Philippe Noguchi, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Se para o cinema, o grande veículo das massas deste século, já é um trabalho árduo lotar sessões diariamente, esta dificuldade aumenta quando se fala em teatro. Num meio que aos poucos se tornou elitizado, não é qualquer montagem que consegue se manter em cartaz por muito tempo, embora algumas peças do Rio estejam se destacando nesse sentido. Destes fenômenos, os principais são os espetáculos Minha mãe é uma peça, de Paulo Gustavo (há três anos em cartaz); Dona Flor e seus dois maridos, dirigida por Pedro Vasconcelos (há dois anos); Os homens são de Marte... e é pra lá que eu vou, de Mônica Martelli (há cinco anos); e, finalmente, Sassaricando, espetáculo com texto de Sérgio Cabral e Rosa Maria Araújo que, desde que entrou em cartaz, há dois anos, lota teatros pelas cidades onde passou. Todas elas voltam à cena a partir dessa semana, no janeiro gordo do teatro.
O segredo dessa peça é resgatar a identidade brasileira e carioca. Isso faz com que as pessoas se identifiquem e se emocionem comenta Rosa Maria Araújo, que assina o texto e pesquisa do musical ao lado de Sérgio Cabral. Também temos a marca de levantar a bandeira de não levar a vida muito a sério, de levar a vida sassaricando . Isso tudo atrai as pessoas, sem contar as marchinhas, que são engraçadas e divertidas, os cenários e os figurinos, ambos lindos
Não é possível esquecer também Boom, espetáculo dirigido e estrelado pelo irreverente Jorge Fernando, que reestreia dia 14 no Teatro Miguel Falabela, no Norte Shopping. A peça está há 11 anos em cartaz e foi assistida por mais de 1 mihão de pessoas. Já rodou praticamente todas as capitais brasileiras (à excessão de Belém, cidade que visita em abril), com a história do Professor Rebello, um paranormal que incorpora os mais divertidos personagens, entre eles uma dançarina francesa de can-can, uma cantora lírica e uma portuguesa apaixonada por fados.
Apesar de ser uma comédia escrachada, trazemos uma mensagem forte. Falamos de como somos egoístas, de como não trabalhamos nosso potencial e damos valor a pequenos problemas. Essa mensagem cria um choque muito grande com a baixaria destaca o diretor e ator Jorge Fernando. As pessoas querem ouvir isso, é o trunfo da peça. O público sai com vontade de rever sua vida.
De todos, talvez o espetáculo de Mônica Martelli, a estrela por trás de Os homens são de Marte e é pra lá que eu vou, seja o mais surpreendente. Mônica era uma atriz pouco conhecida quando resolveu escrever o monólogo que mudou para sempre a sua carreira. Sua personagem, Fernanda, é uma solteirona de 35 anos que organiza casamentos e, em busca do amor, se envolve com os vários tipos de homens ficando muito parecida com cada um deles, independentemente das características de cada um um alter ego da atriz, que esteve solteira por três anos. Para ela, a linguagem é a grande força da peça que a tornou famosa.
As mulheres sempre lembram de situações semelhantes que já tenham vivido. Por isso a peça é sempre nova. A busca pelo amor não envelhece assegura.
O sucesso das peças é notável, sobretudo num mercado tão disputado. Mas como se manter motivado depois de tanto tempo? Para o experiente Jorge Fernando, se reinventar é uma necessidade para seguir estimulado a interpretar o mesmo personagem.
O espetáculo sofreu muitas mudanças, está sempre vivo. Crio quadros novos, mudo música. Neste momento estou criando um novo início e trabalhando num quadro no qual interajo com pessoas da plateia. Essas mudanças não são somente para o público, mas para os atores também. Deixa de ser fácil, nos dá motivação para ensaiar. E, ainda bem, o público está aberto a essas mudanças.
Já para Rosa Maria, cuja peça já passou por várias alterações de elenco (na atual temporada, o cantor Pedro Miranda estreará no musical, substituindo Eduardo Dussek em algumas apresentações) tais adaptações não são fundamentais. Para ela, a motivação dos atores permanece enquanto se sustenta a ligação com os espectadores.
A peça não sofreu nenhuma mudança. A motivação está ligada à resposta do público, que é sempre muito calorosa. Há espetáculos que todos ficam muito emocionados. Sassaricando vai ficar tombada na cidade: acho que sempre teremos a peça no Carnaval torce Rosa.