Inspirado em Caio Fernando Abreu, 'Aqueles dois' estreia no CCBB

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - Um deserto de almas habita o departamento administrativo de uma repartição pública. O silêncio, o vazio e o tédio angustiante de vidas acomodadas parecem reger as leis e normas vigentes. O código moral, a ética e a conduta impecável daqueles trabalhadores desolados, porém, sofreriam um abalo. Pouco a pouco, dois novos funcionários, Raul, 31, e Saul, 29, passam a compartilhar gostos e desgostos comuns, numa cumplicidade que, embora incompreensível a eles próprios, passa a despertar sentidos e rumores cada vez mais incômodos aos companheiros de trabalho. Os seis meses de convivência diária entre estes dois personagens quietos e enigmáticos entre cafés, despachos, relatórios e trocas de impressões sobre a rotina moldam as linhas de Aqueles dois, um dos mais famosos contos de Caio Fernando Abreu. Transposto ao teatro e esmiuçado pela companhia mineira Luna Lunera, o texto chega aos palcos do CCBB a partir de sexta, após passar por Belo Horizonte e São Paulo. Comecei a ler os contos do Caio para um treinamento de atores do grupo e percebi que Aqueles dois tinha muito a ver com o que estávamos vivendo como companhia teatral conta o ator e diretor Cláudio Dias. Passávamos por um momento muito burocrático, envolvidos com prestação de contas e todo o processo que envolve leis de incentivo.

A labuta diária entre uma produção e outra remetia diretamente ao clima árido de uma repartição pública, justamente o universo criado pelo autor para o conto, publicado em Morangos mofados, um de seus livros mais famosos.

No texto, os dois personagens se encontram, o que representa uma ótima metáfora para o que acontecia com a gente durante as oficinas. Voltávamos a ter contato, tocar uns aos outros, num momento de criação artística, de encontro. E acho que este texto é sobre encontros e amizade explica o ator.

Com direção e dramaturgia de Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e Zé Walter Albinati, a peça, assim como o conto, lança mão de citações a artistas e obras de áreas diversas, da música e do cinema, como Audrey Hepburn, Jane Fonda e Carlos Gardel, todos misturados na narrativa, com o tom autobiográfico peculiar à produção literária do autor.

Os textos do Caio trazem uma musicalidade característica. Ela está contida nesta obra e foi transportada para o espetáculo. Ele sugere trilhas sonoras para a leitura dos seus textos. Neste caso, com muito Carlos Gardel detalha. Na peça, usamos as canções citadas no conto, além de outras de artistas que ele cita ao longo de suas cartas e outros textos, como Angela Ro Ro e Cazuza. É uma escrita bastante musical.

Na trama, que envolve o aprofundamento dos laços entre Saul e Raul, o autor dá margem a uma diversidade de leituras e percepções sobre o universo dos dois personagens, uma espécie de jogo e provocação que leva o espectador a refletir sobre amizade, preconceito e sexualidade. E soa como um lembrete para que o público nunca deixe de cuidar de suas próprias gavetas.

O que me impressiona no texto é a questão da amizade e do encontro, independentemente de gênero. O que nos emociona e cativa as plateias por onde passamos é justamente o encontro entre essas duas pessoas revela Dias. Assim como o texto do Caio, mantemos esse mistério, porque cabe ao público criar sentido ao relacionamento dos dois.

No palco, os quatro atores se revezam nos papeis de Raul e Saul e como narradores. Cenário, figurino, música e texto atuam simultaneamente num jogo textual e corporal entre atores, espaço e objetos.

Costuramos o texto passando do épico para o dramático. Quatro atores se revezam entre os personagens e na narrativa do texto. Ora os três são Saul, um de nós é Raul, e por aí vai. Serve para mostrar que essa história pode acontecer a qualquer um, incluindo os espectadores.