A redescoberta de Carlos Scliar

Taís Toti, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Rever o legado artístico de Carlos Scliar (1920-2001).é como passear pela história do Brasil por meio de gravuras e pinturas. Nos 60 anos de atividade, sintetizados na exposição Perfil e trajetória, que abre no dia 13 no Centro Cultural Correios, o artista plástico gaúcho documentou, entre outras coisas, os desejos e dilemas do Brasil modernista, os telhados de Ouro Preto, as marinas de Cabo Frio, e as questões culturais do Rio Grande do Sul, em seu trabalho temático na década de 50. A exposição também traz os Cadernos de guerra, dos desenhos feitos quando o artista foi convocado pela Força Expedicionária Brasileira, e fecha com sua última e definitiva obra, A redescoberta do Brasil, série feita na época da comemoração dos 500 anos.

A exposição dá a oportunidade não só de conhecer um artista que considero fundamental, como um pouco da história do país afirma Marcus de Lontra Costa, curador da exposição, que abre a programação 2010 dos Correios. A questão da brasilidade é presente em todos modernistas, e em Scliar, a vida inteira.

Essa questão, explica o curador, é um elemento formador da identidade do pintor gaúcho, filho de imigrantes e homem da fronteira. Para Marcus de Lontra Costa, a ideia do ser brasileiro, num país jovem como o Brasil, é importante e significativa.

Isso fica evidenciado na obra dele, que nasceu em Santa Maria da Boca do Monte, interior do Rio Grande do Sul, e era um homem de esquerda. O modernismo era todo em cima dessa questão, para o bem ou para o mal, da recuperação do passado colonial. Tanto que uma de suas primeiras ações foi criar um instituto para preservar o patrimônio histórico mineiro, que era desprezado.

Ter acesso à obra completa do artista plástico, que começou a produzir nos anos 40, é tarefa fácil, graças ao Instituto Carlos Scliar, gerido por seus netos dele e guardião de um grande acervo. A dificuldade, segundo Lontra Costa, foi conter os excessos para não transformar uma exposição de caráter informativo em algo entediante.

Fizemos a seleção dentro das possibilidades, procurando evitar transformar em uma coisa excessiva e chata, que é um problema que se encontra nas exposições com perfil informativo. O recorte é a obra gráfica, que embasa todo o trabalho que ele realizou durante a vida.

Uma das grandes marcas da obra de Carlos Scliar é o rigor e a ordem, características que já foram destacadas até pela amiga Clarice Lispector.

O que perpassa toda a sua obra são duas coisas básicas: o traço, o registro, a velocidade do traço e, ao mesmo tempo, um espírito de composição muito grande. Todo trabalho de Scliar tem a organização do espaço muito clara, definida. Isso é fruto da questão gráfica.

A rapidez e fluidez do desenho, que pode ser feito em qualquer lugar e a qualquer momento, em contraste com a pintura, é um fator que, na opinião do curador, reforçam a influência do gráfico.

Alguns consideram a pintura do Scliar silenciosa e e até tradicional, mas quando ela é vista de perto percebe-se que ele tem um traço ágil, não fez aquilo com uma pincelada lenta. Em algumas pinturas fica até o resíduo do pincel. Isso tudo é herança da base gráfica.

Carlos Scliar começou com a literatura, até se dar conta de que as ilustrações que fazia para acompanhar suas produções eram melhores do que os próprios textos. Mas a palavra nunca abandonou seus trabalhos: frases ou letras estão muitas vezes presentes, dividindo espaço com as ilustrações e potencializando as obras.

Por ser artista de base cubista, ele usava de apelos gráficos e tinha uma sensibilidade pop, com mensagens diretas.

O curador ressalta que a relação do artista com a escrita ia além da literatura, já que se envolvia com diversas manifestações culturais.

Scliar é homem de cultura. Era um dos maiores conhecedores da obra do Pasolini, aficionado por cinema, lia muito, ouvia muita música. O João Bosco deve muito a ele, a Tônia Carrero era amicíssima. Se você acompanha a vida dele vê que ele ilustrou cadernos, livros, era amigo íntimo de Clarice Lispector, Rubem Braga, Jorge Amado. A concepção gráfica do espétaculo Orfeu da Conceição, do Vinícius de Moraes, era do Scliar.