Novo filme de Roberto Santucci, 'Sex delícia' segue filão da comédia

Daniel Schenker *, Jornal do Brasil

PAULÍNIA, SP - Com a quase total interrupção da produção cinematográfica brasileira durante o período Collor, no início da década de 90, cada filme realizado passou a entrar em cartaz munido da responsabilidade de reconquistar uma ampla faixa de espectadores, de modo a reverter um quadro mais que adverso. Não é de se estranhar que não houvesse tanto espaço para comédias românticas ou de situação. Com o correr dos anos, os diretores voltaram a investir na despretensão. Até culminar num 2009 marcado pela boa receptividade de longas como Se eu fosse você 2, de Daniel Filho, Os normais 2 e Divã, ambos de José Alvarenga Jr., e A mulher invisível, de Claudio Torres. Sex delícia, novo filme de Roberto Santucci que está sendo rodado em Paulínia, aposta no humor. Mas, de acordo com a produtora Mariza Leão, não se trata de uma tendência de mercado óbvia.

O fato de não termos propriamente uma indústria cinematográfica faz com que os ciclos sejam interrompidos e curtos. O ano de 2009 foi das comédias. Mas em 2010, por enquanto, só temos duas: O bem amado e Sex delícia aponta Mariza, citando o filme de Guel Arraes, que resgatará as conhecidas peripécias dos personagens de Dias Gomes já contadas na televisão e no teatro.

Em sua trajetória como produtora à frente da Morena Filmes, Mariza Leão se surpreendeu com o percurso positivo de determinados projetos.

Todo filme é um voo cego. Não acho que comédia seja receita. Guerra de Canudos (1997) era um épico de três horas e funcionou com o público. Em Meu nome não é Johnny (2008) havia uma história dramática, apesar do humor. Deu muito certo e eu fiquei angustiada porque tive a sensação de que nunca mais conseguiria emplacar outro sucesso observa Mariza, que menciona os longas assinados, respectivamente, por Sergio Rezende e Mauro Lima.

Cinema mais pudico

Surpresas, de fato, aconteceram nos últimos anos, valendo evocar a repercussão da comédia histórica Carlota Joaquina (1995), de Carla Camurati, marco da retomada. Mas, por enquanto, um dado se mantém: o afastamento do erotismo no cinema brasileiro pós-Collor. O título do filme de Santucci parece apontar para um revival do gênero.

Em 1989 produzi Doida demais, um dos últimos filmes eróticos do cinema nacional lembra Mariza Leão, em relação ao filme de Sergio Rezende protagonizado por Vera Fischer. Morro de vontade de voltar ao gênero. Não considero arriscado. Mas pouca gente no mundo pensa no erótico. Qual foi o filme que tivemos nessa linha recentemente? Só Desejo e perigo (2007), de Ang Lee. O cinema americano se tornou pudico, ainda mais depois dos atentados às Torres Gêmeas.

Com estreia oscilando entre outubro de 2010 e janeiro de 2011, distribuição a cargo da Downtown Filmes e da Paris Filmes e co-produção da GloboFilmes, Sex delícia, porém, passará longe da filiação ao erotismo. Na tela, os personagens falarão muito sobre sexo, mas pouco ou nada será mostrado. A motivação foi outra: o projeto surgiu no instante em que Roberto Santucci bateu o olho numa foto de jornal a de Érica Rambalde Purcino, vendedora de sex shop a domicílio. A partir daí, Nilza Rezende e Mariza Leão propuseram o argumento e Marcelo Saback e Paulo Cursino desenvolveram o roteiro em torno das histórias de Alice (Ingrid Guimarães), que prioriza o trabalho em detrimento das relações afetivas, desequilíbrio que acaba gerando uma crise em seu casamento com João (Bruno Garcia), e Marcela (Maria Paula), dona de uma loja de artigos eróticos engajada na busca do prazer .

Roberto Santucci gosta de se exercitar no cinema de gênero. Em Bellini e a esfinge (2001), baseado no livro homônimo de Tony Bellotto, e no inédito Sequestro relâmpago (2008), transitou pelo thriller. As cidades tinham papel fundamental nas tramas no primeiro caso, o bas-fond de São Paulo e no segundo, um bairro atravessado por discrepâncias econômicas, como São Conrado, no Rio de Janeiro. Em Sex delícia, produção de orçamento estimado em R$ 5 milhões que foi contemplada pela prefeitura de Paulínia com a verba de R$ 800 mil, o diretor migra do suspense para a comédia e anuncia que o Rio será relevante na contextualização dos personagens.

Procuro trabalhar com os espaços que conheço. Decidi ambientar essa história na Barra da Tijuca, onde moro. Há uma ideia ultrapassada acerca do morador da Barra, bairro que hoje conta com uma mistura de classes sociais. Não é só vida fechada em condomínio garante Santucci, que, em Paulínia, está filmando cenas num dos grandes estúdios do polo, de 900 metros quadrados.

A elevação das cidades ao posto de personagens centrais é, portanto, uma das características do cinema de Santucci, que acumulou experiência em Los Angeles, como assistente de montagem em filmes como Código de honra (1992), de Robert Mandel, e Lendas da paixão (1994), de Edward Zwick.

Um filme é, em boa parte, feito na sala de montagem. Quando fui trabalhar em Lendas da paixão perguntei quanto tempo iria durar a fase de montagem. Disseram que levaria o tempo que fosse necessário, até que ficasse bom conta Santucci, que realizou seu primeiro longa-metragem, Olé! (2000), em Los Angeles, com uma verba de US$ 24 mil.

A equipe, num certo sentido, já se adianta e traz à tona o que cabe ser priorizado numa história com potencial para suscitar bastante discussão.

Constatamos um recuo do erotismo no cinema e um receio dos investidores em apostar no gênero. Em contrapartida, casas de swing se multiplicam por aí. A sexualidade vem sendo buscada de forma cada vez mais diferente destaca Bruno Garcia.

Maria Paula chama atenção para o rompimento dos padrões de comportamento convencionais por parte da juventude atual.

Muitos jovens de hoje são ou se dizem bissexuais. A mídia é que se tornou careta. As coisas ficaram maquiadas sublinha.

Ingrid Guimarães concentra a questão nas dificuldades enfrentadas pelas mulheres no mundo contemporâneo.

As mulheres ainda não conseguiram equilibrar satisfatoriamente família e trabalho. Acho que falhamos na falta de atenção ao prazer diagnostica.

Denise Weinberg, que interpreta Marion, mãe de Alice, concorda que as mudanças não foram tão benéficas para as mulheres.

Nós perdemos uma feminilidade graciosa. Os homens se assustam. Não sabem mais quais são as suas funções ressalta Denise, entusiasmada com sua bem resolvida personagem. Ela diz: eu sou feliz com o que me resta . A frase é bem legal. Evidencia a opção de arrumar uma forma menos triste para continuar de pé.

* Daniel Schenker viajou a convite do polo cinematográfico de Paulínia