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Abbas Kiarostami fala sobre 'Copie conforme'

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Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

MARRAKECH - O maior cineasta iraniano vivo é, ironicamente, o menos conhecido em seu próprio país. Dono de inúmeros prêmios conquistados em festivais internacionais, o veterano Abbas Kiarostami ainda é uma das maiores vítimas do regime linha dura do presidente Mahmoud Ahmadinejad, cuja reeleição, em junho passado, foi contestada por parte da população, reação até hoje reprimida pelo governo.

Há 12 anos que um filme meu não passa no Irã lamentou o cineasta de 69 anos em entrevista ao Jornal do Brasil durante o Festival de Marrakech (realizado entre 4 e 12 de dezembro), no qual funcionou como presidente do júri oficial do evento.

Mundialmente conhecido por suas histórias de fundo realista, que oferecem uma visão poética da sociedade iraniana, como Onde fica a casa do meu amigo? (1987), e O gosto da cereja (Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1997), Kiarostami acaba de rodar Copie conforme, uma história de amor ambientada na Itália e protagonizada pela atriz francesa Juliette Binoche. O filme, que provavelmente terá première em Cannes, promete ter o mesmo destino dos demais trabalhos do diretor. É o preço que o cineasta paga por sua independência profissional:

Como o governo não tem controle sobre os filmes feitos de forma independente, ou seja, sem dinheiro ou interferência do Estado, os burocratas os banem do circuito.

'Copie conforme' é um filme político?

Não. É o que poderíamos chamas de uma típica história do tipo rapaz conhece garota (gênero romance).

E por que Juliette Binoche para o papel principal?

Na verdade, escrevi o roteiro especialmente para ela. Tempos atrás, Juliette veio me visitar em Teerã, depois de filmar sua participação em Shirin (2008, sobre mulheres iranianas). Na ocasião, contei-lhe essa história de amor, que acontecera de verdade, na Itália, e ela comentou que daria um ótimo filme. Comecei a adaptar aquela história em forma de roteiro, tendo ela em mente. Respeitei a geografia em que ela ocorre.

O senhor poderia adiantar sobre o que se trata?

Conta a história de um escritor inglês, autor de uma pesquisa sobre a relação entre trabalhos originais e suas cópias no campos das artes. Ele chega à Itália para receber um prêmio por este ensaio e lá conhece a dona de uma loja de antiguidades que se interessa pelo tema que ele estuda. Essa mulher, que vive na Toscana há uns cinco anos, é a personagem de Juliette.

O senhor foi criticado pelo governo do seu país por ter escolhido uma atriz francesa para o papel principal do longa. Como o senhor lida com essa pressão constante por parte das autoridades iranianas?

O gosto da cereja (1997) foi o último filme meu exibido nos cinemas do Irã. Todos os filmes feitos depois dele foram banidos das salas iranianas. Isso não acontece apenas comigo, mas com todos aqueles que fazem cinema independente no país. Como o governo não tem controle sobre o financiamento ou o conteúdo desses filmes, não permite que eles cheguem ao circuito. Minha sorte é que consigo fazer meus filmes sem precisar do dinheiro do Estado, busco ajuda de produtoras estrangeiras, como a MK2 francesa, com quem fiz Copie conforme.

Mas seus filmes não são propriamente políticos...

A censura tem pouco a ver com o conteúdo do filme. Alguns deles lidam com aspectos da vida social no Irã, mas muitos outros, sem qualquer fundo social ou político, têm sido banidos do país. Volto a frisar: o problema não é o conteúdo ou o tema, mas a forma como os filmes são feitos, sem o controle direto do Estado. Graças às tecnologias digitais, com câmeras mais leves e baratas, muitos jovens cineastas passaram a fazer filmes sem pedir depender do governo.

Os filmes independentes de seu país conseguem chegar ao circuito de festivais internacionais. O senhor não enxerga na acolhida estrangeira como uma forma eficiente de defesa da livre circulação dos filmes iranianos?

É difícil dizer o que pode ser eficiente ou não em relação ao governo iraniano. Duvido muito até que possa causar alguma reação de quem está no poder atualmente. Mas o apoio estrangeiro serve como um sinal de conforto, sim, para os intelectuais iranianos, para que eles sintam que outros se preocupam com eles e a situação do país. O governo, no entanto, mostra total indiferença ao que os países do ocidente pensam ou defendem.

Hana Makhmalbaf, um desses novos cineastas, exibiu no Festival de Veneza 'Green days', ambientado durante os confrontos que se seguiram ao resultado das últimas eleições presidenciais. O senhor não se vê fazendo filmes sobre a situação política do Irã?

Faço distinção entre o impacto da revolução (política e social) no meu dia a dia e o meu trabalho. Incidentes ou crises só poderão influenciar minha obra a longo prazo. Sempre evitei reações emotivas em meus filmes. Acho que a arte é um campo em que exige uma certa distância temporal de uma fato histórico para usá-lo de forma apropriada. No mais, separo o que sinto como cidadão iraniano do que faço para ganhar a vida. Não seria capaz de fazer filmes com esse tipo de aspecto jornalístico.

Então, como cidadão iraniano, como o senhor vê a situação atual do país?

Sinto que estamos vivendo um estado permanente de insegurança social, política e econômica, resultado direto das atitudes e escolhas feitas pelo governo ao longo dos anos. O principal dever de políticos e governantes é oferecer segurança aos cidadãos, mas não me sinto seguro em meu país. Aceito o fato de meus filmes serem banidos, porque posso encontrar outras soluções para sobreviver em minha profissão, mas quando se trata de minha vida, minha integridade física, é mais difícil ver uma saída.