio Fagundes que, com domínio de seus meios expressivos, segura a plateia, capturando o seu riso, instigando a sua emoção, sobrepondo-se à linearidade do personagem. A forma como Fagundes conquista a atenção e o silêncio do público, sem quaisquer truques e facilidades, só confirma a maturidade interpretativa do ator.